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ANTONIO MACHADO

03/11/2013 01:26 por Redação

Lula é peça-chave para trazer o empresariado para perto de Dilma e a economia não desarranjar

Empresários e políticos antenados estão certos de que 2015 será de correção de rota. Mas em qual direção? A dúvida exaspera os bastidores da economia

 Em sua rápida passagem por Brasília para participar da celebração de dez anos do Bolsa Família, agitar a campanha de Dilma Rousseff, da qual será o grande personagem, e cutucar eventuais rivais, como a ex-petista Marina Silva, reforço da pré-candidatura do governador Eduardo Campos, o ex-presidente Lula se mostrou o articulador ainda indispensável do PT, além de avalista de acordos apenas insinuados.

 A presidente aparece distante de seus prováveis adversários, como o senador Aécio Neves, do PSDB, e Campos, do PSB, nas sondagens de opinião, sobretudo, entre os eleitores de menor renda, que formam a fatia majoritária do eleitorado. Emprego recorde, aumentos reais de salários e quase universalização das políticas de transferências de renda alicerçam o edifício eleitoral legado por Lula a Dilma.

 Segundo pesquisa recente do instituto Gallup sobre as condições de vida em 93 países, 63% dos assalariados brasileiros disseram estar “prosperando” – percepção de bem-estar só superada em alguns países ricos, especialmente os nórdicos. A maior taxa está na Dinamarca, 81%, a menor em Sri Lanka, 4%. Na China, é de 23%, nos EUA, de 58%.

 No Chile, sempre lembrado como economia bem-sucedida, é de 48%, e na Venezuela, reverso da moeda, com a maior inflação do continente, onde faltam produtos essenciais, a impressão de prosperidade vai a 58%, talvez sugerindo mais a falta de opções políticas aos olhos do eleitor de menor renda que satisfação. Pode haver algo assim entre nós, com a popularidade do governante resultando do nível de bem-estar e da pouca convicção da média do eleitorado quanto às opções.

 Não por acaso, a aprovação de Dilma é maior no piso que no teto da pirâmide social. Guarda relação com a folga que havia nas contas públicas, resultado, em linhas gerais, da estabilidade da inflação, do ritmo do crescimento e da confiança empresarial para investir.

 Tais premissas hoje têm problemas: a inflação segue alta, razão de o Banco Central subir os juros, o crescimento econômico é lento, o investimento tem sido menor que o básico para fechar o círculo, não há folga fiscal para o governo manter avançando a politica social e o empresariado tem ido a Lula manifestar desagrado com o dirigismo de Dilma na economia e desconfiança com um segundo mandato.

Apoios dependem do cofre

 Não é que Lula abra a guarda ao ouvir reclamações contra o governo de sua afilhada. Ele faz o que sempre fez enquanto sindicalista, chefe de partido e presidente: escuta. As reclamações, e não só do empresariado, pois comuns entre líderes de partidos, sindicatos e grupos sociais, são de que a presidente recebe pouco. Quando o faz, fala mais que ouve ou não os deixa à vontade para abrir o coração.

 No início, elogiada por esse perfil, que a poupou do fisiologismo dos partidos aliados, hoje é criticada por decidir sem negociar com os interessados - e, na prática, pelo governo não dispor como antes de folga orçamentária para ampliar seu gasto e distribuir agrados.

Maquilagem perdeu efeito

 A relativa liberdade que Lula dispôs para gastar, parte devido ao ajuste fiscal na gestão anterior, parte pela emergência da China, maior comprador de nossas commodities de exportação, se foi em 2010 - e ficará mais apertado quando os EUA começarem a fechar o laxismo monetário, implicando aumento do dólar e dos juros no mundo.

 Os problemas fiscais se agravaram em 2012, mas o governo, em vez de enfrenta-los, apelou à maquilagem das contas públicas, promoveu medidas sem resultado pretendido, como o corte da tarifa de energia elétrica e a desoneração da folha de salários.

 A perda fiscal pelas desonerações e subsídios pode chegar a R$ 90 bilhões, em meio a um quadro em que o gasto público cresce no ano, abatido a inflação, à base de 6,7%, a receita, a 1,7%, e o superávit primário murchou em 12 meses até setembro a 1,32% do PIB. É ai que o governo está a pé.

Compromissos miram 2015

 Dilma perdeu a indulgência dos credores da dívida pública, do FMI, da OCDE, das agências de rating, incomodados com o endividamento do Tesouro em favor da banca estatal e com a volta dos dividendos das operações assim geradas para compor o superávit primário. Tal rolo ameaça a nota de crédito do país. É mais um pepino pela frente.

 A certeza entre empresários e políticos antenados é que 2015 será um ano de correção de rota. Há mais de um modo para isso. Com menos gasto ou mais imposto? Mais juro ou mais superávit? O mix depende do presidente eleito, da aliança que formar e das pressões.

 Dilma estará mais confortável com Lula a seu lado nessa construção ainda enigmática. Nesse campo, as incertezas ajudam seus adversários.

Indústria ainda sem viés

 A produção industrial cresceu 0,7% em setembro e 2% sobre o mesmo mês de 2012, mas recuou 1,4% intertrimestres, sem passar firmeza, portanto, sobre qual seu viés, num ano de sobe-desce do resultado.

 Se tal desempenho reforçou a expectativa de leve queda do PIB no terceiro trimestre, algo como 0,3%, vindo de crescimento de 1,5% no período anterior, os primeiros indicadores da indústria em outubro têm sido desanimadores. O consenso sobre um forte arrasto positivo para 2014, deixado pela retomada do PIB, começa a ser revisto.

 O destaque veio, outra vez, do setor de bens de capital, que dá a direção do investimento, com alta interanual de 24,1% (e de 4% no mês), seguido de bens duráveis (alta de 2,3% sobre 2012). O setor automotivo também foi bem, crescendo 6,2%.

 Isso é tudo: a indústria geral cresceu apenas 1,1% em 12 meses e seu nível de produção ainda está 4% abaixo do pico antes da crise de 2008. Nada que se fez até agora conseguiu reanimá-la.

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