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ANTONIO MACHADO

13/03/2014 01:08 por Redação

Inflação volta a crescer em fevereiro, apesar da alta de juros e da atividade econômica chocha

Ainda que não esteja desembestada, não há como a inflação convergir para a meta. O IPCA teria de oscilar 0,37% ao mês. E foi de 0,62% na média do bimestre

 A economia não promete trégua este ano. A tênue impressão de que a inflação fosse arrefecer, em parte devido ao aumento de 7,25% para 10,75% dos juros pelo Banco Central desde abril do ano passado, vai sendo desfeita e não prenuncia bons augúrios. O índice de preços ao consumidor monitorado pelo IBGE, o IPCA, subiu de 0,55% em janeiro para 0,69% em fevereiro, elevando para 5,68% a alta em 12 meses.

 A resistência inflacionária é sintoma de patologias da economia já antigas e, aparentemente, cada vez menos influenciadas pela taxa de juros básica - o principal, se não único, instrumento usado pelo BC para controlá-las. É sabido que entre um ciclo de alta de juros e o seu efeito sobre a inflação há um espaçamento de seis a oito meses.

 Estranho é que depois de 3,5 pontos percentuais de alta da Selic e crescimento econômico modesto (2,3% em 2013, e com viés de baixa) a inflação continue viva, ora inflada pelos reajustes de transportes, ora pela recidiva da carestia de alimentos, mas sempre como eventos pontuais que refletem pressões de demanda e de custos, além de algo jamais extirpado: a cultura da indexação, que busca reaver a perda de poder de compra normalmente incorrida 12 meses antes - seja de alugueis, salários, tarifas, tributos ou contratos de dívidas.

 Na taxa de fevereiro, por exemplo, cinco dos nove grupos de preços que compõem o IPCA tiveram alta. Entre eles, destacou-se o grupo de educação (de matrícula e mensalidade a material escolar), com alta de injustificáveis 5,97% no mês (contra 0,05% em dezembro e 0,57% em janeiro). Aumentos assim indicam que a inflação, apesar de suas causas estruturais, também reflete oportunismo do momento (no caso, a volta às aulas) e concentração de poder para formação de preço.

 A segunda maior contribuição altista veio do grupo de alimentos e bebidas. A variação no mês foi menor que em janeiro (0,56% e 0,84%, respectivamente), mas, dada sua elevada participação no índice, foi um dos fatores a pressioná-lo. Também impactou a inflação do mês o grupo de habitação. Passou de 0,55% em janeiro para 0,77%, puxado pela alta do aluguel residencial e da eletricidade (ambas devidas à indexação, que reproduz custos não necessariamente justificáveis).

Inflação queima na mão

 Na mão contrária ao repique da inflação, uns poucos preços tiveram queda absoluta, como passagem aérea (-20,55% no mês) e leite longa vida. Os economistas também destacam a menor taxa de dispersão, que mede o total de preços em alta. Ela caiu para 64,45% em fevereiro, contra 71,58% em janeiro e 72,33% em igual mês de 2013.

 O grupo de preços de serviços, o mais resistente à terapia do BC, também seguiu com ligeira descompressão (influenciada, basicamente, pela redução das passagens aéreas), oscilando em 12 meses de 8,82% até dezembro para 8,20% até fevereiro. Mas devido à sazonalidade da educação teve alta no mês de 1,25%, acima da de janeiro (+0,47%). Enfim: não dá para segurar a panela da inflação sem queimar a mão.

Estiagem puxa os preços

 Para frente, o quadro dos preços é ainda mais apertado. A estiagem legou um efeito irrecuperável de alta de custos do setor elétrico, ao baixar o nível d’água das hidrelétricas e forçar o acionamento ininterrupto da rede de termelétricas, cuja energia é bem mais cara que a convencional. E começa a impactar as safras de grãos, insumo das cadeias de carnes branca e vermelha, além de outros alimentos.

 E já inflou os preços da produção in natura (no varejo, ela subiu de 0,87% em janeiro para 3,96% em fevereiro e projeta outro aumento de 11% em março, segundo estimativa da consultoria LCA). Na média, o grupo de alimentação do IPCA vem em marcha batida, devendo subir, no cenário da LCA, de +0,52% na medida do IPCA-15 de fevereiro para +1,13% em seu equivalente de março e +1,25% no mês fechado.

A anemia do crescimento

 A síntese é que, ainda que não se apresente descontrolada, não há chance de a inflação convergir para a meta anual, com alta de 4,5%. O índice teria, para tanto, de oscilar, em média, 0,37% ao mês. Foi de 0,62% na média do bimestre (o que significa que a inflação está rodando, em termos anualizados, a 7,7%) e de 0,49% ao mês em 2013.

 Para março, segundo estimativa da LCA, ela tende a 0,81%, e deve chegar ao segundo semestre roçando o teto da meta anual (6,5%). E isso com os preços administrados pelo governo represados (gasolina, diesel, eletricidade), algo como 1,3% de inflação reprimida; o PIB com evolução chocha (da ordem de 2% para menos) e, assim, segurando eventuais pressões de demanda; além da expectativa de que o câmbio, apesar de volátil, não acentue a depreciação já ocorrida.

 Em tal quadro, o BC talvez possa interromper o ciclo de alta da Selic. Se prosseguir, a economia vai chegar com anemia aguda em dezembro.

Discursos inconvincentes

 A economia transitando em meio a restrições, misturada à rebelião de boa parte da base de partidos aliados do governo na Câmara, com o PMDB à frente, gera um clima de insegurança que só piora os dados não tão bons da conjuntura, embora não desastrosos como querem os economistas de oposição. Só o governo pode reverter tal cenário, e sem dispor da condescendência que contava até um ano e meio atrás.

 O difícil é que a percepção das mãos atadas do governo se acumula com a da insuficiência ou obsolescência do discurso dos economistas próximos aos candidatos de oposição, tanto pela repetição da mesma fórmula que já não funcionou muito bem depois da reforma monetária de 1994, especialmente pelo desgrenhamento da área fiscal, como por sugerir um modelo de ajuste com superávit primário sacado de maior tributação, e não da reforma do gasto público.

 Isso terá aplauso do mercado financeiro. Mas é duvidoso que sensibilize o empresariado, para não falar dos eleitores que decidem a eleição.

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