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26/06/2019 14:27 por Redação

Investimento no Brasil e seus componentes

Ociosidade na indústria, incertezas sobre reformas fiscais, queda dos investimentos públicos e lenta retomada dão forma ao cenário atual

Priscila Trigo*

O atual ciclo de retomada dos investimentos está aquém dos anteriores e pode ser explicado por fatores conjunturais e estruturais: (i) elevada ociosidade da capacidade instalada; (ii) incertezas em relação às reformas fiscais; (iii) queda dos investimentos públicos e (iii) lenta retomada da economia têm limitado os investimentos privados. Parte desses fatores continuarão presentes nos próximos anos, especialmente a baixa capacidade de aportes públicos, trazendo tanto desafios ao crescimento quanto oportunidades ao investimento privado.

O consumo aparente de bens de capital foi o primeiro componente a apresentar retomada e já subiu quase 20% em relação ao seu menor nível, no final de 2016. Desde meados de 2018, contudo, o consumo de bens de capital voltou a ceder, respondendo a diversos choques no ano passado. O segmento está sendo impactado negativamente pelo baixo crescimento da atividade e pela ociosidade, além das incertezas quanto à agenda econômica e de reformas. Para o setor de construção civil, ainda não houve retomada. A retração do PIB de construção chegou a 32% até o início deste ano, considerando-se o pico observado no primeiro trimestre de 2014. Na verdade, desde o início de 2018 o PIB de construção está praticamente de lado. Sendo intensivo em mão de obra, o segmento foi responsável pelo fechamento de 1,3 milhão de vagas com carteira assinada desde 2013.

Alguns dos desafios enfrentados nos últimos anos devem se manter no curto e médio prazos. Primeiro, a retomada gradual da economia implica em aumento também moderado do nível da utilização da capacidade instalada. Neste momento do ciclo, o foco dos investimentos, portanto, continuará sendo a modernização de processos e não em projetos greenfield. Nossas projeções apontam que o fechamento do hiato do produto deve ocorrer em 2022, ou seja, até lá essa ociosidade deve ser considerada nas projeções para a FBCF. As incertezas ainda remanescentes em relação às reformas estruturais devem continuar no radar por algum tempo. Além da reforma da previdência, outras medidas, especialmente aquelas voltadas aos ganhos de produtividade e à desburocratização, serão primordiais para a melhora do ambiente de negócios e, portanto, para a retomada dos investimentos privados, inclusive de capital estrangeiro.

Os investimentos públicos seguirão deprimidos no ciclo de ajuste fiscal. Assim, o espaço é crescente para que o setor privado ganhe protagonismo. As concessões de infraestrutura já realizadas nos últimos dois anos e meio e aquelas agendadas reforçam essa perspectiva. Os projetos já leiloados no âmbito federal somam R$ 219 bilhões e garantiram R$ 53,3 bilhões em bônus de assinatura ou outorga ao setor público, segundo o PPI – Programa de Parcerias de Investimento.

Com os desafios ainda presentes, a recuperação dos investimentos deverá ser gradual, especialmente no curto prazo, por conta de incertezas remanescentes. Mesmo assim, projetamos um cenário positivo para os próximos anos, à medida em que o crescimento gradual permita, por exemplo, flexibilizações adicionais da taxa básica da economia, o que aumenta o incentivo para investir. Dessa forma, a taxa de investimento deverá passar para 16,7% em 2020, o que significa um longo caminho para que esta volte ao patamar observado antes da recessão. Ao mesmo tempo, à medida que esses desafios forem sendo superados, o ritmo de expansão dos investimentos, e consequente o potencial de crescimento da economia, deverá se intensificar, trazendo oportunidades para o setor privado, especialmente em infraestrutura.

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Priscila Trigo é economista do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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