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19/06/2015 17:33 por

O varejo em 2015

Já tivemos oportunidade de observar neste espaço que a trajetória do varejo brasileiro na transição de uma fase de forte expansão para a etapa de desaceleração, e agora de retração da atividade, foi gradual, o que ajudou o setor e suas empresas a se ajustarem à nova realidade de forma também gradativa. Até 2014 isso evitou reduções do emprego, quebras de empresas ou crises financeiras agudas em segmentos do comércio que investiram muito em expansão no auge da etapa anterior. Sabemos que em outros setores um percurso como esse não se apresentou. Para ilustrar, na indústria a crise se revelou aguda assim que se esgotou o período de recuperação da recessão de 2009. De fato, já em 2011 a trajetória da produção industrial em termos reais entrou em campo negativo, praticamente permanecendo nessa situação até 2013, agravando-se o quadro em 2014 e muito mais agora, na entrada de 2015. 

Para o varejo, o “pouso suave” se traduziu em uma escala de desaceleração que partiu de uma taxa de crescimento real de vendas ainda muito elevada em 2012 — na casa de 8%, segundo o conceito de varejo restrito do IBGE, que não inclui o comércio de veículos e autopeças e de material de construção — para uma variação razoável para as novas condições da economia em 2013 — cerca de 4% — e daí para uma expansão apenas modesta em 2014, na faixa de 2%. O ano de 2015 pode demarcar uma ruptura nessa sequência que indicava crescimento zero, ou próximo a isso, neste ano. 

No primeiro quadrimestre, segundo a última pesquisa do IBGE, o varejo acumulou queda de 1,5% no conceito de comércio restrito. Como as vendas de veículos e autopeças estão particularmente sofrendo os rigores da crise econômica brasileira — a queda nesse caso atingiu 16% em termos reais —, o varejo ampliado observou queda de 6,1%. Os números, portanto, são de todo ruins, mas pior ainda é a tendência de agravamento que emana da análise dos dados. 

Assim, no mês de abril a redução do varejo restrito foi bem superior à média dos quatro primeiros meses do ano, -3,5%, indicando aceleração da queda. Neste caso, o indicador de variação mês após mês com ajuste sazonal indica seguidas retrações das vendas reais nos últimos três meses. Quanto ao varejo ampliado, os mesmos comentários são válidos. Em abril, as vendas foram 8,5% menores do que em abril do ano passado. 

Quem vem sustentando o nível ainda relativamente baixo do revés das vendas varejistas são os segmentos cujos desempenhos relacionam-se mais estreitamente com a massa de renda da população. Esta já vem caindo, porque o emprego e o rendimento médio real já retrocedem, porém até agora em níveis relativamente pequenos. São os casos de Hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, onde as vendas declinaram 1,6%, e Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos, que ainda ostenta aumento real de 5,9%. 

Ainda como segmentos de “sustentação” aparecem Equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação, com a maior taxa de todo o varejo, 13,5%, e Outros artigos de uso pessoal e doméstico, com crescimento de 6%. A má notícia é que em todos esses segmentos os últimos resultados indicam maior desaceleração ou aprofundamento da retração. A título de exemplo, a queda em abril para Hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo foi de 2,3% e o aumento em Equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação ficou em apenas 2,7%. 

Naturalmente, a liderança dos maus resultados de 2015 reside nos segmentos mais associados ao crédito e que mais sofrem os efeitos das desconfianças dos consumidores com relação ao futuro. As vendas em Móveis e eletrodomésticos caíram no início do ano 8,9%, igualmente com tendência de aceleração da queda de faturamento. 

Tecidos, vestuário e calçados, um ramo influenciado tanto pela massa de rendimentos quanto pelo crédito, é outro destaque. A queda de 4,2% em suas vendas nos quatro primeiros meses do ano já é amplamente superada pela redução de 7,5% no último mês desse período. Se é possível formar uma perspectiva moderada para o varejo para o ano como um todo a partir do conjunto dessas informações, ela seria de um declínio da ordem de 3%.

Julio Gomes de Almeida é ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e professor do Instituto de Economia da Unicamp. Escreve regularmente no Cidade Biz.

 

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