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ANTONIO MACHADO

26/02/2014 01:19 por Redação

PIB fraco dá à oposição motivo, sem necessidade de contraprova, para elevar a crítica ao governo

Dilma esticou o que dispunha como instrumentos, convencida de que aceleraria o crescimento. Nada saiu como previsto, e o ano começa com ajustes em série

 O IBGE divulga amanhã o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), que já se sabe pelos indicadores antecedentes que foi fraquinho, embora acima do crescimento de 1% em 2012. O crescimento esperado está em torno de 2%, bem abaixo dos 3% estimados como taxa mínima para comportar a expansão vegetativa das despesas obrigatórias do orçamento fiscal e deixar uma sobra para investimentos e subsídios.

 Qualquer número abaixo de 2% abalará a já baixa expectativa de que a economia possa ser melhor este ano que em 2013, ainda mais frente às incertezas do financiamento do déficit em conta corrente - razão de o governo ceder à pressão do mercado e prometer uma economia no orçamento equivalente a 1,55% do PIB (indo a 1,90% com a parte dos governos regionais), sem salamaleques contábeis. Adicionado à alta de juros pelo Banco Central, o crescimento tende ao minimalismo.

 O PIB magro dará aos adversários da reeleição da presidente Dilma Rousseff o argumento sem necessidade de contraprova para engrossar as críticas ao seu governo.

 “É forçoso registrar que quem suceder o atual governo governará em tempos difíceis”, disse o senador Aécio Neves, presidenciável do PSDB, no evento organizado no Senado para comemorar 20 anos de Plano Real - a reforma monetária de 1994, que deu ao então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, duas eleições presidenciais vencidas em primeiro turno contra Lula.

 Os ex-presidentes já estão escalados para a campanha. Ao contrário das campanhas dos tucanos José Serra, nas eleições de 2002 e 2010, e Geraldo Alckmin, na de 2006, que esconderam FHC, Aécio o quer nos palanques como referência das reformas conduzidas à época, como a monetária e as privatizações. Para ele, as reformas são um trunfo, até porque mantidas pelo PT, e não como Serra e Alckmin entendiam: uma fonte de desgastes eleitorais.

 Lula está mais a vontade para defender seu legado, também mantido por Dilma e fresco na memória do eleitor. O incomodo são os números da economia depois de 2010. Dilma pegou um governo com suas contas estressadas, sem folga fiscal nem do crédito dos bancos públicos. Em artigo no Valor, Lula contrapõe os números mais fracos de 2011 a 2014 com o desempenho dos últimos 11 anos. Ou a taxa média anual do período petista. É uma forma de sublimar o mau momento atual.

Raiz do enigma eleitoral

 Dilma esticou o que dispunha como instrumentos, e o fez convencida de que aceleraria o crescimento.

 Levou o Tesouro se endividar para reforçar o funding do BNDES (e acelerar o investimento); promoveu desonerações (com o IPI de eletrodomésticos e carros, para promover o consumo, e com o encargo do INSS sobre a folha, para incentivar a formalização do emprego e onerar as importações); segurou preços da Petrobras (por causa da inflação); antecipou o fim de concessões de hidrelétricas (para reduzir as tarifas de eletricidade).

 Nada saiu como previsto. O investimento continuou baixo, o crédito logo bateu na capacidade de endividamento do consumidor. Mas tanto o número dos atendidos pelas políticas sociais como o valor médio desembolsado per capita seguiu crescendo, garantindo forte mercado interno, suprido em parte por importações ou produção nacionalizada por uma indústria sem competitividade. Esse é o enigma da eleição.

Sequelas e contrapartida

 A economia exacerbou extremos desde 2010. O desemprego nunca foi tão baixo na pesquisa do IBGE, 5% da população ativa (apesar do crescimento meia boca do PIB), mas com parte excluída da contagem graças às políticas compensatórias de renda.

 As sequelas estão nos déficits fiscais e externos, além da dificuldade de o governo gerar superávit primário sem ter de recorrer a receitas não recorrentes e a truques contábeis, ainda que legais (a “contabilidade criativa”).

 A contrapartida está na alta popularidade da presidente, apesar da desconfiança do empresariado, do mercado, da classe média típica. E mais alguns fatores bastante precisos. Com Dilma, a fatia da banca estatal no mercado total de crédito saltou de pouco menos de 40% a mais de 50%, crescendo em cima dos bancos privados. A depreciação do capital também foi intensa, puxada pela razia da Petrobras, cujo valor de mercado caiu 78% em dólar desde sua capitalização em 2010.

A nova dupla de ataque

 Essa fieira de eventos, associada ao início mais cedo que previsto da normalização gradativa da política monetária dos EUA, dificultou a operação da economia em 2014 sem os ajustes em curso, da alta dos juros pelo BC ao corte de gastos pela Fazenda, que em outro cenário ficariam para depois das eleições.

 A favor de governo estão a visão pragmática do presidente do BC, Alexandre Tombini, e a capacidade de trabalho do novo chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, além de bem visto pelo empresariado. É com eles que Dilma poderá refazer os resultados da economia e as lealdades politicas. O tempo é curto.

Purgante em dose maciça

 Com a parte mais aziaga da agenda de 2015 antecipada, digamos, por motivo de força maior introduzido pelo viés de liquidez apertada do dólar, não se exclui de cogitação uma parada do sentimento ruim que toma a economia e começa a contagiar a sociedade.

 Há quem dizia que o downgrade da nota de crédito soberano do país, apesar de todos os ônus dessa decisão, teria o beneficio de sustar na marra a deterioração das contas nacionais. Talvez não se chegue a tanto.

 O ano começa com ajustes monetário, cambial, fiscal e parafiscal. O governo pôs de molho R$ 44 bilhões de gastos do orçamento federal (e terá de fazer mais para cobrir o subsídio do setor elétrico). O BNDES foi instruído a reduzir de R$ 190 bilhões emprestados em 2013 para R$ 150 bilhões o seu orçamento de 2014. A Selic deve chegar a 10,75% a 11%. A taxa de câmbio nominal teve depreciação monstruosa de quase 50% desde início de 2011, embora ainda sem resultado sobre o déficit externo de 3,7% do PIB.

 Chega uma hora em que o purgante vai fazer efeito. Quando? A resposta deve decidir as eleições.

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