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ANTONIO MACHADO

09/11/2014 23:34 por Redação

Se governo e oposição entenderem o recado do eleitor, a política se qualifica e a economia engrena

Ambiente político conflagrado, mesmo artificialmente, impede a normalidade econômica e uma hora desarranja a paz social, eventos danosos ao país

 Os novos governo e oposição eleitos continuam com dificuldade, tal como seus apoiadores, para entender a dimensão do que representam à luz da vontade do eleitor. Dilma Rousseff se reelegeu presidente em segundo turno com 54 milhões de votos, enquanto 51 milhões votaram em Aécio Neves. É irrefragável que Dilma venceu. Menos óbvio é se o resultado se deva ao PT, como o partido infere, ou se PSDB e Aécio possam reivindicar a posse do latifúndio de votos dados à oposição.

 Elucidar essa questão tem importância, já que ambos os lados estão se arrogando o papel de porta-vozes de sentimentos eleitorais muito difusos, implicando a continuidade do clima acirrado visto durante a campanha. O fato de a corrida presidencial ter-se resolvido por estreita margem parece validar a tática do confronto permanente que tem marcado as ações dos dois partidos, sem medir as consequências.

 Ambiente político conflagrado, mesmo artificialmente, como agora, impede a normalidade econômica e uma hora desarranja a paz social - eventos perigosos para o país e ao novo governo, que, além disso, vacila sobre a amplitude do tratamento contra os males da economia. Eles são essencialmente fiscais, portanto, dependentes do governo e do Congresso. Dilma quer atribuir limites às sequelas da terapia.

 E o que orientou o eleitor? Nenhum instituto pesquisou a fundo tal questão. Mas há sinais. O fato de ter havido duas ondas - uma levou Marina Silva a liderar as pesquisas; outra, depois que ela arqueou, fez Aécio surpreender e passar embalado ao segundo turno – destaca a força do voto anti-PT muito mais que os votos naturais do PSDB.

 Quanto a Dilma, parte da população beneficiada pelos programas de transferência de renda oscilou entre Dilma e Marina (ou ela nem teria ameaçado a reeleição), mas ficou distante de Aécio, revelando desconfiar de suas propostas na área social. Isso significa menos a preferência acrítica ou consciente pelo PT, e, sim, mais anti-PSDB.

 A compreensão sobre tais movimentos deveria orientar os passos de governo e oposição. Esta, sobre o que quer a sociedade, e não é só a postura denuncista dos desmandos e corrupção. Quanto ao governo, não há como evitar o enfrentamento fiscal, intuitivamente aferido pelo eleitor como condição para ao menos defender o avanço social.

Sem voto para imposições

 As preferências do eleitorado transparecem pelo saldo das bancadas na Câmara. O PT diminuiu de 88 deputados eleitos em 2010 para 70, e o PSDB cresceu de 44 para 54. Sem o PMDB, segunda maior bancada com 66 deputados, o PT não garante a governabilidade de Dilma.

 Vai ter também de desistir de impor sua agenda, como plebiscito para guiar o debate no Congresso sobre reforma política e “controle social da mídia”, ou “regulação econômica” contra monopólios, como diz Dilma.

 O PT tem voto para encaminhar sua agenda? Com 13,6% dos deputados, não aprova coisa alguma. E, com grupos de pressão nas ruas, é certo que perturbe o trânsito e complique a vida de Dilma, mas é duvidoso que encabreste os aliados.

 Se o atual líder do PMDB, Eduardo Cunha, se eleger presidente da Câmara em 2015, algo provável, Dilma terá mais razão para procurar fazer um governo melhor (como prometeu em seu discurso de vitória), restando ao PT apoia-la sem restrições.

Os mitos da austeridade

 O cenário econômico é complexo, mas não é um bicho de sete cabeças que um governo focado não possa enfrentar. Os limites que embaraçam a presidente vêm da campanha, quando teceu uma trama progressista e social para si e colou em Aécio a pecha de candidato do arrocho.

 Era teatro, mas, se funcionou, é o caso de Aécio procurar o motivo também em sua campanha. Austeridade fiscal não implica recessão, ao contrário do que afirmam economistas simpáticos ao governo.

 Eles só olham o gasto. Ignoram que o Tesouro é deficitário; déficits viram dívida subscrita pelo investidor atraído por juros bizarros. Parte do papelório é absorvida por fundos voláteis, cujo ingresso no país valoriza a moeda, que fomenta a importação e desidrata a indústria, mas sem os quais não se zera o déficit em conta corrente.

Terapia contra lambança

 Sem consertar estas engrenagens, os parafusos espanam e o juro não baixa, o dólar não sobe, a indústria murcha, o PIB atola, o governo arrecada pouco etc. Dilma vai seguir essa terapia. Será crível para recuperar a confiança entre os empresários? E o que é crível? É um superávit primário de 1% do PIB, sem nenhuma lambança contábil.

 Não é muito, mas, conforme simulações do Bradesco Asset Management e do economista Fernando Montero, implica muitas coisas: recompor a CIDE, tirar desonerações do IPI, cortar investimento do PAC bancado com dinheiro fiscal, atacar fraudes com o seguro-desemprego.

 Neste cenário, o crescimento ralo, 0,5% este ano, repete-se em 2015, mas ganhando tração à medida que retorna a confiança empresarial - e o emprego corre menos risco. Mais que isso, só se o governo permitir abrir-se aos ventos da renovação e deixar a economia deslanchar.

Plano para pensar grande

 Foi o voluntarismo da presidente que afastou o empresariado de seu governo, além do mau resultado de sua política econômica. Os laços estão puídos, mas há tempo para reatá-los. O ajuste fiscal e seus desdobramentos sobre os juros, o câmbio, a produtividade total dos fatores de produção são as premissas antecedentes desse flerte.

 O passo seguinte depende da visão do governo.

 Se curta, tocada por desonerações pontuais (que nem chegam ao consumidor) e subsídios da banca federal (que sangram o Tesouro e criam projetos fracos frente à competição externa), o país vai apequenar-se, torcendo pelo pré-sal maturar antes de o petróleo cair em desgraça.

 Se a visão focar a transformação inovadora, dará para colher resultados já em 2015. Tal plano existe e foi franqueado ao governo. Isso, obviamente, se quiser pensar grande e fora da caixa.

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