Home > ANTONIO MACHADO > Eleitor quer mudanças mais do que nomes novos. Propostas que mexam com a “alma e o coração”

ANTONIO MACHADO

08/05/2017 12:11 por Antonio Machado

Eleitor quer mudanças mais do que nomes novos. Propostas que mexam com a “alma e o coração”

Um plano que supere a estagnação, eleve a gestão pública e as políticas sociais e libere o setor privado a ser competitivo e inovador é o que está em pauta. O resto é com a política

Xô mesmices!

Com o cenário político com visibilidade tão baixa quanto nevoeiro em trecho de estrada na serra, está difícil a muita gente prever o que virá amanhã, quanto mais em 2019, passadas as eleições. O que se enxerga a olho nu é a política aprisionada aos minuetos da Lava Jato, além da dificuldade para se aprovar as reformas no Congresso.

Não é bem assim. Em tempos de verdade alternativa, enfatizou-se na última pesquisa do Datafolha a informação de que Lula teria 30% das intenções de voto, se puder candidatar-se a presidente em 2018, com o deputado Jair Bolsonaro em seguida com 15%. A manchete era outra.

Passou batido que na pesquisa espontânea, em que não há o estímulo de uma lista de nomes, o destaque não foi Lula, nem ninguém, mas a alta percentagem dos que disseram não saber (52%) ou que votariam em branco ou anulariam o voto (16%). Isso dá 68% de insatisfeitos.

Esse é o dado relevante: a sociedade quer mudanças e, mais do que outros nomes que não os mesmos de sempre, quer propostas que mexam com a “alma e o coração”, conforme juízo comum depois das surpresas de Donald Trump e do voto pela saída do Reino Unido da Europa. Quem se fiou em pesquisas, como a imprensa, ficou com cara de tacho.

Há um fio condutor entre os debates derivados da Lava Jato e das reformas previdenciária (que está pronta para ir a voto na Câmara) e a trabalhista (agora no Senado) e os cenários eleitorais de 2018. O elemento comum envolve a depuração dos candidatos e o saneamento relativo (pois incompleto e gradual) das contas públicas.

Essas são as prévias para se devolver normalidade (alguns talvez prefiram dizer racionalidade) à política legislativa e à economia.

No caso da economia, aguarda-se do Congresso responsabilidade para com a solvência do Tesouro Nacional - além dos entes regionais no que lhe faculta a Constituição (revisão de dívidas dos estados, por exemplo). Isso transcende os interesses de reeleição da maioria.

Quanto à política, o que tiver de ser, será, conforme o que apurar a Lava Jato e a despeito dos “garantistas” do STF - preocupados uns e outros com os estragos ainda desconhecidos de novas delações.

Protesto é das elites

Os cenários em construção para o ciclo eleitoral de 2018 já levam os imponderáveis da política ditados pelo consórcio da Justiça com a polícia em consideração e se debruçam sobre o que interessa para a sociedade – uma política econômica a pautar o desenvolvimento.

Isso está em processo, com as reformas de Temer como os capítulos iniciais. Embora manifestem contrariedade com a mudança do estatuto previdenciário – a sétima desde 1988 -, e haverá outras mais já que a atual não resolve o problema da iniquidade do regime de certas categorias de servidores nem o viés do envelhecimento demográfico, fato é que os protestos partem das elites das corporações mais bem pagas do setor público e de partidos, não da sociedade em geral.

Premissa sine qua non

Não passa despercebido que a oposição de hoje, puxada pelo PT, é a mesma que, quando governo, expulsou parlamentares que se opuseram, em 2003, à reforma então defendida por Lula. Como diz o empresário Pedro Passos em artigo na Folha, “a ideologia não vai à mesa” ao se ter como perspectiva a aritmética. Mas está certo quem reclama.

A equalização dos regimes previdenciários é premissa sine qua non quando há dinheiro público envolvido. Ninguém tem direito superior ao de outros como pressupõe a pressão de sindicatos de servidores, em especial do Judiciário. Se não agora, mas adiante, se terá de subir a contribuição do funcionalismo, hoje de 11% (a Fazenda, nos acordos de ajuda aos estados, pede uma alíquota uniforme de 14%).

O saneamento do setor público consolidado, contudo, é só parte do processo de retomada do crescimento econômico com promoção social. A outra parte, menos controversa, ficará para 2019, mas o sucesso será função do novo governo e da qualidade da nova legislatura.

Da sociedade à política

Já há intensa discussão à margem dos partidos quanto ao programa a se apresentar ao país antes de nomes. Sabe-se que a saúde já dispõe de um check-up completo e de um plano de ação, com foco no aumento do número de idosos e nas dez principais causas de morte no Brasil (entre doenças crônicas, infecciosas e as devidas a acidentes).

A política econômica deve contemplar o estado da arte em termos de inovação e tecnologia na China, EUA e na Europa, indo de um regime tributário baseado em débito/crédito operado em tempo real a outro arranjo com as multinacionais (dominantes em todos os setores mais dinâmicos da indústria de transformação).

A assistência social tem atenção especial nestes estudos, visando evoluir do distributivismo tipo Bolsa Família à inserção produtiva dos assistidos onde couber.

Um plano que supere a estagnação econômica, eleve a gestão pública e as políticas sociais e libere o setor privado a ser competitivo e inovador é o que está em pauta. O resto é com a política.

Opções à mediocridade

Nas próximas semanas, tais movimentos, que tomam o caminho oposto ao convencional, ditado por partidos tradicionais, já deverão ser mais percebidos. Neles, o marketing como força tática é acessório, mal visto até.

A ideia é ter candidatos competitivos nos principais estados, eleger cerca de uma centena de deputados federais e um dos dois cargos de senadores em disputa, formando uma frente reformista não fisiológica e multipartidária como base ao futuro presidente.

A visão programática é típica de centro-esquerda, ao reconhecer as desigualdades sociais e não dispensar a regulação econômica, embora com acentos liberais na economia e progressistas no comportamento.

Tais diretrizes dialogam com os movimentos no mundo e já estão no radar da direção de ao menos um grande partido para depois da linha de corte da Lava Jato. Já dissemos: só a verdade salva. Mas precisa do voto consciente e de programa convincente em que votar.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

'
Enviando