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ANTONIO MACHADO

17/03/2018 22:15 por Antonio Machado

Violência é resultado de décadas de desprezo dos poderes públicos com suas obrigações elementares

Governos vulgares, lançando programas mais para iludir a gente simples e desprovida de tudo que para alterar o status quo da pobreza, levariam um dia ao caos. E esse dia chegou

O Brasil está doente 

O Brasil está doente, mas menos por razões somáticas, do organismo econômico, que psíquicas, agravadas pela apatia política (ou medo?) frente ao desrespeito à autoridade e a desordem institucional.

A autoridade do Estado é, em última instância, a única a preservar como barreira derradeira contra a barbárie, como foi o assassinato da vereadora Marielle Franco, do PSOL do Rio de Janeiro, ativista de direitos humanos com forte atuação contra os excessos da polícia e o descaso dos poderes com a Maré, área de favelas em que nasceu.

Numa cidade em que se mata como abatedouro e se transgrede a ordem como terra sem lei, a ex-capital da República é um dos exemplos do que se assiste em todo o país depois de muitas décadas de desprezo dos poderes constituídos com suas obrigações mínimas de provedor de educação, saúde, estabilidade econômica para as empresas produzirem e criarem emprego, com justiça eficiente e segurança para todos.

A verdade é para ser dita: os governantes, políticos e servidores públicos sempre estiveram aquém desses desafios, que 50 anos atrás eram menores e poderiam ter sido enfrentados com menos custos. Nem se dedicaram a servir a população, sobretudo a mais carente, contra quaisquer outros interesses – do partido, da carreira política.

Não poderiam fazê-lo se falta à maioria o sentimento de entrega, o traço distintivo dos que servem pelo dever, tais como soldados numa guerra, e mal compreendem o papel que lhe cabe desempenhar na ordem combinada com o progresso resultante de uma visão de longo prazo.

Décadas de governos vulgares, lançando programas mais para iludir a gente simples e desprovida de tudo que para alterar o status quo do subdesenvolvimento, capazes de qualquer coisa para se eternizar no poder, até criar cizânia social e bancar os negócios tenebrosos que agora sabemos, levariam um dia ao caos. E esse dia chegou.

Não é normal um presidente impichado ser substituído por outro que está sendo investigado pelo Supremo Tribunal Federal e o anterior a ambos estar condenado em segunda instância e à espera de ser preso.

Não se diga que isso prova o vigor das instituições. O que prova é que havia e ainda há o senso da impunidade ou a vereadora Marielle não teria sido executada por quem sabia o que estava fazendo.

Pregadores de desgraças

Os sinais de decomposição das instituições são bastante evidentes e deverão tornar-se mais explícitos até as eleições. Por que negar o óbvio, se o presidente é chamado de ladrão na imprensa e em redes sociais e nada acontece ao acusado e aos acusadores? Virou zona.

Como achar normal um juiz do STF tirar o poder constitucional do presidente de conceder o indulto natalino e outro, o de nomear ministros, ainda que tais decisões façam sentido e tenham apoio?

Não é no grito que se resolvem os conflitos políticos, boa parte tão artificial quanto os cenários de economistas da oposição, no ano passado, segundo os quais a recessão se estenderia até 2019. A economia está crescendo, a renda e o emprego vêm se recuperando, a inflação teima em ficar quieta, mas tem quem prefira desgraças.

Disfarces e intenções

É neste clima de histerismo que se vai às eleições, com o auxílio gentil de parte da imprensa, ao mostrar-se indignada com a brutal execução da vereadora Marielle. Mas noticia com a frieza de legista as mais de 60 mil mortes a bala no Brasil, entre as quais os 134 PM assassinados em 2017 no Rio – e já são 27 em 2018 até o dia 16.

As TVs chamam de genocídio a guerra na Síria, e aqui se mata mais num ano do que nos sete anos do conflito sírio.

Não há, como alguém escreveu por aí exalando charlatanice, uma mártir, mas milhares de mártires anônimos, homens, mulheres, crianças, sem que recebam uma nesga da comoção que se dá no Face a cachorro maltratado. É esse o país que condena os maus políticos, mas não o voto irresponsável.

A hipocrisia planta ilusões e colhe desatinos, como o uso político do assassinato de Marielle pelo seu partido, ao insinuar a culpa da intervenção federal sobre a segurança do Rio e negar qualquer outra presunção, como a de o mandante do crime querer desmoralizar a ação saneadora do Exército afastando delegados e PM corruptos.

O crime, como o maligno, tem muitos disfarces e intenções.

República dos medíocres

O que salta à vista é a evidência de que o Brasil é pobre devido à mediocridade dos governantes e dos modelos para suplantar o atraso. Países mais miseráveis que o Brasil 40 anos atrás hoje tem economia vibrante, como China e Coréia do Sul, ou crescem à larga, a Índia.

É hora de se arquivar o que não funciona, como o dirigismo estatal sem burocracia qualificada e alinhada a um setor privado dinâmico e competitivo sem muletas oficiais.

O mal não é o Estado, como acusam liberais viciados em subsídios e proteção oficial, mas o despreparo para planejar o progresso, além de estar sequestrado por elites de servidores. É esse sistema que gangrenou e clama por renovação.

Política dos enrugados

A depender de partidos e de parte da intelectualidade, o debate de substância reclamado pelo eleitorado não deverá acontecer.

Não, com candidatos reféns de velhas ideias, tipo moeda depreciada à revelia da produção globalizada e dos diferenciais dados pela tecnologia, e outros, supostamente à esquerda do espectro político, imaginando-se “modernos” ao pôr a ideologia do gênero à frente da questão social.

Os primeiros se acham desobrigados de pensar, ao recorrer a saídas simplistas. Os segundos têm a confiança de neoliberais sofisticados ao tirar do debate a ênfase sobre a economia. É a atual esquerda zona sul, no passado chamada de festiva, imaginada por ilusionistas das comunicações como opção ao PT e a Lula.

Esse é o contexto tanto à esquerda como à direita, por ora, das campanhas que se avizinham. Não se trata de perspectiva entusiasmante. Mas há tempo para mudar.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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