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12/06/2015 16:50 por

O Brasil e a indústria mundial

Houve um tempo — entre o início dos 70 e meados dos 80 — em que o Brasil foi um razoável centro industrial mundial por uma conjugação que obteve muito sucesso de iniciativas empresarias de grandes corporações internacionais, companhias nacionais nascentes e empresas públicas. Era um tempo em que a indústria na China praticamente inexistia e que na Coréia era diminuta, contrastando com o porte da indústria brasileira, que como expressão da indústria mundial rondava 2,5%, índice muito superior a qualquer outro emergente ou país em desenvolvimento. Pois bem, esse quadro mudou, primeiramente porque a globalização e políticas industriais nacionais de grande êxito empreendidas por países emergentes abriram caminho para uma divisão do mundo industrial muito menos favorável aos grandes países desenvolvidos — principalmente EUA, Japão, Alemanha e outros países europeus — e com participação muito maior de novos emergentes industriais, como os dois países asiáticos já mencionados. 

Ao mesmo tempo em que evoluíam novas economias industriais emergentes, o Brasil enveredava por um caminho “sem volta”, que combinou uma seríssima crise de endividamento externo com inflação galopante; exageros na aplicação de uma política ortodoxa de ajuste e de abertura da economia; e prolongada e significativa valorização da moeda. Com isso a indústria definhou, perdendo progressivamente expressão no âmbito da economia nacional e a nível mundial. Até 2013, no entanto, teve forças para manter alguma importância externa, com sua indústria representando cerca de 1,7% no total mundial.

A indústria no mundo não vive seus melhores momentos na atualidade, mas a indústria brasileira supera em muito os padrões globais em termos de decadência de seu parque manufatureiro. Desde 2008 não há crescimento do setor; na verdade houve redução de quase 10% do PIB industrial brasileiro entre o pico do dinamismo industrial anterior à grande crise global de 2008 e os dias de hoje. 

Nos últimos anos, houve um pequeno surto de crescimento industrial em 2013, mas o ano de 2014 voltou a ser crítico e a indústria caiu. O início de 2015 acena com um retrocesso ímpar na história industrial do país. O PIB industrial retrocedeu no primeiro trimestre 7%, enquanto o PIB brasileiro total caía muito menos, 1,6%, denotando ser este o setor que comanda e difunde as adversidades da crise atual para o resto da economia. 

Dados de um relatório da Unido (órgão das Nações Unidas para a indústria) mostram que o descompasso entre mundo e Brasil, no que diz respeito à indústria, certamente está tendo uma inflexão dramática em 2015. Como o Iedi destaca em sua análise de ontem, a produção manufatureira mundial no primeiro trimestre deste ano teve crescimento moderado, 2,8% face ao primeiro trimestre de 2014, e está em curso uma desaceleração ao longo dos trimestres desde o primeiro trimestre de 2014, quando a produção evoluiu 4,8%. Mas o que dizer do Brasil, que no mesmo período viu sua indústria de transformação encolher 8%? 

A desaceleração mundial abrange países de economias mais maduras — aumento de 1,3% no primeiro trimestre de 2015 — e países em desenvolvimento e emergentes, onde o crescimento de 5,3% ainda pode ser considerado robusto, mas muito aquém de taxas entre 7,5% e 8,5% do início do ano passado. Ou seja, mesmo em um quadro relativo de encolhimento do dinamismo industrial a nível global, o Brasil se destaca negativamente. 

É interessante também destacar os ramos que serviram de motor ao crescimento industrial na entrada de 2015. A indústria de outros equipamentos de transporte foi a de maior crescimento, 8,4%; no Brasil esse ramo caiu 4%. A indústria de televisores e telecomunicações veio em seguida com crescimento de 8%; enquanto no Brasil declinava nada menos que 27% — em parte, é verdade, pelo “fator Copa”. A indústria de produtos químicos veio em seguida, 5,7%; no Brasil, queda de 3,8%. Móveis teve expansão de 4,6% a nível global, mas declínio de 6,4% em nosso país. O quinto destaque é o ramo de equipamentos elétricos, com 4,3% de aumento no mundo; mas declinou 3% no Brasil.

Julio Gomes de Almeida é ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e professor do Instituto de Economia da Unicamp. Escreve regularmente no Cidade Biz.

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