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ANTONIO MACHADO

12/02/2014 03:10 por Redação

Governo minimiza crítica do Iedi ao modelo econômico divorciado dos avanços tecnológicos no mundo

Não é recomendável dar de ombros à discussão sobre o futuro da indústria, enquanto ela se acanha no Brasil, se renova nos EUA e se transforma na China

 O governo preferiu desconsiderar a longa entrevista do empresário Pedro Passos, sócio da Natura e presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a contestar ou debater as suas críticas, sintetizadas na opinião de que o modelo de incentivo ao consumo está esgotado, sem que haja clareza sobre a direção para onde a economia está indo. “A taxa de investimento é muito baixa, o clima de confiança não existe, acabou”, afirmou Passos.

 A análise ácida do presidente do Iedi, entidade criada para ser um centro de ideias do empresariado nacional, coincidiu com uma serie de entrevistas do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, marcando seu bota-fora de Brasília, já que vai concorrer ao governo de Minas Gerais pelo PT. Numa delas, a divergência de visões entre Passos, cuja crítica reflete a opinião de parte expressiva da indústria, e o governo ficou cristalina.

 Ao justificar a resistência da inflação, Pimentel afirmou, falando à Folha, que isso “tem a ver com a pressão de demanda forte, que é boa, porque tem sustentado o nível de emprego”. Seria, como disse, um “subproduto indesejado de um crescimento muito bom”. Pimentel se refere ao consumo e mercado interno, precisamente os fatores que o empresário Pedro Passos considera esgotados, ao dizer ao Estado que tais políticas de incentivos, além de “muito defensivas”, “não são mais suficientes para suportar a pressão dos produtos importados”.

 Passos propôs mais “competição” entre as empresas, o que, afirmou, implica ao país “ter mais compromissos em exportar e importar”. Ou, de outro modo, uma economia com maior inserção internacional. Só a exposição à concorrência induz os avanços tecnológicos e oxigena os negócios, capacitando a indústria a progredir. Como exemplo, citou a elevada proteção conferida ao setor automotivo e à linha branca, que visam sustentar o consumo, mas não a competência industrial.

 Há ai um manancial de teses atuais para discussão, que Pimentel se recusou a debater alegando que Passos é “militante de um projeto de oposição”. Um de seus sócios, Guilherme Leal, foi candidato a vice-presidente, em 2010, na chapa de Marina Silva, hoje no PSB e aliada do governador Eduardo Campos. A eleição mexe com as paixões. Mas o xis da questão não é esse, e, sim, entender o caminho da indústria.

Ruptura dos processos

 Não é recomendável dar de ombros a uma discussão sobre o futuro da indústria, enquanto ela se acanha no Brasil, se renova nos EUA e se transforma na China e em outras economias industriais. O mundo das bolhas de crédito, fornidas pela liquidez encharcada do dólar, vai ficando para trás. Não é a única transformação de ruptura à vista.

 O custo de produção está em queda nos EUA, na Alemanha, e sofre um movimento oposto na China, graças à pequena distensão dos salários. A nova competitividade não sai de oscilações cambiais, a válvula de escape tradicional para aumento de custos internos de produção, mas do uso intensivo de máquinas inteligentes, de softwares no comando das cadeias produtivas e de equipamentos mais eficientes.

 As novas linhas de montagem de carros nos EUA consomem 70% menos energia que as antigas, cujo consumo equivale a uma cidade de porte médio.

Manufatura customizada

 O senso das transformações industriais permite tanto customizar a produção em massa como controlar a operação de fábricas espalhadas pelo mundo, minando o conceito do conteúdo nacional. Tais avanços despontam simultaneamente ao extremo barateamento da energia nos EUA devido ao boom de gás e óleo de fontes não convencionais.

 O gás é vendido por US$ 4 o BTU (unidade térmica) nos EUA, contra o triplo aqui, e também na China e Europa. A combinação de máquinas mais eficientes e economia de energia cria outro perfil industrial. Mas a ruptura está nos processos que permitem satisfazer a demanda individual do consumidor em meio à produção em massa. Uma onda com tais características neutraliza fatores de competitividade comuns a economias sem base tecnológica, como moeda fraca e salário baixo.

Com status de filial

 Estudo da consultoria AlixPartners, de Boston, estimou em 2013 que o custo da indústria manufatureira na China estará equalizado até 2015 ao dos EUA. Não por menos há uma corrida tecnológica entre as duas potências, também empenhadas em firmar tratados de comércio e de proteção intelectual com o maior número de regiões e países, que é o jeito de acomodar a produção globalizada com controle de ganhos de “inteligência”. Visto do Brasil, tal cenário parece de ficção.

 Sua implicação não deve ser a desindustrialização. Mas há risco de o status do mercado brasileiro ser rebaixado ao nível de filial das economias inovadoras, dependente da renda extrativista (alimentos, petróleo) para pagar royalties devidos à “inteligência” importada.

Concorrência como meta

 A verdade é que há muita incompreensão sobre o status da indústria no Brasil. É consensual a análise de que ela tem problemas, ou não estaria com nível de produção elevado, mas abaixo do pico pré-crise global e alternando momentos de crescimento com retração. A solução envolve maior produtividade, função de custos, e competitividade, dependente de câmbio depreciado caso se procure resposta pontual.

 Tal tratamento, porém, foca a situação atual. O papel da produção num contexto de fortes mudanças tecnológicas, de competição global acirrada entre China e EUA e de novos padrões de crédito e de custo de energia vindos como tendência depende de abordagens mais amplas.

 O presidente do Iedi falou de mais acordos comerciais, e esse é só um dos muitos tópicos da questão, tal como o apoio à inovação, que o governo já fornece, mas sem induzir a concorrência que resulte em produtos melhores e mais baratos. Não há como fugir desse debate.

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