Home > ANTONIO MACHADO > Varejo cresce 4,3% em 12 meses, e 46% desde 2008, com a indústria parada no mesmo lugar

ANTONIO MACHADO

14/03/2014 02:15 por Redação

Varejo cresce 4,3% em 12 meses, e 46% desde 2008, com a indústria parada no mesmo lugar

Todo o acréscimo de consumo de bens manufaturados nos últimos cinco anos foi atendido com importações, razão do forte descompasso da economia

 O aumento das vendas do varejo em janeiro pegou os economistas de surpresa. A maioria esperava uma retração das vendas semelhante à verificada em dezembro, de -0,2%, e veio um aumento de 0,4% no mês, ou 6,2% acima do movimento em janeiro de 2013. É como se o varejo estivesse descolado da tendência de crescimento morno da economia.

 Enquanto o volume de vendas em 12 meses até janeiro cresceu 4,3% no conceito do varejo restrito (que exclui materiais de construção, veículos e peças) e 3,3% na métrica ampliada, a indústria acumulou avanço de apenas 0,5% no mesmo período. A rigor, a relativa tração do comércio, ainda que num ritmo menor que o aumento à base de 8,5% ao ano observado até início de 2013, quando o Banco Central voltou a elevar os juros, é sequela do modelo econômico focado no consumo.

 Estranho seria se o comércio estivesse às moscas, com o desemprego no menor nível histórico (4,8% da população ativa em janeiro, pela amostragem das seis regiões metropolitanas apuradas pelo IBGE, ou ao redor de 7%, considerando a nova pesquisa mais abrangente e com base trimestral), a renda média real crescendo ao ritmo de 3,6%, o crédito total avançando 14,8% (apesar da alta do juro), a inflação pressionada, o déficit em contas correntes chegando a 3,7% do PIB (parte devido às importações de manufaturados e combustíveis).

 Os impulsos da política econômica miram, desde 2009, a sustentação do nível de consumo e do emprego, e assim continuam, não obstante o ajuste monetário (que onera o crédito) e a promessa de contenção do gasto fiscal (que, se cumprida, diminuirá o consumo do governo, mas não as transferências de renda). É um desacerto difícil de superar.

 O problema dessa formulação é que ela não criou as condições para a expansão da oferta industrial antes que despontasse a demanda - incentivada com corte de impostos e aumento do gasto público e do crédito quase que simultaneamente a um viés estrutural não previsto pelos economistas do governo: o mercado de trabalho apertado.

 O descompasso entre o ritmo do consumo e o da produção (cada vez mais, além disso, integrada às cadeias de suprimentos globais) é o que a política monetária procura corrigir, induzindo uma mudança de preços relativos (via juros e câmbio) em favor dos bens industriais e à custa do setor de serviços e salários. É um jogo em andamento.

Integração sem os bônus

 Somente do meio do ano passado em diante o governo passou a tentar administrar os desequilíbrios gerados pela impulsão ao consumo com ações destinadas a moderá-lo por meio do encarecimento do crédito e a desvalorização cambial, mas ainda com baixo ou nenhum incentivo a favor da produção industrial, afora a própria depreciação da moeda.

 A importação de bens prontos tende a diminuir devido ao dólar mais caro, o que dá alguma competitividade à produção, sem, no entanto, quebrar a lógica das cadeias produtivas, surgida como defesa contra a invasão de bens importados no período de câmbio valorizado: o uso intensivo de partes e insumos trazidos de fora.

 Isso significa que os ramos mais ativos da manufatura, produtores, por exemplo, de carros e eletroeletrônicos, se inseriram nas redes globais, mas sem os bônus da exportação de bens intermediários e mesmo de produtos acabados.

Obsolescência do modelo

 A internacionalização da indústria brasileira foi intensa e não se conseguirá reverter essa situação tão cedo. Constata-se tal cenário com o confronto da evolução do varejo ao da indústria desde a crise de 2008. Desde então, o movimento do varejo cresceu 46%, enquanto a produção industrial continua no mesmo lugar, segundo acompanhamento do economista-chefe da Tullet Prebon, Fernando Montero.

 “Isso significa”, diz Montero, “que todo o acréscimo de consumo de bens manufaturados foi atendido com importações nos últimos cinco anos, financiadas pelo que esse modelo teve de bom (termos de troca recordes, graças ao boom das commodities) e de ruim (agravamento do déficit externo)”. A questão, avalia, é se, “à margem de hipóteses, causalidades e metodologias”, a fórmula de bombar o consumo (que já equivale a 70% do PIB) ainda é aplicável para forçar o crescimento.

Os vazamentos do consumo

 Por agora, o dinamismo do consumo é o que há disponível. À frente, é temerário. O bocado das importações no consumo aparente de bens industriais aumentou de 13%, em média, em 2004, segundo pesquisa da LCA, para 25% em 2013. Chega a 57% no setor de máquinas e aparelhos elétricos (contra 30% em 2003); a 42% em bens de informática (23% em 2003); 22% no ramo têxtil e 15% em vestuário (contra 5,8% e 0,9% em 2003, respectivamente).

 Esse padrão de dependência externa, sem suporte de novas fontes exportadoras para lhe fazer frente, está no limite. E o consumo aquecido também, tudo mais mantido como está.

Por uma nova consistência

 Nem tudo, na verdade, são apenas embaraços no futuro da indústria. Mal ou bem, moeda mais fraca, se associada a estímulos adequados e a garantias de que não será revertida tão cedo, deve ajustar o viés importador das cadeias produtivas. O investimento em infraestrutura e as concessões vão acabar puxando a atividade e, mais para frente, ajudar a melhorar a produtividade das empresas. Mas o fio é tênue.

 A arte do ajuste está numa política econômica que concilie tanto a preservação do mercado interno e o avanço social que o sustenta com um equilíbrio fiscal e em conta corrente menos dependente de dívida pública e de funding volátil para financiá-la. E sem que essa nova consistência macroeconômica implique aumento de carga tributária, embora talvez não possa reduzi-la.

 Não se trata de algo impossível, se o governo atual e futuro chegar junto com o setor privado, o que nada tem a ver com o estigma do neoliberalismo.

'
Enviando