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ANTONIO MACHADO

09/06/2018 22:31 por Antonio Machado

Mesmas caras e mesmas vozes trazem, em comum, a mesmice de programas obsoletos e promessas ocas

Já é tempo de compreender os sinais da sociedade. O que chamam de ódio na política talvez signifique, de fato, a revolta de quem se descobre tapeado por anos a fio

Prato feito enjoou 

As eleições complementares realizadas no Amazonas e Tocantins e em vários municípios para substituir governantes cassados pela Justiça eleitoral dão uma pista sobre o possível vencedor nas urnas em 7 de outubro – a soma dos votos nulos e brancos com as abstenções. O não voto está mandando um recado muito claro: a maioria enjoou do prato feito, o popular PF, da política, e os partidos não se tocaram.

Mesmas caras, mesmas vozes, umas mansas, outras graves, trazem, em comum, a mesmice de programas obsoletos de governo e promessas cada vez menos críveis, já que ignoram o rombo do caixa público e fingem não entender a cobrança da sociedade por tratamento igualitário.

É perverso tirar benefícios ralos da maioria da população, mas não dos sobas do Estado. O aposentado pelo INSS, por exemplo, vai para casa recebendo cerca de 40% do último salário. Os do setor público são premiados recebendo, em média, 80% mais que o último salário na ativa, o caso de servidores do Judiciário federal. Por que isso?

Quem paga este “prêmio”? Todos os brasileiros, o que faz a maioria ser tratada como ralé, o rebotalho da sociedade, forçada pela Carta constitucional a bancar os privilégios do setor público, que incluem garantia no emprego, férias de 60 dias de juízes, saúde privada, pois tais cidadãos especiais sabem-se lá por qual razão têm direito a coisa melhor que o SUS, e privilégios de corar pessoas de boa fé.

Nos tribunais, há confortos como academia de ginástica, aparelhos de musculação, fisioterapeutas, lanchinhos e chá da tarde com petit four. O Brasil do poder é sem vergonha. Em que democracia digna do nome há carros oficiais com motoristas? Não há. Qualquer benefício é justificado e excepcional, além de tratado com extremo recato.

Aqui, guardas da PM e das forças armadas servem de babás de filho de autoridades e levam madames às compras. E há quem não saiba por que tanta gente recusa as reformas e defenda empresas estatais.

Claro, também sonha com o status e as regalias do poder. Mas, como elas só contemplam os poucos da elite do governo, vivemos o impasse já sugerido por Stanislaw Ponte Preta, personagem do genial Sergio Porto: “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”.

O #foratudo é seletivo

O acerto de contas, literal e figurado, é inevitável, embora ainda haja entre os candidatos a qualquer coisa quem imagine que o Estado fabrique dinheiro do nada e que basta vontade para chover na horta.

Pior é que há muito eleitor iludido, talvez atemorizado de encarar a realidade de um país dilapidado por governantes relapsos e líderes ditos sociais tão falsos quanto Rolex paraguaio. Alguns funcionam, mas não enganam nem assaltantes de relógios de marca.

Quando estes senhores denunciaram os privilégios da burocracia, ao pedir sacrifício à sociedade em nome de reformas, de ajuste fiscal, de diesel subsidiado a caminhoneiros? Nem eles nem nenhum dos tais movimentos que invadem propriedades e queimam pneus. A indignação é do tipo #foratudo, mas nunca se viu contra as benesses estatais.

Aliás, por que será que muitos deles são funcionários públicos e ativistas de ONGs mantidas por verba oficial? Curioso, não é?

O tratamento da verdade

O choque que se faz necessário é o da verdade, o tratamento eficaz contra os aventureiros, os toscos e os defensores do atraso – seja do estatismo, que cultiva grupos econômicos pernas de pau e a elite de burocratas e oligarcas políticos e sindicais, ou do liberalismo capinanceiro, do mercado trancado contra concorrentes “malvados” - aquela gente que arrisca, cria empregos e desconhece tempo ruim.

Em comum a esses interesses públicos e privados, em que setores da esquerda se amasiaram à direita, é o seu viés extrativista da renda nacional. Tipo o quê? Crédito a juros fixos e baratinhos em bancos estatais, desonerações de impostos, emprego garantido a servidores públicos, aposentadoria integral, educação básica ruim vis-à-vis a primazia das universidades gratuitas até para quem pode pagar.

Essa é a síntese de nosso subdesenvolvimento. Corrupção endêmica, miséria, 62 mil assassinatos ao ano, moeda fraca são as sequelas.

A revolta dos tapeados

Já é tempo de compreender os sinais da sociedade que estão em toda parte. O que chamam de ódio na política talvez signifique, de fato, a revolta de quem se descobre tapeado por anos a fio. As redes sociais horizontalizaram o acesso ao conhecimento e vem dando voz aos que se informavam (se tanto) por terceiros. Esse fenômeno é mundial.

Exceto fanáticos de seita política, ninguém mais quer se guiar por grandes líderes. A maioria tende a se ver como líder de sua própria vontade, quer informação inteligível do governante, repudia mamatas dos estatocratas, aspira ao ensino que educa e à saúde que cura, quer progredir e um bom emprego.

Se tais demandas forem atendidas, o mito da estatização e do Estado benfeitor vira conversa de intelectual.

Quem resolverá a eleição

Vamos simplificar as forças que disputam o seu voto: 1ª, a esquerda e suas várias nuances, parte da qual com as corporações da burocracia no colo; 2ª, a direita, também dividida, e um naco das corporações.

No meio entre ambas está a maioria difusa do eleitorado, sobretudo a chamada classe média baixa, que influencia a opinião dos eleitores do piso da pirâmide de renda, e milhares de pequenos empresários de todo tipo. Desde a redemocratização, só Lula soube falar com tal eleitor - aprendizado adquirido na eleição de 2002 na periferia de São Paulo.

Esse eleitor, indicam as pesquisas e a intuição, é o que reclama por segurança, por escola que eduque, reconhece a meritocracia, quer empreender, esforça-se para os filhos terem vida melhor que a deles.

A eleição será resolvida por esses eleitores, se se animarem em sair de casa para votar. Sem eles, o não-voto, com ou sem o nome de Lula na urna, tenderá a vencer, minando a legitimidade do novo governante.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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