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ANTONIO MACHADO

07/03/2014 00:58 por Redação

País desperdiça um parque fabril que faz o iPhone igual ao chinês e não consegue exportá-lo

Não há como restaurar a tração do crescimento econômico sem que a exportação industrial recupere a sua participação histórica sobre o PIB

 A aceleração do crescimento é assunto central na discussão sobre a política econômica tanto no governo, preocupado em tentar impedir que o PIB cresça este ano abaixo dos 2,3% registrados em 2013, como entre os oponentes da reeleição da presidente Dilma Rousseff, para os quais o raquitismo da economia é sinônimo de má administração.

 Talvez seja mais caso de desperdício. Não do dinheiro público mal aplicado, embora não faltem exemplos para corroborar tal percepção. Mas das oportunidades perdidas. E muitas por má informação sobre o funcionamento da principal atividade que enfraquece o crescimento a cada ano no Brasil: a indústria de transformação, o setor de maior dinamismo em todas as economias avançadas. E cada vez menos aqui.

 Trata-se de uma árvore com porte de uma gigantesca figueira, cujos galhos abrigam da produção de veículos a bens eletroeletrônicos, de sapatos a roupas, de remédios a alimentos processados. Em geral, é controlada por capitais estrangeiros e funciona integrada a cadeias de valor espalhadas em diversos países. Não há mais um refrigerador ou um smartphone produzido com insumos e partes de um único país.

 O exemplo icônico, até por ser o mais estudado, é o do iPhone, da Apple, montado na China por uma firma de Taiwan (a Foxconn, também presente no Brasil fazendo a mesma coisa) com partes importadas de uma dúzia de fornecedores em outros países e depois reexportado.

 No sistema de produção globalizada, as partes são produzidas onde há maior competividade, mas o bem final nem sempre é exportado. Em grandes mercados, como o brasileiro ou o chinês, a exportação é o resultado de uma relação de câmbio e de fatores de produção (juros, impostos, logística etc.) favoráveis, não uma contingência natural.

 Essa é a oportunidade desperdiçada, constatada quando a indústria deixa de gerar valor adicionado, ao ficar de fora da rede produtiva global. O iPhone brasileiro, por exemplo, é idêntico ao chinês que a Apple vende nos EUA. Mas não tem preço para levar o selo Made in Brazil para outros mercados. O sedã Corolla, montado pela Toyota no interior de São Paulo, até 2004 era exportado para 19 países. Hoje, só tem comprador na Argentina. O resto da América do Sul, segundo disse o presidente da montadora, Steve Angelo, a Cleide Silva, do Estado, é atendido pela fábrica da Toyota no Mississipi, EUA.

Globalização do nacional

 O que passou muito tempo despercebido aos formuladores da política industrial dos governos Lula e Dilma (e não se diz dos de FHC, para os quais indução industrial é pecado capital) era que a manufatura se transformava no mundo bem antes da grande crise de 2008, gerando uma divisão de mercados em que o Brasil não foi contemplado.

 As filiais brasileiras continuam produzindo, com pequeno lapso de tempo ou mesmo em sincronia, os mesmos bens fabricados nos EUA, na China, na Alemanha (isso falando de produtos de consumo finais, não de bens de capital, entre máquinas e equipamentos). Só não são mais voltados à exportação. E passaram a incluir parcelas crescentes de componentes importados de outras filiais, inclusive como estratégia de rentabilização da produção local contra a concorrência externa no mercado brasileiro.

 A sangria da importação industrial está ai, e, quanto maior o vazamento, menor a contribuição dos manufaturados ao crescimento do PIB. Conceitualmente, esse é o problema imediato.

Revertério do incentivo

 Então, estamos assim: a indústria produz para o mercado interno e o faz em condições rentáveis, e vem aos poucos deixando não só de exportar como de usar suprimentos encomendados no mercado local.

 O processo se agrava com os anos seguidos de dólar depreciado no Brasil e se consolida quando o governo, a fim de tentar recuperar o crescimento econômico depois da crise de 2008, estende subsídios ao consumo de alguns produtos (carros, eletrodomésticos) - justamente os de maior produção integrada no mundo.

 Não surpreende que, embora o consumo crescesse, o PIB perdesse força. A demanda vazou para as importações. Não tanto de produtos prontos, mas do processo fabril. E tirou crescimento do PIB. Fosse a absorção externa equilibrada, ao menos, e o PIB teria crescido 3,2% em 2013, e não 2,3%.

Estímulos postos no lixo

 Não há como restaurar a tração do crescimento sem que a exportação industrial recupere a sua participação histórica sobre o PIB. Isso implica não aumentar a integração com suas cadeias de valor fora do país, que já é intensa, mas de a produção interna não ser o fim de linha, como hoje, e, sim, parte de um processo produtivo circular.

 Em vez de desperdiçar a desoneração do IPI no preço de venda de um carro, por exemplo, trata-se de estimular a produção local de itens globais, tipo caixa de câmbio e sistemas de freios, fazendo do país plataforma de exportação desses componentes para outros mercados. É esse o caminho. Não há outro, e não se faz só com moeda fraca.

Moeda fraca não é elixir

 Depreciação cambial desacompanhada de indução que faça a indústria de transformação, essencialmente estrangeira e globalizada, voltar a se reintegrar ao circuito da produção mundial pode implicar algum corte do déficit da balança comercial, ao encarecer as importações.

 Mas sem visão de conjunto sobre como funcionam as cadeias de valor no mundo dificilmente recuperará a exportação. Isso leva tempo. Tem a ver com regras estáveis; moeda devidamente posicionada em relação às demais (dólar, euro) num primeiro momento e, depois, com baixa volatilidade; custo de logística competitivo; perfeito entendimento de que ninguém exporta impostos, e por ai vai.

 E estamos falando só de cadeia produtiva, não de desenvolvimento tecnológico, que é caso para outra conversa. A oportunidade é que a base industrial já está assentada no país com razoável sofisticação. Voltaremos ao tema.

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