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24/05/2015 00:23 por Redação

Fora Levy: Brincando com Fogo

Há um imenso equívoco quando se pede a cabeça do ministro Joaquim Levy. Ele não precisa do governo. O PT é que precisa desesperadamente dele

Por Mansueto Almeida*

 O PT começou a brincar com fogo muito cedo e não tem ideia do tamanho do problema que poderá ocasionar para o governo e para o próprio partido. Os senadores do PT têm todo o direito de criticar propostas que contrariam as bases históricas do partido.

 Mas alguns desses mesmos senadores ficaram calados quando o governo do PT com a equipe econômica coordenada pelo ministro Guido Mantega, Arno Augustin e com a supervisão do ex-presidente Lula e da presidente Dilma defenderam falsas soluções para os problemas do Brasil, com destaque para forte expansão da dívida pública para emprestar para bancos públicos, congelamento de tarifas, plano de concessão com controle da taxa interna de retorno etc.

 Há alguns anos, um amigo professor do Departamento de Economia da PUC-RJ me enviou um texto do Senador Lindbergh Farias (PT-RJ) de 2011 (clique aqui) que é uma verdadeira apologia ao aumento da divida publica para conceder crédito subsidiado. Diz o texto que:

 “A visão crítica aos aportes Tesouro-BNDES desconsidera o estímulo ao micro, pequeno e médio negócio, a redução de desigualdades regionais, a geração/manutenção de empregos e renda, a melhoria da qualidade de vida da população e, sobretudo, a arrecadação gerada, que mais que compensa hipotéticos prejuízos à União.

 ….de acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego (PME/IBGE) divulgada em junho (de 2011), o ganho real médio do trabalhador por mês de janeiro a maio foi de R$ 1.567,65. Logo, se aceito esse valor como base, somente em termos de renda do trabalho, o empréstimo da União ao BNDES, poderá gerar/manter mais que R$ 2,7 bilhões por mês (aceitando-se que mais que 1,7 milhão de empregos foram gerados ou mantidos).

 Se considerarmos um carga tributária sobre os ganhos do trabalho da ordem 34%; em um ano, unicamente a atividade do trabalho, estimulada por esta operação de empréstimo Tesouro-BNDES, geraria uma arrecadação de mais de R$ 11 bilhões. Cabe lembrar, que empresas e bancos também geram arrecadação quando a economia é estimulada – a arrecadação gerada por estes segmentos aumentará o valor mencionado de R$ 11 bilhões.”

 Há tantos erros nos parágrafos acima que é difícil até decidir por onde começar. Quem explicou isso ao senador esqueceu-se de falar que o aumento da dívida bruta de forma contínua afeta o custo do financiamento do governo. De 2007 a 2014, o governo aumentou os empréstimos dos bancos públicos de 0,4% do PIB para 10% do PIB, um crescimento absurdo que nos deixou como herança uma dívida bruta alta e cara que afetará a economia brasileira não por anos, mas por décadas e que compromete hoje até mesmo os programas sociais.

 Segundo, quem assessorou o senador acha que o aumento do crédito subsidiado leva, necessariamente, a mais investimento, a mais empregos e, logo, a um crescimento maior que gera a receita para pagar o aumento da dívida. Há um pequeno problema. Isso simplesmente não aconteceu e, com um agravante, os subsídios do PSI não foram pagos e essa dívida hoje é de R$ 26 bilhões.

 Apenas de subsídios concedidos nos últimos anos e não pagos, essa dívida hoje é de mais de R$ 50 bilhões. Quando o governo for pagar essa dívida, terá que sacrificar outras despesas e/ou aumentar a carga tributária.

 Terceiro, pelos indicadores que temos hoje da economia brasileira, confesso que é difícil entender porque o Brasil não perdeu ainda o grau de investimento.

 O país precisa fazer um ajuste fiscal que, em quatro anos, poderá alcançar 3,5 pontos do PIB; um ajuste que poderá vir, mais uma vez, de aumento de carga tributária; a perspectiva de crescimento médio do PIB de 2015 a 2018 é hoje de 1% ao ano; e os juros deverão permanecer acima de 10% ao ano. Isso não é compatível com a estabilização da divida (% do PIB) mesmo com superávit primário de 2% do PIB.

 Então, por que o Brasil não perdeu o grau de investimento? Não perdeu pela imensa confiança que todos têm que, mesmo fracassando, Joaquim Levy fará muita coisa positiva e corrigirá alguns dos erros da equipe econômica anterior. Assim, há um imenso equívoco quando se pede a cabeça do ministro Joaquim Levy. Ele não precisa do PT e/ou do governo. O PT é que precisa desesperadamente dele.

 Sugiro a leitura de duas boas colunas sobre esse tema. A coluna de hoje do Demétrio Magnoli na Folha – o governo da mentira (clique aqui)– e a coluna do jornalista Reinaldo Azevedo (clique aqui), da Veja, sobre a ausência do ministro Levy na entrevista sobre os cortes do orçamento.

*Mansueto Almeida (mansueto_almeida@uol.com.br) é economista e consultor.

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