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ANTONIO MACHADO

15/09/2018 22:29 por Antonio Machado

Estagnação da economia e obsolescência do governo são, a um só tempo, problemas e oportunidades

Desafio é comunicar de modo simples o que há por fazer. Tome-se a previdência. Não há quem não desconfie de que a intenção é tungar quem tem pouco e proteger nababos

Pronto para crescer

A grande crise global completou dez anos esta semana e seu rugido ainda ecoa entre nós, desdizendo o então presidente Lula, que foi à TV ao fim de 2008 afiançar que chegaria ao Brasil como “marolinha”.

Foi seu modo de pedir aos brasileiros que não parassem de consumir com medo do que estava por vir. Funcionou bem até que a ungida para guardar os palácios de Brasília até sua provável volta na eleição de 2014 se achou iluminada e se pôs a fazer lambanças na economia.

Este curto interregno de oito anos a se completar em dezembro não são águas passadas, já que o mesmo voluntarismo que fez descarrilar o trem da economia entre 2009 e o início do segundo mandato de Dilma se manifesta nas falas de vários dos aspirantes à cadeira presidencial, convencidos de que ela e Michel Temer fracassaram devido à inépcia de ambos, afora “otras cositas”, não pelos equívocos de suas políticas.

Temer naufragou menos pelas políticas que implantou que pela ordem das reformas que cogitava. Em vez da previdência, começou pelo teto dos gastos federais, cuja viabilidade depende da mudança das regras tanto das aposentadorias como do regime salarial do funcionalismo.

As duas rubricas explicam mais de 80% do gasto da União e crescem 6% acima da inflação todos os anos desde 1991. Ficou impossível ao país arcar com esses ônus, dado o tamanho do déficit fiscal (que vai para o sexto ano em 2019 no vermelho, R$ 139 bilhões) e da dívida pública - perto de 90% do PIB na conta do FMI, já absorvendo mais de 70% do total das captações dos bancos.

Sobra uma nesga para tudo mais.

Mas Temer tentou, enquanto Dilma errou. A crise quebrou a demanda no mundo. No Brasil, em contraste, ela a tomou como remédio. “O que era para ser uma saída emergencial virou a Nova Matriz Econômica”, diz o economista Fernando Montero, ao analisar os impactos da grande crise.

Perderam-se receitas tributárias, aumentou-se o gasto com a elite do funcionalismo e com obras mal concebidas e sem controle. Deu na Lava Jato, na criminalização da política, na prisão de Lula, nos déficits, na recessão recorde, nos 13 milhões de desempregados etc.

A ruína foi completa, mas está feita. “Os últimos anos devolveram a racionalidade, tanto que inflação e juros despencaram”, diz Montero.

Aproveitando a recessão

A confiar no boletim Focus, do Banco Central, que compila o cenário vislumbrado por uma centena de bancos e consultorias, os 31 meses de governo Temer terminarão com inflação acumulada de 9,6%.

“Criado em 1980, o IPCA nunca teve inflação tão baixa por tanto tempo - e isso sem preços atrasados nem déficit externo enorme”, diz Montero.

Dilma corrigiu os preços relativos no segundo mandato, que ela mesma mandara represar no primeiro governo, gerando uma recessão descomunal que absorveu tais reajustes. Mas, segundo Montero, foram a ancoragem monetária e o teto de gastos que criaram o cenário de retomada mais à frente.

O Focus, diz, projeta inflação média de 3,8% anuais até 2022.

“É fácil desperdiçar uma recessão”, alerta. Ninguém a quer, mas ela aconteceu. “Há um evidente caudal de menos juros e mais crescimento à espera do óbvio”, argumenta. O quê? Avançar as reformas no Congresso, aproveitando o capital político do governo estreante, diz, mas “sem querer reinventar a roda, resgatar novas (velhas) matrizes etc.”.

Bolas quicando na área

Exemplos de bolas quicando à espera de quem as chute a gol são mais que abundantes, são oportunidade, caso dos juros recordes no mundo. É função tanto do sugadouro de recursos da sociedade pelo Tesouro, para girar o papelório da dívida pública, como da acomodação dos bancos.

Os candidatos a presidente cospem fogo contra os juros escorchantes, mas omitem a causa primária da distorção - o vulto da dívida pública (a maior entre as economias emergentes, e que engorda com os déficits fiscais recorrentes) e a concentração do setor.

Dois bancos estatais e três privados detêm 82% do crédito. Não há competição assim, como constata estudo recente do FMI. É a oportunidade para o BC promover a alforria das fintechs e romper o monopólio dos meios de pagamento.

Escapa aos analistas que a estagnação da economia e a obsolescência da governança do setor público são problemas e oportunidades ao mesmo tempo para fomentar os dois únicos eixos que vão nos tirar da pobreza – a educação a partir da base e tecnologia da informação para todos.

Risco do voto ressentido

O calor do debate eleitoral turva a visão sobre o futuro imediato da economia. As manchetes da imprensa falam da cotação recorde do dólar.

Ignoram, ou tratam como somenos, o fato de que o país tem “situação bastante confortável na parte cambial, nenhum risco de crise, nenhum movimento de fuga de capitais, visto que os detentores de recursos estrangeiros estão protegidos por hedge”, segundo Sidnei Nehme, um dos maiores estudiosos da questão cambial no Brasil.

O problema fiscal também suscita conclusões nervosas, embora a base menor de gastos realizados este ano em relação à meta vai acomodar um aumento maior que os 3,9% nominais orçados para 2019, diz Montero.

A situação geral, enfim, não é boa, mas não é terminal. Será se vingar nas urnas o voto ressentido. Como sempre, o que será depende de nós.

Desafio da boa comunicação

O desafio é comunicar de modo simples o que há por fazer. Tome-se a reforma da previdência. Não há quem não desconfie, com razão, de que a intenção é tungar quem tem pouco e proteger nababos.

Quem são eles? No senso comum, os ricos. Que rico? Quem dispensa a aposentadoria ou os beneficiados pela Constituição de 1988?

Consultor do Senado, Pedro Fernando Nery empreende uma cruzada solitária, sendo ele um membro da elite da burocracia, para repor os fatos. Dias atrás, ele revelou com dados que “os cidadãos pagam mais de 80% das aposentadorias e pensões dos funcionários públicos”. Cidadãos cujo benefício tem limites e não usufruem aumentos aplicados ao pessoal da ativa. Beleza, né?

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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