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ANTONIO MACHADO

11/03/2014 02:04 por Redação

Mantega convida o empresariado mais para ouvir que falar, já que há pouco a dizer até as eleições

Mais que expectativas, empresários e mercado esperam definições sobre a política fiscal e monetária. É elevada a correlação entre elas e o crescimento

 Em resposta aos conselhos do ex-presidente Lula para se aproximar do empresariado, a presidente Dilma Rousseff pautou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, para que se reúna com executivos de vários setores, começando pela indústria esta quarta-feira, seguindo-se os do comércio e depois os dos bancos. A ideia, segundo foi ventilado, é mais ouvir que falar. Isso sugere algumas coisas.

 Primeiro, seu receio, decerto também do governo, de repetir o mais do mesmo. Com a presidente concentrada nos arranjos políticos, como as negociações com o PMDB, visando sua campanha à reeleição, não há muito a conversar sobre novos rumos da economia. E também há alguma incerteza quanto à política econômica num eventual segundo mandato, tanto quanto a extensão dos ajustes para 2015, além da oportunidade de promover tal discussão por agora, e com tanta gente.

 Este formato de reunião, centrado em torno do governo e uma penca de empresários, já foi testado por Dilma sem o objetivo pretendido: cumplicidade empresarial com a política econômica e harmonização de expectativas. Ela promoveu duas a três reuniões assim no Palácio do Planalto, baixando para uns 20 as dezenas de membros do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social - o tal “conselhão” do governo Lula -, sem desfazer a impressão de perda de tempo. Com o ministro da Fazenda não será diferente, podendo até ser mais ocioso.

 A frustração seriada dos resultados de várias ações econômicas, em especial sobre a retomada do investimento e o controle da inflação, além da compulsão de pinçar os cenários mais otimistas, tornou-o repetitivo e previsível, agravados pela percepção de que, mais que formular, ele é um diligente seguidor de instruções da presidente.

 Um governo percebido como centralista incide no ônus de a plateia priorizar a interlocução direta com quem decide, algo que os muitos poucos assim vistos (entre os quais, o Banco Central de Alexandre Tombini parece ter readquirido essa condição) só confirmam a regra.

 Hoje, mais que expectativas, o empresariado e o mercado financeiro esperam orientações sobre o curso da política fiscal e monetária. É elevada a correlação entre elas e o crescimento, com as três dando o sinal sobre a demanda futura, portanto, sobre o investimento. Se o governo passar segurança sobre tais fatores, o resto se acomoda.

Ambiente de restrições

 O que há a reconstruir é o ânimo do empreendedorismo empresarial em meio a um ambiente de restrições. O espaço fiscal encurtou e, a se basear na trajetória dos últimos anos, com a receita crescendo ao ritmo anual de 3% reais, e as despesas, a 7%, o que há em vista é um aumento de impostos em 2015, mesmo com gastos moderados.

 O setor externo da economia também se apresenta sem a tração das exportações agrícolas e de minérios entre 2003 e 2012, sobretudo para a China, graças às quais houve uma relação de trocas recorde.

 No plano interno, as incertezas se assentam na divergência entre a inflação dos preços livres, correndo a mais de 7% ao ano, e a dos preços administrados pelo governo (gasolina, eletricidade) a menos de 2%, com o índice, na média, no entorno de 6%. Tais desacertos fragilizam os cenários.

Depreciação desperdiçada

 A gasolina represada asfixia o caixa da Petrobras, principal fonte de financiamento de seu colossal plano de investimentos no pré-sal, além de inviabilizar o etanol. E é preciso abrir espaço na inflação para acomodar o ajuste de preços relativos em favor dos produtos de exportação (os chamados tradables) à custa dos de serviços (os tais não tradables), sob pena de a desvalorização cambial já realizada e em curso ao longo do ano ser desperdiçada, sem baixar o déficit das contas externas – uma necessidade frente à tendência de dólar menos abundante e mais caro nos EUA e de menor crescimento na China.

 Um diálogo bem-sucedido entre o governo e as forças produtivas tem de contemplar tais incertezas e negociar novos caminhos. No way é a manutenção de juros em níveis que absorvem qualquer esforço fiscal, devidos, em sua maior parte, à rigidez orçamentária, já que 75% dos gastos públicos são mandatórios, imunes a qualquer contenção.

Com esclerose precoce

 Numa exposição ao grupo de conjuntura da Faculdade de Economia da USP, o economista Paulo Rabello de Castro, do Instituto Atlântico, diz que a economia tem sinal de “esclerose precoce do crescimento”, como identificado pelo ex-ministro Delfim Netto em artigo recente, com consumo de governo (muito alto) e investimento público (muito baixo) de países avançados, e assim é desde o Plano Real, de 1994.

 Vamos aprofundar esta discussão. Ela não deve surgir na reunião de Mantega com empresários nem na campanha eleitoral. Mas nada é mais urgente que isso. Quanto mais tempo passar, mais prioritária será.

Financiamento esgotado

 A visão de um “país em declínio precoce”, segundo estudo de Paulo Rabello de Castro, ficou mais clara depois de passado o período de crescido movido por commodities, crédito e consumo, especialmente o consumo de governo. De 1997 a 2013, a taxa de expansão da despesa do governo (5,2% ao ano) foi quase o dobro da de crescimento do PIB (3,1%).

 Isso debilitou o financiamento do investimento empresarial bancado com recursos próprios, que caiu de 67% do funding total, em 2005, para 32% no ano passado. A Petrobras sente isso na carne.

 O padrão de financiamento com geração de caixa cadente, mercado de capitais estreito (representando 14,5% do funding empresarial para investimento) e atropelado pela concorrência do Tesouro para girar o papelório da dívida pública, com o BNDES limitado pela restrição fiscal, emissões de papéis no exterior condicionadas pelo viés do dólar e pelo risco-Brasil, tudo isso força a revisão de modelo e a abertura de cabeça a novas concepções. Voltaremos ao assunto.

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