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ANTONIO MACHADO

24/01/2015 23:26 por Redação

Estagnação não é destino, se o setor privado puder intuir o sabor dos resultados na economia

Difícil é a transição até que surja o cenário esperado. O país precisa de ações que ponham o crescimento não só como resultado potencial do ajuste fiscal

 Entre o chutômetro do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega sobre o crescimento econômico e o sincericídio do atual, Joaquim Levy, deve haver um meio termo. Mantega via crescimento quando a economia já roçava a trave da recessão. Levy falou aos investidores no fórum de Davos, Suíça, que o melhor a esperar para este ano é um crescimento “flat” – a sua maneira de evitar os termos estagnação e recessão.

 Dois anos de economia estagnada, dando-se de barato que o Produto Interno Bruto (PIB) de 2014 ficou em terreno positivo, é muito mal, e será pior se faltar à nova política econômica a visão da retomada econômica. A economia tem várias faces, mas de um modo simplificado há só duas em causa: o setor privado e o público, este sim bichado e submetido a uma quarentena para não infectar o seu lado saudável.

 A estagnação, nesta ótica, não é destino, se o setor privado puder intuir que não lhe faltará retorno caso ponha ficha no que faz. Mas num país em que o setor público influencia 40% do PIB é arriscado esperar que os outros 60% da economia se aprumem por si, sem alguma coordenação, o que não significa nem dirigismo nem estatização.

 Esse é o papel da política econômica. E também de contatos olho a olho entre porta-vozes críveis do governo e empresários, o que não houve, pelo menos ainda, e foi raro entre 2011 e 2014.

 O capitão da nova equipe econômica escolhida pela presidente Dilma Rousseff para consertar as confusões de Mantega & Cia. nas contas públicas elegeu como missão o resgate da confiança dos investidores em papéis do Tesouro e das agências que avaliam o risco de crédito. Dilma deu ok, mas não aparece em público para ratificar tais ações.

 Ela parece perplexa com as sequelas de seu primeiro governo e sem graça por avalizar medidas duras, que devem cortar o déficit fiscal à custa da redução da renda disponível, algo que jurara não fazer – “nem que a vaca tussa”, disse a Aécio Neves ao buscar a reeleição.

 Só que Levy não é vilão como vociferam militantes do PT, chocados com as novas orientações. Levy é apenas o tesoureiro chamado a por ordem no caos das contas fiscais. É a preliminar para retomada do crescimento e do investimento, e única forma de proteger o social.

Tirando a vaca do brejo

 Como e de que modo a economia voltará a embalar ainda não se sabe. Só Dilma pode esclarecer. Se não o fez, é porque não está à vontade para defender a atual política sem se desculpar pela antiga. Entre os resultados ruins da economia até 2014 e os bons previstos para despontarem a partir de 2016, há a transição do ajuste fiscal.

 Essa conceituação precisa também ser aclarada. Ajuste é adequação do que não funciona. Não é política econômica, como às vezes Levy sugere. Mas poderá ser seu arcabouço, caso se configure como regra a revisão de politicas que sugam o Tesouro com baixa justificativa social, como o pacote de reformas do seguro desemprego, do abono salarial e das pensões por morte, anunciado no fim de dezembro.

 A vaca não tosse com esse pacote, só a faz não ir para o brejo.

Um prende, outro solta

 Se o ministro Levy está com carta branca para impor um ordenamento fiscal que leve a dívida pública bruta a recuar em relação ao PIB a partir de 2016, ficando entendido que seu nível atual ou pouco mais (adicionando a ela o gasto empenhado e não pago pelo time econômico anterior) é teto, o Banco Central poderá respirar mais aliviado.

 O presidente do BC, Alexandre Tombini, se desinibiu com Levy para falar de convergência da inflação à meta de 4,5% ao longo de 2016, razão pela qual a taxa de juro básica, vulgo Selic, já se encontra em 12,25% ao ano, representando um juro real de 5% (caso a inflação acumulada em 12 meses passe o ano todo ao redor de 7%).

 Com aperto fiscal e a economia parada, o BC não precisa esgarçar a Selic.

Espinhosa é a transição

 Com o gasto público não pressionando a demanda (que hoje vaza para importações), a Selic ficará acima do necessário para cumprir a sua dupla missão: desinchar a inflação e seduzir o capital financeiro a bancar o déficit em conta corrente (que fechou 2014 com um negativo de US$ 90,9 bilhões, 4,17% do PIB, o pior resultado desde 1974).

 Déficit externo em queda reduz a entrada de dólares que apreciam o câmbio, causa da anemia da indústria e, indiretamente (associado ao sugadouro do Tesouro), da perversão dos juros inchados. São elos da mesma corrente.

 Para técnicos com a formação de Levy, a percepção de que os desarranjos não vão repetir-se induz a queda dos juros, acomoda a taxa cambial, segura a inflação e faz o empresariado ver o resultado de seu negócio anos à frente, animando-se a investir.

 Assim costuma ser na teoria. O duro é a transição até que surja o esperado. O governo precisa de ações que ponham o crescimento não só como resultado potencial do ajuste fiscal, mas como parte ativa da nova economia. Isso exige mais do que a tesouraria pode fazer.

Grilos, enigmas e nudez

 Dilma aspira chegar bem avaliada a 2018, mas há outros grilos até lá, do inferno da Petrobras à ameaça de racionamento de água e luz. E sem o boom das commodities para ajudar, razão de Lula e ela terem subestimado a agenda de reformas para energizar a economia.

 O país só voltará a ter crescimento econômico a gosto se decifrar os enigmas dos juros extorsivos, da inflação resistente, do viés de estagnação, da indústria definhando.

 Sem abrir um debate sobre a indexação, desatando, por exemplo, os velhos nós da inflação e dos juros, não haverá ajuste fiscal que pare de pé.

 Sem dar condição de autonomia aos assistidos por políticas de renda e ensino adequado no primeiro grau para cessar o ciclo da pobreza, também será muito mais difícil cuidar decentemente do básico, tipo saúde e educação.

 Tais demandas vão crescer com o maior acesso da sociedade às redes sociais, sem que as instituições estejam preparadas para provê-las. E com economia minguante a nudez do poder será ainda mais visível.

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