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ANTONIO MACHADO

30/03/2019 19:39 por Antonio Machado

O que importa de fato: ativar já o crescimento, portanto, o emprego, sem agravar o quadro fiscal

A economia caminha para outra década perdida ainda mais grave que a dos anos 1980, com crescimento médio anual de 0,9% de 2011 a 2020. Até 2018, cresceu apenas 0,6%

Disparates em série 

A corda quase se esgarçou em meio ao caos em que se transformaram as relações do governo de Jair Bolsonaro com os poderes da República – visto, por muitos, como ações com método e objetivo e não repentes doidivanas. As atenções se voltam ao “quase” e às suas intenções.

Na superfície, Bolsonaro quer governar sem a tal “governabilidade” construída mediante a ocupação de cargos estratégicos por gente da confiança dos partidos. Foi o que fez ao montar o ministério à sua feição, sem ouvir nem o PSL pelo qual se elegeu. Mas ele fez mais.

Aconselhado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, até então a principal liderança política assumidamente defensora da impopular reforma da previdência, a também se expor em favor do que sempre se opôs enquanto parlamentar, Bolsonaro foi às redes sociais mover uma campanha de difamação do deputado e dos parlamentares em geral.

Pelo que disse, supostamente barganharam cargos por votos à PEC da previdência, representando o que deu de chamar de “velha política”. Ora... Com sete mandatos de deputado federal e mais um de vereador, 32 anos nessa vida que hoje destrata, três filhos levados ao mesmo caminho, e sempre afiliado a partidos aninhados no governo da vez, Bolsonaro se quer presidente de uma “nova política”.

Até aí passava aos velhos colegas de plenário. Lá o que mais há é negação da realidade. O franzir de testa veio com a virulência da campanha contra Maia e o Congresso, depois de ministros do STF já terem levado coronhadas e seu guru de Virgínia, Olavo de Carvalho, atirar a esmo contra o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro Carlos Alberto dos Santos Cruz, ambos generais da reserva. Como é?

Ele vinha atiçando os radicais de Facebook, que são menos do que parecem devido aos algoritmos mais restritivos do aplicativo, o que faz bombar só os impulsos patrocinados. Foi assim que despontou, de repente, o Bolsonaro paz e amor. Uma ação tática ou sincera?

Na quinta-feira, ele minimizou o bate-boca com Maia como “chuva de verão”. Na parte da manhã, foi informado de que seu único esteio na economia, o ministro Paulo Guedes, manifestava cansaço em ser, na prática, um cruzado solitário das reformas num governo empenhado em agitar a política, mas ausente nas batalhas relevantes. O que virá?

Projeto obscuro de poder

Ninguém sabe avaliar entre as lideranças da Câmara, do Senado e do STF o que esperar de um governo despreocupado com a falta de apoio parlamentar, sendo o Congresso a instância superior aos outros dois poderes constitucionais, o Executivo e a Suprema Corte.

Preocupante, a tais lideres, foi assistir ao próprio presidente se servir das redes sociais para pôr lenha na fogueira em que arde a reputação da política junto à sociedade desde os escândalos trazidos à luz pelos investigadores da Lava Jato.

Em dado momento, pareceu, e ainda parece, que Lava Jato e Bolsonaro operavam em sintonia contra o Congresso e o STF, visando, a pretexto de apurar a corrupção, depurar e subjugar as instituições em nome de um projeto obscuro de poder.

A hora é dos pragmáticos

O sentimento é que o cristal da confiança rachou e não há mais o que una os pedaços, apesar dos gestos conciliatórios dos envolvidos. É neste contexto em que se inserem os projetos anticrime do ministro Sérgio Moro e as propostas levadas à Câmara por juristas e técnicos, sob a coordenação do ministro do STF, Alexandre de Moraes.

Esta proposta foca o ataque ao crime organizado e o comum, conforme os anseios da sociedade por maior segurança pública, enquanto o outro projeto enfatiza o combate à corrupção na governança do Estado. Ambos se completam. A parte da prisão após julgamento em segunda instância, apontada por procuradores federais como inaceitável pelos políticos, é mais receio que fato, devido à retomada desta discussão no STF.

Quanto aos projetos do ministro Guedes, tudo lhe será facilitado se for menos ideológico ao justificar suas ideias pelo prisma da visão liberal na economia (que nunca foi tratada na campanha de Bolsonaro) e, no caso da previdência, o presidente explicitar sem sofismas o seu apoio às reformas.

Como ambos não cultivam o pragmatismo, o provável é que prevaleça o protagonismo do Congresso em todas as discussões.

O que está acima de tudo

A questão que importa é uma só: como ativar o crescimento, portanto, o emprego e a renda, sem abalar ainda mais as finanças públicas? Não é só com reformas que se fará isso, não obstante sejam essenciais.

A economia caminha para outra década perdida ainda mais grave que a dos anos 1980, conforme estudo de Marcel Balassiano, do IBRE-FGV, com crescimento médio anual de pífio 0,9% de 2011 a 2020, abaixo da taxa de expansão da população. Nos anos 1980, o crescimento foi de 1,6% ao ano. De 2011 a 2018, apenas 0,6%. O desemprego é a grande sequela.

E a eleição de Bolsonaro, o grito de desespero, sobretudo dos mais pobres, contra tanta carência. Atendê-los é a obrigação, adequando a macroeconomia e o Estado a tal princípio. Isso está acima de tudo.

Sem crescimento, esquece

O cenário à vista é este: ou o governo lidera as transformações em sintonia com os demais poderes ou o Congresso as fará, com apoio dos governadores e dos setores lúcidos da burocracia. Não há, ao que se sabe, questões insuperáveis nem com Guedes nem com Moro.

O que falta são mais projetos com resultados em curto prazo, não no futuro, em termos de retomada de investimentos para além da venda e concessão de ativos públicos (casos em que não há, necessariamente, a expansão do negócio), com simplificação das atividades empresariais, volta do crédito em condições menos gravosas que as atuais, servindo tudo para diminuir a brutal desocupação no mercado de trabalho.

Sem algo assim, tudo perde sentido. Não há tempo para arranca rabos em redes sociais quando puseram as finanças públicas sobre gelo fino e o quadro social está em regressão. Não se estica o que está puído.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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