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ANTONIO MACHADO

06/03/2014 01:34 por Redação

Resultado do PIB em 2013 já reflete limite do crescimento com baixa produção e déficits espichados

Economia dependente do setor de serviços, com muita demanda e pouca produção, não gera as divisas que financiam o consumo vazado para importações

 O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) em 2013, divulgado pelo IBGE na véspera do recesso de Carnaval, acabou engolido pela pressa da saída para o feriado prolongado. As análises foram sucintas (em nome da transparência, também não a fiz, mas por razão de saúde).

 O ministro Guido Mantega destacou o crescimento econômico de 2,3% no ano e chegou a caçoar dos analistas, ao afirmar que passariam o Carnaval revisando as projeções mais pessimistas, indiferente a que a confusão dos cenários veio do Banco Central. Seu último relatório trimestral de inflação, divulgado em 20 de dezembro, cravara a alta do PIB de 2013 em 2,3%. Como principal referência sobre o curso da economia, o BC sinalizou e os economistas e o mercado foram atrás.

 Só que o BC tem há algum tempo um experimento muito mal calibrado, o tal do IBC-Br, que busca prever a evolução mensal do PIB a partir de alguns critérios usados pelo IBGE para apurar em base trimestral (com atraso de dois meses) o resultado efetivo da economia. Sabia-se das limitações do que tem sido chamado de prévia do PIB. Não que fossem tão sérias. O IBC-Br indicou que a economia teria crescido 2,5% em 2013, mas com retração na margem de 0,17% no 4º trimestre.

 Como o PIB oficial (e seu clone) teve queda no 3º trimestre, ficou a suspeita de recessão técnica (dois trimestres seguidos de baixa). O IBC-Br induziu o mercado a um pessimismo ainda maior. O fato de o PIB ter crescido 0,7% no 4º trimestre, 1,9% em base anual e 2,3% em 12 meses (contra 1% em 2012) não muda as expectativas. Como fim de história, o BC deveria deixar para o IBGE o que lhe é de direito.

 Desfeito o ruído, ficaram os fatos. E eles não justificam o alívio que o ministro da Fazenda procurou transmitir. Embora tenha entrado em 2014 crescendo, a economia não parece que adquiriu maior tração. Pela ótica da oferta, o destaque do crescimento em 2013 veio da agropecuária, com aumento de 7%, mas com um peso no PIB de apenas 5,7%. O setor de serviços, com participação de 69,4%, avançou 2%. E a indústria, cuja fatia é de 24,9%, cresceu 1,3%.

 Pelo lado da demanda, chamou atenção o aumento de 6,3% no ano da formação bruta de capital fixo, ou, simplesmente, investimento, tal como as importações (+8,4%). Tal jogo de números, à primeira vista, sugere uma economia com crescimento saudável. É mais impressão.

Desacerto insustentável

 No curto prazo de 12 meses, o PIB já reflete o ajuste para baixar a necessidade de financiamento dos déficits orçamentário e externo. Esse processo começou em 2013 com mais juros e maior desvalorização da moeda, mas ainda não basta. A taxa de investimento, por exemplo, subiu ligeiramente, de 18,2% do PIB em 2012 para 18,4% ano passado, enquanto a taxa de poupança doméstica despencou para 13,9% do PIB.

 O forte avanço da poupança externa, de 3% do PIB em 2012 para 4,1% em 2013, bancou a diferença entre o investido e o poupado no país – um descompasso administrável em período curto, mas insustentável se mantido ao longo dos anos, além de crescente. O último ano positivo foi em 2006, com superávit das contas nacionais de R$ 21,4 bilhões.

Desde 2007 o déficit só cresce, chegando a R$ 195,4 bilhões no ano passado. Aumentou R$ 29,8 bilhões em 2012 e R$ 65 bilhões em 2013.

Uma economia de serviços

 O dinamismo da economia se tornou dependente do setor de serviços, que tem baixa produtividade e não gera receita forte, refletindo um perfil econômico concentrado, pela ótica da demanda, no consumo das famílias (equivalendo a 62,5% do PIB) e do governo (22%, excluindo transferências de renda, que são alocadas no consumo privado).

 É muita demanda para pouca produção agrícola e industrial, a única capaz de gerar as divisas que financiam o consumo vazado para as importações. Esse é um problema antigo. De 2002 a 2013, em valores correntes, o PIB cresceu 227%, puxado por serviços (+237%), já que agropecuária (+178%) e indústria (+197%) perderam terreno. De 2010 a 2013 a situação amenizou. O PIB cresceu 28%, puxado por serviços (+32%) e agricultura (+37%), e atrasado pela indústria (+13%).

No bisturi ou com acordo

 Mas os desequilíbrios se acentuaram, contrariando a regra segundo a qual só se distribui o que foi produzido - e depois de reposto o capital (entre máquinas e sistemas) que chega ao fim de vida útil.

 Enfim, o país precisa de consumo para crescer, mas precisa muito mais hoje de investimentos para renovar a capacidade produtiva com fábricas, infraestrutura, novos cultivos, em paralelo com a redução vis-à-vis ao PIB dos déficits fiscais e externo. Isso implica mais poupança interna (basicamente, com o gasto orçamentário evoluindo abaixo do PIB) e menos demanda em relação à renda. Quanto mais se fizer com crescimento, coisa de 2,5% ao ano, menos sofrido será.

 O ajuste clássico é feito com bisturi. O pragmático, em acordo com o empresariado e o mercado. O crescimento será a resultante.

Assobiar e chupar cana

 A arte da pilotagem da economia em tempo de escassez é dosar o que é essencial (investimentos, função da taxa de lucro e folga fiscal; avanços sociais, dependentes de renda real e de produtividade da saúde, educação) com a correção dos desacertos econômicos. Governos normalmente focam uma coisa (FHC: o ajuste fiscal) ou outra (Lula: as políticas sociais) e esquecem-se do resto (a competitividade).

 É o “resto” largado nos últimos 20 anos, como os alicerces físicos da economia (estradas, energia etc.), que trava o desenvolvimento. O real forte, em meio à globalização das cadeias produtivas, foi a pitada final. A somatória desses eventos fez a indústria se inserir nas cadeias globais sem o bônus da exportação. A moeda fraca, neste contexto, pode ajudar a cortar importação (ao tirar poder de compra dos salários), mas pouco adicionará à competitividade do país.

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