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ANTONIO MACHADO

12/05/2018 23:22 por Antonio Machado

Xô tranqueiras! O segredo da mudança é por a energia para construir o novo, não em lutar contra o velho

O Brasil de 2019 vai andar. Espera-se que para frente, se formos mais severos na escolha e menos tolos. É do que precisamos. Novas ideias. Caras novas. Enxotar o passado

Xô tranqueiras! 

O Brasil está uma bagunça, como sabido, e tem sido de pouca valia a enxurrada de explicações. A maioria delas repete lugares comuns, como a obesidade do Estado nacional, a luta de classes, a inépcia dos governantes, as mordomias da alta burocracia, a imoralidade do estamento político, a impunidade geral e a insegurança pública.

Criticar é sempre fácil. Confere ao crítico um ar de inteligência e o exime de se apresentar como corresponsável por “tudo isso que está aí”. Em tempo eleitoral, não faltam os críticos e os sabidos.

Eles têm fórmulas miraculosas para quaisquer problemas, boa parte aviada a cada ciclo de quatro anos como propaganda sazonal. Sempre têm os clássicos de antanho. Falta competitividade à indústria para exportar? Então, ponha-se a taxa cambial em R$ 3,80, R$ 4,00. É pouco? Expanda-se o crédito subsidiado e desonerem-se os tributos.

A sorte dos curandeiros é que ninguém atenta à data de validade da medicação, que deixou de ser fabricada em massa nos anos 1970. Nem confere contraindicações, como o risco de convulsão se ingerido com o álcool do orçamento deficitário e do endividamento descontrolado.

Os exorcistas de pensamentos mágicos excomungam seus cultores, uns e outros, no entanto, esquecidos de que a toda ação corresponde uma reação em sentido contrário. Vejamos. Se o gasto público é tóxico, corte-se o gasto. De quem, indaga o chato. Ora, dos pés de chinelo. Os concursados de elite do setor público têm direitos adquiridos – e do que é deles, juízes, procuradores, delegados, ninguém tasca.

E assim estamos, para não irmos longe, desde 1994, ano da reforma monetária, que seria o início da modernização dos usos e costumes de um país pródigo na retórica empolada pelos pobres, miserável em estratégias de desenvolvimento econômico, desatento com a educação, talhado sob medida para espertos fazerem alpinismo social à custa da maioria lembrada apenas em eleições, e olhe lá. Isso vai mudar?

Tem de mudar. Mas, como diz Dan Millman em seu célebre best-seller O Caminho do Guerreiro Pacífico, o segredo da mudança é concentrar toda a sua energia não em lutar contra o velho, mas em construir o novo. O que se foi não volta mais. A luz elétrica sumiu com a vela, o celular pos o computador na mão de qualquer um, e por ai vai.

É do que precisamos. Novas ideias. Caras novas. Enxotar o passado.

Os avanços exponenciais

O avanço exponencial da inovação tecnológica, formatando as bases da economia digital, é uma realidade que impacta não somente o processo econômico, as expectativas políticas, as relações sociais e a cultura nos países precursores nesta grande transformação, como EUA e China, mas os emergentes em diversos graus de atualização.

Não há como ignorar essas mudanças, elas já provocam disrupções em serie e condenam os retardatários, entre outras sequelas, a tempos de turbulência social, à irrelevância geoeconômica e a um sem fim de dificuldades quanto maior o atraso em relação às megatendências.

E não há espaço para soluções gradualistas contra os problemas do século passado, como o conflito da partilha fiscal, o sentimento de desesperança entre os jovens e os mais pobres, a disfuncionalidade da governança do setor público, as desigualdades regionais, a falta de coesão unificadora em torno do propósito comum de enriquecimento coletivo e individual, a desmotivação do espírito empreendedor.

Alienação dos candidatos

Foi-se o tempo de medidas tópicas para tudo se arrumar. O conflito entre ideias econômicas superadas com manifestações retrógradas nas áreas do comportamento e da cultura tira o foco sobre o que se deve fazer, enquanto as oportunidades batem à porta e o país morre na praia na corrida do progresso. Esse movimento já contagia o mundo.

É desanimadora a alienação dos candidatos em relação às mudanças à vista, provavelmente por desinformação. Caso, por exemplo, da volta da CPMF, um tributo sobre transações financeiras, enquanto todos os impostos em geral são pagos por via bancária, portanto, dispensando atalhos como o cogitado por alguns candidatos.

Já é possivel, e com muito mais eficiência, evoluirmos para um regime de tributação com processamento em tempo real em plataforma digital. Sem margem para sonegação, inadimplência, autuação, Refis, complicação. É a tecnologia abrindo portas.

Como arrumar a bagunça

Propostas assim vão recriar a gestão pública, baratear a produção, cercear na veia a corrupção. Isso é ser novo. É algo neste sentido que a sociedade reclama, sem encontrar correspondência na fala dos candidatos. Por isso, a retórica de alguns é voltada ao moralismo: um tema popular, embora a paz do cemitério não garanta o progresso.

Como também não resolve prometer uma gestão responsável, que, como educação e honestidade, não destaca ninguém, trata-se de obrigação. E voltamos ao início: a bagunça nacional à espera de arrumação. Não é a Lava Jato que vai resolver nem o “nós contra eles”, o discurso de fanfarrão e o jeitão de bom moço. Importa saber o que fazer com as inovações transformadoras da tecnologia. Há alguém habilitado?

Mais severo e menos tolo

Cabe ao eleitor decidir como receber o progresso inevitável - logo e sem muita dor ou daqui a uma década, se a queda não for profunda. O caminho mais fácil passa pelas reformas.

Com elas, no cenário do economista Fernando Montero, é lícito prever deficit primário (sem juros) zerado até 2020. Até antes ou com maior certeza, revendo-se renúncias tributárias, que desfalcam a receita sem contrapartidas.

Também será menos frustrante aceitar a Lava Jato como uma mudança de valor no ambiente político, o que não significa concordar com a intromissão do Judiciário sobre a autonomia dos demais poderes nem validar os benefícios iníquos que premiam juízes e procuradores. A moralidade pública é um bem a ser zelado sem exceção para ninguém.

Os prognósticos são estes. O Brasil de 2019 vai andar. Espera-se que para frente, se formos mais severos na escolha e menos tolos.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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