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ANTONIO MACHADO

07/11/2015 23:48 por Antonio Machado

Metade das crianças chega analfabeta ao 3º ano e somos o 60º entre 64 países na atenção aos jovens

Educação cresce em número, verbas, mas continua ruim, e a economia fecha empregos. Ao voltar a criá-los, não achará o que a tecnologia já demanda. É a tragédia circular

Pense nisso...

 Pense nisso...

 Com o governo federal formado por mais de 1 milhão de funcionários ativos, 31 ministérios, dezenas de secretarias e autarquias, numa estrutura replicada nos 27 estados e 5570 municípios, um Sistema de Justiça cujo porte excede o das grandes democracias, segundo estudo recente, e o Congresso Nacional e seus 513 deputados, 81 senadores e cerca de 25 mil servidores de apoio - ou 42 para cada parlamentar -, como é possível a recorrência das mazelas de nosso cotidiano?

 Do tamanho do déficit fiscal, que depois de um ano o governo Dilma Rousseff ainda reluta em dizer de quanto será em 2015, ao vexame do programa da Receita criado para se fazer o cadastro da empregada doméstica e emitir o boleto de pagamento dos tributos, tais eventos estão unidos pela ignorância dos políticos sobre os limites do que a gestão pública é capaz de entregar e pela soberba da burocracia.

 A despeito dessa vasta retaguarda profissional e de alguns núcleos de excelência à disposição da presidente e dos legisladores, pouco se obtém de retorno social dos programas de governo e assistimos há dois anos a economia regredir, repetindo distorções que se supunha superadas, tais como inflação e desemprego crescentes, recessão e déficit primário, revelando que o Tesouro já mal consegue gerar uns trocados em meio à enorme carga tributária para solver sua dívida.

 As sequelas desse modelo de governança estão em toda parte. Ele se tornou iníquo ao se voltar para dentro, priorizando as funções meio e não o "cliente" final (do paciente que recorre ao SUS ao aluno da rede pública). E é disfuncional por que ao governante importa mais o dividendo eleitoral dos programas, não seu benefício à sociedade.

 Sabem-se os ônus para o bolso, puído pela inflação, e para a alma, oprimida pelo receio do desemprego, já que da economia se ocupa uma legião de economistas. Mas muito pouco se fala sobre a eficácia das políticas sociais, embora se alardeie o desagrado da população. E, quando o tema emerge, é logo posto para correr, como fizeram alguns analistas ao falar das propostas de melhoria da gestão pública que estão no surpreendente e objetivo programa do PMDB, intitulado "Uma Ponte para o Futuro". Os lobbies que mamam no Tesouro agradecem.  

Quem clama por socorro

 O PMDB não é flor que se cheire, mas no jardim dos partidos nenhum se destaca pelo esplendor. O mérito da proposta do PMDB é convocar a discussão sobre questões essenciais, focando o que há a corrigir.

 O que o país demanda é mais que um mero ajuste fiscal, como realça o documento. É a gestão do Estado brasileiro que clama por socorro.

 Se a vasta corrupção nas entranhas das empresas estatais flagrada pela Operação Jato ainda não basta para atestar a má governança do setor público, que se olhe ao que acontece com a educação. A quarta edição do Anuário Brasileiro da Educação Básica, lançado em junho e ignorado pela imprensa, mostra que mais de 50% das crianças chegam analfabetas ao fim do 3º ano do ensino fundamental. Isso é infame.

 E mais: 93% não têm fluência em matemática. Mandamos mais alunos à escola, mas não os preparamos para que estejam aptos ao mercado e a cidadania. Isso não é "Pátria Educadora", o slogan desse governo.

Base-zero é hit do PMDB

 O quadro da educação, que se repete na saúde, é uma tragédia. "É muito difícil recuperar esse aluno depois", disse em audiência na Câmara a diretora do movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz.

 Não é de falta de dinheiro o que mais se ressente a educação. O gasto público por aluno do ensino médio, segundo Priscila, dobrou nos últimos dez anos, sinal de desvio para outros fins - em geral, salários e materiais, sem relação com os benefícios.

 Isso é indício de má administração e carência de métricas para avaliar o que fazem os gestores. É do que trata o orçamento base-zero, um método criado nos EUA para aplicação na área pública e depois levado à iniciativa privada, ao contrário do que disseram críticos da proposta do PMDB.

 Ele torna rotineira a avaliação anual das rubricas orçamentárias, orientando o parlamentar sobre o que funciona e o que fracassou ou requer ajustes. A despesa vinculada à receita, tal como é hoje, é danosa à sociedade, pois desobriga o gestor de cumprir resultados.

Jovens sem vez no Brasil

 Então, estamos assim: a educação cresce em quantidade e recursos, mas sem qualidade, enquanto a economia fecha empregos. Ao voltar a criá-los, não encontrará o que a tecnologia já passou a demandar.

 É a tragédia circular, refletida em estudo da organização francesa Youthnomics junto a 64 países sobre onde jovens de 15 a 29 anos têm mais oportunidades de prosperar e ser feliz. O Brasil é o 60º dessa lista, filtrada por 59 critérios, da qualidade da educação ao nível de emprego, da liberdade de costumes à realização pessoal.

 Estão ai os resultados dos governantes. Recessão, desemprego, juros siderais e que tais são sintomas. O resultado que conta é o da competência.

Quanto mais vamos perder?

 Quanto tempo mais nós vamos perder, entretidos com as apurações do assalto aos dinheiros públicos, as desculpas do Lula e do Cunha, as incertezas da Dilma, as tertúlias do tucanato, a ilusão da fortuna das matérias-primas, a suposta infalibilidade do governo provedor?

 A resposta não é irrelevante, pois o mundo continua avançando e em transformação. Aqui, tememos o desemprego pela recessão. Nos EUA, o que se teme é o impacto da inteligência artificial sobre o emprego.

 Estamos longe disso. Antes, temos de salvar a nossa indústria. Seu naco no PIB vai regredir ao nível dos anos 1930, alerta o Instituto Brasileiro de Economia da FGV, confirmando-se a retração de 20% da produção no triênio até 2016. E, em moeda constante, a renda per capita deve voltar até o fim da década ao patamar de 2010.

Pense no que já perdemos e vamos perder mais. A perda é nossa. E será maior para nossos filhos.

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