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ANTONIO MACHADO

23/12/2018 12:27 por Antonio Machado

Não há tempo para reformas meia boca. Ou se faz logo o que tem de ser feito ou o bicho vai pegar

Se até por volta de 2012 havia espaço para que se bancassem desaforos, hoje não há mais, tanto como se foi o tempo de presidentes imperiais e parlamentares inimputáveis

Confusões ou soluções 

Embora pouco se conheça os planos do novo governo, já se sabe qual é a turma da problemática e a da solucionática. Uma adora holofotes e criar confusão. A outra, em geral minoritária, traz a solução. É essa que pode levar o presidente a concluir seu mandato e sair de cena sem passar o resto da vida se indagando: ‘Onde foi que errei?’

Erros formam o traço condutor da história nacional, tratados quase sempre com indulgência pelos historiadores e esquecidos pela mídia, na corrida cotidiana pelo escândalo de hoje, que apaga o de ontem.

Com Jair Bolsonaro não seria diferente, não tivesse o passivo de erros exaurido a capacidade de a sociedade bancá-los, além de estar chumbado na Constituição o teto de gastos federais e haver o olhar severo e impaciente das redes sociais - o maior fenômeno político, e ainda em evolução, desde a invenção da tipografia no século XV.

Em suma, Bolsonaro poderá chegar intacto ao fim do quarto ano até para pleitear a reeleição, se e apenas se enfrentar o pesado acervo de inépcias e iniquidades acumuladas pelos antecessores e pioradas pela Constituição de 1988, que de “cidadã” só teve o rótulo.

Desde o ocaso da ditadura varguista, a maioria dos governantes foi para casa se lamentando.

Juscelino realizou seu sonho de construir Brasília e legou o pesadelo do Rio de Janeiro, a capital enjeitada que nunca se recuperou do baque. Atropelou com rodovias as poucas ferrovias e usou reservas dos antigos institutos de aposentadorias e pensões para construir Brasília, paga também com inflação.

FHC é mais lembrado pela reforma monetária de 1994, que estancou a inflação, não por arrancar do Congresso a reeleição. Reeleito, dias depois se curvou à maxidesvalorização do real, negada na véspera, e combateu o coice inflacionário com Selic a 45%, surpreendeu-se com o apagão de energia elétrica, e aconteceu o previsível: ajudou a moldar a vitória relativamente tranquila de Lula.

Com contas públicas mais ou menos arrumadas e o boom das commodities, a sorte sorriu a Lula. Saiu com popularidade de 80%, elegendo Dilma Rousseff com o pé nas costas, embora não demorasse a que ela se achasse do mesmo tamanho do tutor e desse tudo errado.

Deputado há 28 anos e mais quatro como vereador, portanto, mais político que militar, Bolsonaro assistiu à ascensão e queda deles todos. Agora, vai-se saber o que aprendeu.

Reformas sabotadas

Se até por volta de 2012 havia espaço fiscal e parafiscal para que se bancassem desaforos, hoje não há mais, tanto como se foi o tempo de presidentes imperiais e parlamentares inimputáveis.

Dilma perdeu o mandato e não conseguiu eleger-se senadora em Minas Gerais, embora houvesse duas vagas em disputa. As sequelas de seus deslizes, para sermos brandos, têm sido dramáticas. Para Lula, que está preso; para nós, que amargamos recessão recorde, desemprego de dois dígitos e renda per capita ainda longe do ponto de partida em 2008. Foi esse o caldo de cultura da vitória de Bolsonaro.

Sua candidatura também foi inflada pela apuração da Lava Jato, que expôs a ganância de dirigentes petistas e aliados, e pela soberba da elite intelectual do PT, sobretudo dos quadros do setor público – os mesmos que manipulam o discurso social para assustar os mais pobres e sabotar, assim, as reformas que ameaçam suas prebendas e privilégios.

Vontade da maioria

Ainda que mobilize milhares de “likes” e comentários favoráveis nas redes sociais toda vez que Bolsonaro se dirige a seu público, entre os enfezados com a esquerda, evangélicos conservadores e indignados com a falta de segurança pública, tudo isso é mais espuma.

É o modelo do colega Donald Trump, que não larga o twitter, buscando com frases agressivas pautar a imprensa e ficar em evidência.

Bolsonaro e seus filhos parlamentares se encarregam do departamento de polêmicas. Mas é o departamento da solucionática - onde se esfalfam o ministro da Economia, Paulo Guedes, e Sérgio Moro, na Segurança - o único capaz de entregar as soluções que a maioria espera.

E põe nessa maioria boa parte dos que batem bumbo a cada polêmica no Facebook.

Economia menos surrada

Quer dizer: aborto, não, escola sem partido, sim, para os que apoiam a retórica de Bolsonaro, mas com geração de empregos e renda em alta, em meio a inflação baixa, crédito barato e crescimento econômico.

O novo governo vai encontrar a economia menos surrada do que Michel Temer encontrou, com safra recorde, produção em alta, desemprego em baixa. Falta o investimento para haver um ciclo de bonança. Que virá, se o governo não medir esforço na reforma da previdência, atacando a rapinagem pelo setor público.

Não há tempo para reforma meia boca. Ou faz logo o que tem de ser feito ou não haverá twitter que resolva.

Que 2019 seja radiante

E aqui me despeço, desejando boas festas e 2019 radiante, que será, se fizermos marcação cerrada para que assim seja. Volto dia 20. Até!

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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