Home > ANTONIO MACHADO > Ruas inflamadas, economia parada e impeachment avançando indicam mudanças irreversíveis

ANTONIO MACHADO

19/03/2016 23:34 por Antonio Machado

Ruas inflamadas, economia parada e impeachment avançando indicam mudanças irreversíveis

Se o amplo sentimento de que o governo se tornou um estorvo não se dissipar, o PMDB vai saltar fora, fazendo de Temer a solução. E sem o PMDB Dilma e Lula não param de pé

Últimos rounds

Depois de 1,4 milhão de pessoas aglomeradas na tarde de domingo na Avenida Paulista, espontaneamente, para condenar a corrupção, pedir impeachment ou renúncia de Dilma Rousseff, prisão do ex-presidente Lula e apupar o PT, além de apoiar o Ministério Público, a Polícia Federal e louvar a atuação do juiz Sérgio Moro à frente da Operação Lava Jato, ficou difícil ao governo sair das cordas e reagir.

A megamobilização em São Paulo se repetiu em todo o país. E desde quarta-feira se transformou em vigília permanente em Brasília e São Paulo, após Dilma entregar a chefia do governo a Lula - investigado pelos procuradores e delegados federais -, ao investi-lo no comando da Casa Civil. Era para livrar Lula da alçada do juiz Moro, já que ministros desfrutam de foro privilegiado e podem ser investigados e julgados apenas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

E aí o país conheceu Lula em estado puro, sem mídia training nem a cautela das falas em público. Sem a instrução do processo, Moro foi rápido: tirou o sigilo do inquérito, que inclui telefonemas do ex-presidente interceptados legalmente pela Polícia Federal, e expôs o que só os íntimos de Lula conhecem – seu estilo autoritário e rude, os insultos contra quem lhe cruza o caminho, seu jeito debochado, o ressentimento pela sua aflição, o desprezo pelas instituições.

 Nenhuma novidade para os que lhe serviam no PT. Por volta de 2000, José Dirceu, Aloizio Mercadante e José Genoíno se viram certo dia brigando, quando se deram conta de que cada um discutia a partir de um mesmo caso contado em versões diferentes por Lula. Ele liderava criando disputas para arbitrar a solução. Àquela época, os líderes do partido diziam, com ironia, formar o Kremlin do PT, em alusão ao ambiente de discórdia e desconfiança no governo da União Soviética.

Os ataques ao STF, ao Superior Tribunal de Justiça, ao Congresso, todos chamados de “acovardados”, a queixa de que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, não seria “agradecido” pela escolha ao cargo, conforme as conversas interceptadas, revelam, com crueza, o estilo do homem a quem Dilma cedeu o comando de um governo na lona - a decisão excêntrica que lhe pode custar o mandato no Congresso.

Em ponto de ebulição

As consequências de tudo isso puseram a política e a sociedade em ponto de ebulição e reforçam a pasmaceira da economia, em profunda recessão. As entidades do empresariado pedem mudança de governo em comunicados públicos, enquanto a insolvência ameaça escapar ao controle do sistema financeiro. E os governistas? Continuam supondo que a nação esteja dividida em vez de majoritariamente ultrajada.

Em tempos normais, caberia considerar se o juiz Moro se excedeu ao tornar público um processo cujo foro cabia ao STF no momento em que a presidente fez Lula ministro. Mais: liberar teor de ligação para ele, em que ficou a sugestão de que a presidente antecipava o termo de posse para protegê-lo da Lava Jato. Ela obstruiu a Justiça?

Dilma negou a intenção, claro. Mas, embora válida, a questão sobre a competência do juiz de primeira instância perde força diante dos conteúdos das interceptações - e especialmente na Câmara, onde fez o processo de impeachment avançar e, provavelmente, engrossar.

Cautela com a derrocada

Não é preciso resguardar-se com os verbos “parece” e “sugere” para antecipar o que virá: um período conflagrado; Câmara e Senado com a atenção só voltada para a tramitação do impeachment, que começou; o ministro da Fazenda pregando no deserto; o governo fazendo o diabo, como Dilma diria, para ter alguma relevância.

Se o amplo sentimento de que o governo se tornou um estorvo não se dissipar, o PMDB vai saltar fora, fazendo do vice-presidente Michel Temer, que também preside o partido, a solução contra a crise.

Sem o maior partido da sustentação parlamentar do governo, Dilma e Lula não param de pé. A derrocada será total, como já se preparam contra uma crise abrupta de liquidez o Tesouro, o Banco Central e a banca.

Quem chegou para ficar

Uma reversão feliz ao petismo talvez ainda fosse possível, se Lula voltasse a vestir o figurino “paz e amor” de 2002, mas não o fará. Está injuriado demais. E Dilma ainda diz, como fez na sexta-feira, que “a gritaria dos golpistas” não vai tirá-la do rumo, como se lhe houvesse razão para falar grosso.

Qual rumo? Ela chegou a isso que está ai com as próprias pernas. Além disso, o maná oficial secou, o que faz da retórica ardida de Lula algo sem graça aos fisiológicos.

Não se assistirá ao capítulo final em dias, já que há milhares de cargos comissionados ameaçados, além de bilhões de reais repassados a ONGs companheiras. Ninguém quer perder nada. Mas também há novas delações em campo e a rapaziada que foi para a rua protestar contra a corrupção e a velha política tomou gosto pela coisa. Aliás, esses jovens são a força emergente do próximo ciclo. Isso é certo.

Certezas no horizonte

Tão certo como a renovação na política, dado o absurdo de haver um julgamento de impeachment com pelo menos 40 parlamentares ameaçados pela Lava Jato e outros tantos ficha suja sob qualquer critério que se tome, são as reformas da economia. Elas serão feitas - até mesmo por Lula, se por algum sortilégio conseguisse reanimar o governo.

A expectativa entre os petistas, sob influência de economistas que fizeram uma leitura ligeira de Keynes, é que ele faria uma inflexão à esquerda, com corte de juros na caneta e gasto fiscal e crédito a rodo. Besteira. A situação fiscal é calamitosa e Lula sabe disso.

Qualquer um que sente na cadeira de mando no governo fará o ajuste fiscal que Dilma recusou, inclusive o PMDB, que tem o melhor plano. Não corta o Bolsa Família, não tira direitos dos aposentados, mas é severo com a lida do dinheiro social, além de reformar a governança pública, restringir a indexação, coisas assim, para, ai sim, colher o resultado, parte à vista: queda dos juros e volta da confiança.

O que fugir disso não é de esquerda nem é de direita. É barbeiragem.

'
Enviando