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ANTONIO MACHADO

14/02/2014 02:48 por Redação

Foi temerário o governo receber líderes do MST depois de militantes ameaçarem invadir o palácio

Não é bom para as expectativas econômicas e sociais, ainda mais num ano de eleições e com a economia enfraquecida, um clima de confronto e insegurança

 Com o governo observado com desconfiança pelos investidores e pelo empresariado nacional, a economia emitindo sinais de fragilidade e amplas parcelas da sociedade inquietas com a insegurança urbana e as marchas de protestos acompanhadas de violência meio consentida, pode ter sido temerário à presidente Dilma Rousseff confraternizar-se com a direção do MST um dia depois de militantes do movimento ameaçar invadir o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto.

 O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra trouxe a Brasília uns 15 mil militantes para cumprir uma agenda conhecida há tempos, do congresso anual do grupo à marcha na Esplanada dos Ministérios, normalmente pacífica. O governo já conhecia, portanto, o que estava programado. Teria feito melhor se agendasse uma audiência antes da marcha com os líderes do MST - grupo com laços fortes com o PT.

 Foi improviso, nestes termos, o ministro Gilberto Carvalho sair do Palácio no meio da tarde, auge da confusão, para convidar a direção dos sem-terra a se reunir com a presidente no dia seguinte. Pouco depois um grupo deles derrubou as grades de contenção em frente ao Palácio, sendo barrados pela Polícia Militar. O conflito deixou 30 policiais feridos e uma dezena de manifestantes. Ficou a impressão de um governo desempenhando uma mise-en-scène de pastelão.

 Nada disso é bom para as expectativas econômicas e sociais, ainda mais num ano de eleição presidencial e com a economia enfraquecida frente às transformações em curso nos EUA e na China e à espera de ajustes tanto mais difíceis quanto menor a confiança nas mãos que devem pilotá-los e maior o sentimento de apreensão.

 Os conflitos têm se agravado, assim como se esgarçou o sentido do que é licito e o que não é, desde que o ministro da Fazenda teve a má ideia de pedir aos governos municipal e estadual de São Paulo e do Rio que adiassem o aumento dos transportes, em janeiro de 2013, para ajudar a segurar a inflação, e repetisse o mau conselho em junho, para esvaziar os gigantescos protestos de jovens. Contra os aumentos das passagens. E contra a corrupção e a inépcia pública.

 Nada mudou. Os políticos continuam perplexos. Mal preparada, a PM alterna repressão despropositada com omissão frente ao vandalismo. A própria imprensa tem vacilado. E assim se chegou ao assassinato, num protesto no Rio, do cinegrafista Santiago Andrade, da Band.

Forças sinistras na rua

 Alguns viram nesses movimentos um golpe nos políticos, no governo Dilma, permitindo-se até glamourizar os tais black blocs antes que se dessem conta da infiltração desses grupelhos no Rio de Janeiro.

 Há de tudo: de partidos de extrema-esquerda tão barulhentos quanto sem votos a forças sinistras da política local, mobilizadas contra um governador que faz um governo nem pior nem melhor que outros que o Rio elegeu, mas dado a parvoíces, visando as eleições em outubro.

 Alguma novidade? Nenhuma. Já na virada do semestre passado falamos disso. Mas com governos estaduais limitados e o governo federal e o PT - e essa é sua cota de responsabilidade - travados pela noção de que os movimentos sociais não podem ser “criminalizados”, como se a “rua” não tivesse de tudo, de protesto legítimo ao industrializado, de lideranças populares a prepostos a soldo de entidades ocultas, a ordem pública tem sido rifada e tratada como anátema da democracia.

No limite de tolerância

 Um movimento de protesto que desbanca para o crime, e é disso que se trata quando a pancadaria e a depredação tomam conta das ruas, não é mais legítimo nem necessário se dirigido contra o governador Geraldo Alckmin, ou Sérgio Cabral, ou contra Dilma e o PT. Não são torcidas organizadas que se enfrentam, mas ideias que se expressam.

 Com agenda sobre por onde vão passar previamente negociada com a polícia, de modo a diminuir o contratempo às pessoas em geral, e, sobretudo, sem vandalização, manifestações oxigenam a democracia. E a ameaçam, se franqueadas a quem grita mais e a rufiões. Essa linha é tênue. E parece que está passando do limite de tolerância.

Varejo cede em dezembro

 O resultado do comércio em dezembro foi mais fraco que o previsto, com retração de 0,2% no mês, no conceito do varejo restrito, e de -1,5% na medida ampliada (que inclui materiais de construção, motos e carros), indicando perda de força do PIB no quarto trimestre.

 Tal desempenho está em linha com o objetivo do BC, que vem subindo a Selic de olho na inflação e no déficit em conta corrente. Crédito mais caro e endividamento alto reduziram o crescimento do volume de vendas do varejo restrito em 12 meses de 8,4% em 2012 para 4,3% ano passado (e 3,6% na métrica ampliada).

 Isso não indica ainda consumo em crise, pois, sem tirar a inflação, o avanço interanual do varejo restrito em dezembro foi de +10,7%, resultado que não deve repetir-se este ano.

Tratamento com purgante

 A adequação do ritmo da atividade econômica à possibilidade de seu financiamento tanto em termos do déficit orçamentário como do saldo negativo das contas correntes com o exterior será o dado recorrente da política econômica este ano, apesar de certamente recebidas com juízos de “frustração” de resultados e coisas assemelhadas.

 Tais críticas são parte do embate político em ano eleitoral. Mas, consideradas as limitações fiscais e cambiais legadas pela política econômica, tais desdobramentos operados pelo BC (e há expectativa de que a Fazenda se apresente com um corte de gasto fiscal crível) são a consequência benigna para a economia escapar do rebaixamento da nota de crédito do país e recuperar o crescimento sustentado.

 O custo social dependerá de quanto o governo entrega de economia orçamentária e da confiança que conseguir inspirar. Certo é que, se ficar para 2015, o ônus do ajuste será maior do que feito desde já, aos poucos, sem a pressão normalmente histérica do mercado.

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