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ANTONIO MACHADO

14/04/2018 22:22 por Antonio Machado

Não nos falta um líder, faltam milhões de pessoas cientes dos problemas e do mapa do progresso

O país precisa superar o esquerdismo desnorteado, o messianismo da Justiça, os proxenetas de fundos públicos e o suposto cientificismo das reformas econômicas

Gente com fibra

Que a crise política, moral, ética e muito mais que se abate sobre o país é séria, não se discute. Aliás, discute-se até demais. O que não se discute é o que devemos fazer para criar emprego, melhorar a economia, civilizar as cidades - enfim, a nossa realidade diária.

Isso é o que nos interessa e deveria interessar aos que julgam ter as respostas para o que inviabiliza um país continental e populoso, autossuficiente de tudo, de energia a alimentos, com uma só língua, sem conflitos religiosos e étnicos, sem qualquer inimigo externo.

Mas com miséria endêmica, educação sofrível, juventude largada à própria sorte, violência desmedida, os 60 mil assassinatos por ano, saneamento precário, desordem fundiária urbana. E isso, com raras exceções, devido a governantes fracos e políticos sem projeto, sem consciência social, sem informação sobre as tendências globais.

Não imagine que as riquezas naturais e a desventura de nossa gente nos façam excepcionais - o país do futuro que nunca chega. Por que não chega? Olhemos para o mundo para elucidar esse enigma.

Sem nenhum recurso natural, a Coréia do Sul se tornou uma potência econômica em menos de 50 anos, graças à educação de qualidade e sua elite dirigente e empresarial com sede de progresso. Com 1,3 bilhão de habitantes vivendo na idade média antes que começasse a se mover no fim dos anos 1970, a China hoje assombra os EUA.

E a Índia, com um bilhão de pessoas falando três dezenas de línguas, professando dezenas de religiões, um sistema de castas sociais? É a sensação do desenvolvimento econômico, tecnológico e militar de nosso tempo.

O que nos liga à história desses países que hoje estão na linha de frente da geopolítica mundial é que até 1980 todos estavam atrás do Brasil. Perdemo-nos não pelas nossas vantagens, então escassas aos outros: unidade nacional, indústria complexa e diversificada, água e energia em abundância, “uma terra em que se plantando tudo dá”, como Pero Vaz de Caminha escreveu em 1500 ao rei de Portugal.

O que faltava e ainda falta não é um líder, mas milhões de pessoas cientes dos problemas e do mapa do caminho para o progresso, sob a gestão de representantes eleitos e temporários, já que perene é só a vontade de empreender um projeto de longo prazo, sem depender de ideologias e, sobretudo, de autocratas enrustidos.

Apóstatas da cidadania

A garra para construir e fazer mesmo errando nunca houve de fato. São abundantes os exemplos de ideias irrelevantes para o progresso, como a mudança da capital; o desperdício de dinheiros públicos em atividades não essenciais, tipo subsídios e desonerações a negócios ultrapassados; os gordos salários e mordomias da alta burocracia.

A própria Lava Jato é somente outro flagrante da dilapidação dos recursos escassos, não a solução. Que só virá com inteligência, com um plano sobre o que fazer e aonde ir, e trabalho.

E os corruptos? Do vastíssimo rol de gente enrolada cuida a lei, que é para todos.

Não se faz justiça na marra. Nem queimando a bandeira do Brasil, como fizeram estudantes da Universidade de Brasília dias atrás. Os apóstatas da cidadania nacional que fomentam tais perversões e os candidatos de fala empolada e carentes de ideias, inventados para iludir a boa fé dos mais simples, não são solução de coisa alguma.

Superando as perversões

O país precisa superar o esquerdismo desnorteado, o messianismo do sistema de Justiça, os proxenetas de dinheiros públicos e o suposto cientificismo e neutralidade social das reformas econômicas.

Não há projeto viável sem que o social seja o pivô das ações e a inovação tecnológica, o instrumento das reformas do Estado e da economia.

Isso implica, por exemplo, projetar a reforma mais urgente, que é a da previdência, elevando a idade de fruição da aposentadoria em linha com o aumento da expectativa de vida e a redução da taxa de natalidade. Mas, ao mesmo tempo, aportando as ações das empresas e bancos estatais num fundo universal de previdência, garantindo o crédito dos dividendos na conta de cada brasileiro maior de idade.

A tecnologia da informação também permite recolher os impostos em tempo real por um sistema de pagamentos com moeda digital, com ou sem a mediação de bancos, eliminando-se sonegação, complexidade e custos. Da mesma forma se faz com os gastos, cerceando as fraudes.

A maior das prioridades

Com as instituições nacionais tornadas abjetas aos olhos de muitos e o respeito à ordem desafiado cotidianamente pelos maus exemplos das ditas autoridades e a covardia dos governantes, não se deve ter ilusão com a crise em curso. Ela ameaça a segurança do Estado, se a política não souber se engrandecer, refazendo a coesão nacional.

Essa é a maior das prioridades por agora, definidora do perfil que importa considerar nos candidatos a presidente.

Deverá ter vantagem quem dialogar bem com as diferenças, falar ao eleitor mais simples, se impor à burocracia, conhecer o poder transformador da tecnologia e ter ideias inovadoras e a confiança dos empreendedores.

Sem essas habilidades, o risco de a crise agravar-se é real. Esteja atento.

Tudo o que importa

O que merece atenção no “show” eleitoral? Primeiro, não dar tanta importância aos que tentam roubar a cena, como os inabilitados pela Lei da Ficha Limpa e os sem qualificação para resolver o imbróglio.

A governança disfuncional do setor público, por exemplo, é o maior obstáculo ao progresso econômico com equidade. Já tarda superar a bagunça no interior do Estado em razão de excessos de autonomia, em especial orçamentária e regulatória, sob pena de os eleitos virem a ser figurantes tutelados pelas burocracias e caçados pelo sistema.

A digitalização da arrecadação e dos fluxos de despesas é a chance de endereçar tais desafios, segundo estudo recente do FMI. Ajuda a receita (podendo elevá-la em 2% do PIB ao ano, em média) e previne desvios já na origem, dispensando o protagonismo dos controladores.

Haverá mais recursos às políticas sociais, ao investimento ou para cobrar menos imposto. É tudo o que importa. O resto é distração.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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