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ANTONIO MACHADO

11/10/2013 01:50 por Redação

Juro para cima, inflação de lado e dólar para baixo retratam um cenário de transição e sem viés

Com a visão do horizonte embaçada pelo embate político nos EUA e pelo viés da liquidez global apertada, não há cenário confiável nem para a próxima semana

 A quinta alta da taxa de juro básica do Banco Central (trazendo-a de 7,25% o ano em abril para 9,50%), a primeira queda da inflação acumulada em 12 meses (para 5,86% até setembro) e dólar ao redor de R$ 2,18 (o que não se via desde junho) são movimentos que se chocam uns aos outros, atendendo a objetivos nem sempre em harmonia.

 A última vez em que foram embaralhados, do meio de 2011 em diante, o governo queria o câmbio depreciado, para encarecer a importação e dar um gás à exportação, com a inflação abaixo do teto do intervalo de variação (6,5%) e a taxa de juro real (sem inflação) em torno de 2% ao ano. De 12,50% em agosto de 2011, a taxa Selic recuou a 7,25% em outubro de 2012 e ficou assim até abril, quando o BC reabriu o ciclo de alta. A expectativa é que haja outro aumento, para 10%, em novembro, e o BC pare por ai. Ou não. Acabaram-se as ilusões.

 O governo pretendeu objetivos pretenciosos, apesar da liberdade do movimento de capitais e do comércio aberto. A rigor, inviáveis, com a ainda ampla vigência da indexação e a rigidez orçamentária. Mesmo que o governo fosse austero, só pode dispor de 10% de seu gasto. É a despesa não ordenada em lei. Mas ela inclui do Bolsa Família, que é uma despesa virtualmente fixa, ao investimento público, que acaba sendo a variável de ajuste do financiamento do orçamento fiscal.

 Então, vinha assim: o BC cortando juros para promover o consumo, o Tesouro liberando gasto e se endividando para prover fundos à banca federal - portanto, expandindo a demanda. E, na ponta do mercado, a inflação cada vez mais resistente à queda e o persistente aumento do déficit das contas externas. Era um quadro, ainda não desfeito, que contratava instabilidade mais à frente. Bastaria um evento não previsto para frustrar o que já era vendido como grande trunfo para a reeleição da presidente: os juros em níveis civilizados.

 O choque da inflação de alimentos, provocado pela quebra da safra de grãos nos EUA, em meados de 2012, inflou a inflação. O anúncio do Federal Reserve de que cogitava reduzir o laxismo monetário nos EUA levou o dólar para cima e, na mão inversa, as moedas de países exportadores de commodities e dependentes de ingressos de capitais para zerar o déficit cambial (duas características do Brasil). Foi o que trouxe o BC de volta à cena, autorizado a soltar a Selic.

Na expectativa dos EUA

 A subida dos juros pelo BC leva em conta o contexto da economia no presente e o enxugamento da liquidez do dólar no futuro próximo.

 Ou será em 2014, com o Federal Reserve no controle da situação (sob a direção da segunda em comando, Janet Yellen, que deve suceder a Ben Bernanke a partir de janeiro, se o Senado ratificar a escolha do presidente Barack Obama).

 Ou será logo, com os mercados em pânico no mundo, caso o Congresso não aprove o aumento do teto da dívida pública dos EUA, configurando um calote de proporções inéditas.

 Pela ótica brasileira, a política monetária apertada (e a fiscal em termos, se se confirmar diretriz do governo para que o Tesouro deixe de repassar fundos à banca federal) visa blindar a economia contra tumultos externos e moderar a inflação - responsável pela retração do consumo, portanto, do crescimento, assim como o alto comprometimento da renda do consumidor com o pagamento de dívidas.

Dólar elege ou subtrai

 Inflação subtrai poder de compra dos salários, algo que pode ser deliberado ou indesejável. Com moeda fraca, juros altos e contenção de gasto público, ela induz o ajuste de preços relativos em favor da indústria para elevar a sua competitividade.

 O dólar de R$ 2,25 a R$ 2,30 sugeria tal intenção, defendida por economistas de fora do governo e próximos a Dilma, como o ex-ministro Antonio Delfim Netto e o professor da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzzo.

 O câmbio sem viés de baixa leva à conclusão contrária: a volta de sua serventia como coadjuvante da Selic e da percepção de bem-estar da sociedade. Foi assim no governo Lula, com resultados políticos, apesar das sequelas sobre a indústria e o balanço de pagamentos.

Sem cenário confiável

 A diferença entre o tempo de Dilma e o de Lula é que o déficit externo aumentou, a liquidez do dólar está sujeita a rupturas e as agências de rating ameaçam rebaixar a nota do crédito nacional. Em tal cenário, o câmbio realmente depreciado é questão de tempo.

 O BC talvez tenha isso em conta. Com a visão do horizonte embaçada pelo embate entre políticos brigões dos EUA, e, não fosse por isso, pelo viés de liquidez global apertada, não há cenário confiável nem para a próxima semana. Os exercícios baseados na situação doméstica são insuficientes e valem até outubro. Depois, será outro governo, e outra economia, com Dilma ou não. Até lá, vai-se na flauta, se der. O governo realça o melhor, e a oposição, o pior.

Liderança clarividente

 A situação movediça da economia interna e no mundo deveria estar na agenda do governo e do Congresso. Decisões já problemáticas para o orçamento corrente serão insustentáveis no quadro complexo que se prenuncia, como o nível da demanda vis-à-vis o déficit externo.

 Estão nesse caso a autorização para o endividamento de municípios e estados, o aumento gradativo do gasto obrigatório com saúde a 10% da receita bruta da União, até 10% do PIB no caso da educação, além dos subsídios sociais, da moradia popular à agricultura. E tem mais a Previdência, cujo déficit cresce conforme a população envelhece.

 Tais questões são meritórias, mas não há base econômica tributável que dê conta de tudo isso. O investimento está solto nesta equação. No limite, a própria segurança social. Sem a liderança clarividente e firme do governo, o Congresso é que não terá coesão para agir com racionalidade, fragmentado entre 32 partidos e submetido a lobbies.

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