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ANTONIO MACHADO

06/10/2018 23:18 por Antonio Machado

Parcela majoritária do eleitorado bagunçou a política e tende a ser mais influente daqui em diante

Mal-estar difuso faz emergir o desejo de mudanças. Para a maioria silenciosa, mais que provedor, o Estado tem de promover a autonomia, “ensinar a pescar”, garantir a ordem

O voto gritado 

Esta eleição presidencial, como todas as anteriores até onde vai a memória, foi marcada pela invisibilidade dos sentimentos da parcela majoritária do eleitorado, exposto a narrativas ficcionais de parte dos candidatos, do grosso dos analistas e de setores da imprensa.

A novidade não pressentida pelos QGs das principais candidaturas é que, desta vez, a maioria silenciosa da sociedade resolveu não dar bola ao prato feito servido pelos partidos tradicionais, do PSDB ao PT, provocando uma pane de grandes proporções no mundo da política.

É insuficiente atribuir o fenômeno Jair Bolsonaro e a relativa força de Fernando Haddad, apesar do desastre do governo Dilma, da Lava Jato e da prisão de Lula, apenas à aversão ao petismo por uma parcela do eleitorado. Ou a um viés direitista de outra parte dos eleitores.

Não é certo que as ideologias e a Lava Jato sejam centrais ao que ainda está em curso. Na frustração tendendo a desespero da parcela mais relevante da população, até há pouco fechada com o lulismo e os seus representantes, talvez esteja a explicação ao que acontece.

Brasileiros acima de 16 anos e com renda familiar de até três salários mínimos, R$ 2.862 ao mês, formam 59% do eleitorado, variando de 49% no Sul a 75% no Nordeste. Até cinco SM, R$ 4.770, são 77% do total, chegando a 86% no Nordeste.

A situação desses eleitores, na média, já foi pior em termos de renda, mas a melhora colapsou com a recessão. E há a recorrente frustração das promessas juradas a cada eleição.

Em áreas críticas ao bem-estar entendidas como obrigação do Estado, como segurança pública, saúde e educação profissionalizante para os jovens, os sinais de regressão são visíveis e chocantes.

O crime é o traço comum a todas as regiões, assim como o desprezo das burocracias à população que recorre aos serviços públicos; não há sintonia entre o que se ensina nas universidades e a expectativa dos pais e filhos em relação ao poder transformador da educação.

Tais insatisfações são permanentes, dificilmente a sociedade está em paz consigo mesmo e os governantes eleitos, mas às vezes o mal-estar difuso se agiganta, sai do controle do establishment e faz emergir o desejo de mudanças. Foi assim em 2002, levando Lula a surfar a crista da onda, mantida até 2014 e agora dividida com Jair Bolsonaro.

Concepções levadas ao lixo

O desgaste do PSDB nunca mais foi superado junto às classes que dão a palavra final nas urnas desde 2002. E Alckmin, com um discurso de tecnocrata, cheio de números, não conseguiu restaurar tal conexão.

Os governos petistas fizeram em 14 anos mais para os eleitores que veem no Estado a última instância para as aflições sociais, mas não conseguiram oferecer a autonomia reclamada. Para a classe média baixa ou intermediária, normalmente mais informada que os dependentes de programas como Bolsa Família, não basta o Estado provedor. Ele também tem de promover a autonomia, “ensinar a pescar”, garantir a ordem etc.

A distância entre governantes, partidos, intelectuais e formadores de opinião de tais grupos da sociedade (além do mais, articulados por meio de redes sociais, civis e religiosas e referência confiável aos mais pobres) impediu ao establishment sacar a força da mudança que se formava à revelia da explicação padrão da polaridade PT versus PSDB e de tantas outras concepções levadas ao lixo pela realidade.

Não se briga com números

Contra os números não se deve brigar, eles nunca falham. Como, por exemplo, dizer, como fizeram Ciro e Haddad, que Bolsonaro estaria à frente das pesquisas devido ao apoio das “elites”, do “baronato”, de “fascistas”, se tais grupos, avaliados por renda, formam menos de 10% do eleitorado?

Na verdade, o que tais políticos entendem por esquerda está nessa fatia minúscula e privilegiada da pirâmide de renda.

Foi isso que Lula entendeu bem em 2002, ao atrair a classe média das periferias, sobretudo de São Paulo, convencido pelo marqueteiro Duda Mendonça, e liderar o maior movimento de massa visto no país.

Talvez por achar que o piso da pirâmide de renda lhe bastasse para reaver o poder perdido com Dilma, porém, não soube conservá-la. É na classe média baixa que Bolsonaro mais avançou (como, intramuros, se discutiu no PT meses atrás). Mas hoje é com as urnas. O resto passou.

Eficiência com inovação

Importa agora saber o que se fará daqui em diante, acenando para um futuro promissor ou assustador, em relação a essa fatia do eleitorado majoritária, zangada e que começa a intuir o tamanho de sua força.

Parece evidente que o governo sozinho não tem condições de atender à legítima demanda dos mais pobres, se mantiver o dirigismo em todas as esferas da vida econômica e ser, além disso, última instância de quem necessita da assistência completa do Estado.

Governo mínimo não pode ser, mas terá de ser eficiente e inovador. Isso exige retomar a rédea do Estado dos lobbies que o fizeram refém. Esse é o começo da mudança necessária, com destaque mais ao novo Congresso que ao presidente.

Progresso é com democracia

Ainda que pareça platitude, a verdade é que a transformação depende de ação conjunta reunindo governo, burocracia de Estado, políticos e líderes empresariais e sociais.

Mesmo na China, economia de partido único e planejamento central, já há alguns anos o desenvolvimento se faz pelo setor privado em forte aliança com a estrutura de Estado.

Mas é melhor o exemplo da Índia, maior democracia do mundo, em que a transformação também prioriza o bem-estar dos menos favorecidos, com a renovação via investimento privado, visão de longo prazo da elite dirigente e respeito ao estado de direito e às liberdades individuais (que têm sido ampliadas).

Progresso é a meta das nações bem-sucedidas - mas não a qualquer preço nem ditada por programas autoritários de qualquer vertente.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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