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ANTONIO MACHADO

17/03/2019 01:24 por Antonio Machado

Para monitorar: já há investidor falando de crescimento “forte” em 2020, e o crime diminui no Rio

O risco é o governo e o BC alarmado perderem o ajuste. Crédito fácil não traz crescimento sustentado, mas sem ele o que sobra, se os efeitos das reformas só virão no longo prazo?

O Brasil desejado

O Brasil pobre, violento, corrupto, atrasado, estagnado, estampado no noticiário, daqui e do exterior, não reflete o Brasil que começa a aparecer em alguns indicadores econômicos e sociais e em cenários de investidores internacionais relevantes.

Onde você leu sobre isso?

O país pode estar saindo da lama, mas nem os tweets birrentos do presidente Jair Bolsonaro se deram conta, contribuindo para difundir o pessimismo militante de seus opositores.

As taxas de criminalidade no Rio de Janeiro, por exemplo, baixaram no início do ano e tanto Bolsonaro, como a imprensa, distraída com os eventos de um ano do assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco e o ataque a uma escola na Grande São Paulo, não se importaram. E a fonte é fidedigna: o Instituto de Segurança Pública, do Rio, em parceria com o Instituto Igarapé, da cientista política Ilona Szabó.

Roubos seguidos de morte tiveram redução de 62% em relação a igual período de 2018; roubos de carro e de carga, recorrentes antes da intervenção militar no estado em 2018, recuaram, respectivamente, 29% e 19%. O Carnaval também foi menos violento. Homicídios dolosos caíram 32% em relação ao carnaval de 2018, assim como os roubos.

É cedo para falar em tendência, mas raramente se tem a perspectiva no início das viradas. É como ver as árvores e não a floresta. Na economia acontece o mesmo até com maior nitidez. Difícil é acreditar na intuição. O pé atrás turva a visão.

Quem mais bem avalia o cenário de países são investidores globais. Seus capitais vagam o mundo em busca de oportunidades sem se prender a nenhuma jurisdição. Um desses colossos, o Bridgewater, dos EUA, com US$ 125 bilhões de ativos financeiros, pôs os olhos no Brasil e viu o que está à vista dos que não se aferram a ortodoxias de nenhum tipo.

“Após anos de condições fracas, o crescimento está se acelerando e parece-nos que o Brasil está pronto para uma forte retomada a partir de níveis extremamente deprimidos”, publica o Bridgewater esta semana num informe à clientela. “Esperamos que, ao longo do próximo ano, o crescimento em relação ao potencial seja o mais forte do mundo.”

Banco Central é o enigma

As análises do Bridgewater são mais reflexões recheadas de insights que cenários embasados em estatísticas que, em geral, tentam prever o futuro a partir de dados passados. Dificilmente, por isso, antecipam rupturas, exatamente o contrário da visão de Ray Dalio, seu fundador e autor nada convencional sobre os movimentos da economia.

Em 2007, o Bridgewater previu o estouro da bolha das hipotecas nos EUA e a insolvência encadeada dos mercados financeiros. É algo fora da curva que o radar do Bridgewater vislumbra no Brasil. Em resumo, não há aqui problema de dívida externa nem de déficits em conta corrente.

A questão chave, segundo o Bridgewater: “os riscos externos [no Brasil] são muito menores do que o usual”. A debandada de capital externo arruinou a Grécia, em 2010 e, em 2018, Argentina e Turquia.

“Caso as condições desapontem, a inflação baixa e moeda estabilizada significam que o banco central deve ter espaço para aliviar e apoiar a recuperação e os preços dos ativos.”

Está aí o nosso trunfo.

A epifania do Bridgewater

A epifania do Bridgwewater, digamos assim para ajudar a compreensão do presidente, está em linha com o que economistas desapegados aos dogmas dizem há muito tempo.

Como diz Fernando Montero, da Tullett Prebon, “precisamos tão pouco para avançar tanto”. Ele não fala sozinho, como demonstrou André Lara Resende em alentado ensaio sobre a relação umbilical entre crescimento e política monetária e fiscal.

A inflação tende a rodar abaixo da meta, em torno de 4% em 12 meses até onde a vista alcança, nada justificando a Selic congelada em 6,5% ao ano nem que o Banco Central só possa desinfla-la depois da reforma da previdência aprovada pelo Congresso. Ajuda, mas a relação de causa e efeito é mais fraca do que afirmam os “especialistas” do mercado.

O que viabiliza o governo

Leia-se a nota do Bridgewater: “Os principais riscos que vemos no Brasil decorrem da má gestão política, com a batalha pela reforma previdenciária como teste mais imediato. Um voto fracassado apontaria para má administração interna e levaria a: a) previdência absorver o gasto governamental dirigido a projetos de melhoria de produtividade; ou b) aumento do déficit externo, se o governo não reduzir seu gasto à medida que o setor privado se recupera”. E segue:

“Embora a incapacidade de aprovar reformas signifique retrocesso, trata-se, principalmente, de um descasamento de ativos e passivos em moeda local - um desafio, mas mais fácil de administrar do que um descasamento que envolva dívida em moeda forte”.

O risco é o governo e um BC alarmado perderem o ajuste deixado pela recessão. Crédito fácil não traz crescimento sustentado, mas sem ele o que sobra, se os efeitos das reformas só serão efetivos daqui a uma década? Governo fraco não tem condição de liderar reforma alguma e em última instância é o crescimento e o emprego que pacificam a nação.

Moderar a pauta alarmista

O recado subjacente a tais cenários mais promissores sobre o país é que, talvez, deva-se moderar a pauta alarmista, especialmente do BC, com ajuda engajada de economistas do mercado, para os políticos não esmorecerem o necessário ímpeto reformista.

Ambas são necessárias: 1) refazer a ordem subvertida, como o choque de poderes entre o STF e o Ministério Público Federal demonstrou; e 2) sinais vitais de que a economia não é um corpo estendido no chão.

“Como os preços [dos ativos] já descontam uma fraqueza extrema e má gestão”, avalia o Bridgewater, “achamos que há considerável espaço para a economia e os ativos do Brasil surpreenderem positivamente”.

A porteira que represa tal surpresa, que leva muita gente a voltar à informalidade, é o crédito travado e a virtual impossibilidade de se aguardar o mundo ideal da tecnocracia. Se a economia cresce pouco, a demanda não avança e o desemprego baixa lentamente, o BC tem de agir. Não é com mais gasto público que se sairá do enrosco.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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