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ANTONIO MACHADO

25/10/2013 01:42 por Redação

Economia cresce pouco e também não desemprega. “Enigma”, diz o FMI, mas com riscos muito remotos

Desemprego oscila de 5,3% em agosto para 5,4% em setembro, e isso depois de a Selic subir desde abril a 9,5% e o real perder 8% para o dólar no período

 Outro mês de mercado de trabalho estável, com a taxa de desemprego oscilando de 5,3% em agosto para 5,4% em setembro, e isso depois de a Selic ter saltado de 7,25% em abril para 9,5% e o real ser batido pela valorização de 8% do dólar no período, indica ser muito remoto o risco de demissões, exceto por conta de um também pouco provável evento externo. A economia cresce pouco, mas também não desemprega.

 Esse desempenho surpreendente à luz da teoria econômica, segundo a qual o crescimento econômico fraco se faz acompanhar de aumento do desemprego, está em cartaz nos últimos dois anos, especialmente em 2012, conforme análise inserida no relatório anual e regular sobre o Brasil do Fundo Monetário Internacional (FMI), conforme os termos do chamado Anexo IV – dispositivo que regula tais avaliações entre os 188 países membros da entidade. O mercado de trabalho apertado, segundo nota do relatório do FMI dedicada ao tema, é “um enigma”.

 Não chega a tanto, como os próprios autores da nota explicam, não obstante se digam intrigados com o “contínuo declínio” da taxa de desemprego a partir de 2011, enquanto a economia perdia força. Dos fatores mencionados como explicação, o FMI lista a escassez de mão-de-obra preparada, sobretudo na indústria – cuja produção caiu 2% entre 2011-12 e o quadro de pessoal permaneceu praticamente o mesmo -, e, a partir de 2007, o “substancial declínio”, como qualifica, da população em idade de trabalhar. Tais fatores são estruturais.

 Menos perceptíveis são os desdobramentos do outro fator da redução do desemprego: a expansão do emprego em atividades de serviços, em resposta aos aumentos reais de salários e transferências de renda (inclusive pela política de valorização do salário mínimo), além do maior acesso ao crédito. O valor adicionado do setor de serviços, segundo o FMI, avançou 4% no biênio 2011-12, comparado à retração da manufatura e à quase estagnação da indústria em geral.

 O florescimento dos serviços é a vitrine do modelo de crescimento movido a consumo, apontado pelo FMI como esgotado, razão, por isso, do baixo dinamismo do Produto Interno Bruto (PIB), dos déficits em conta corrente e da urgência da retomada do investimento industrial e em infraestrutura. A transição está em curso, embora lentamente.

O brilho dos serviços...

 Se o setor de serviços gerou 80% dos empregos líquidos abertos nos últimos dois anos, daqui para frente, na avaliação do FMI, o viés será menos acentuado, e isso mesmo com o “reequilíbrio parcial” da produção industrial. Segundo o estudo, esse movimento deve aliviar a rigidez do mercado de trabalho. É algo mais provável do meio de 2014 em diante, possivelmente com maior depreciação cambial.

 “Foi o que contribuiu para o grande aumento do custo unitário do trabalho, reduzindo a competitividade e dificultando os incentivos ao investimento (principalmente na indústria)”, analisa o FMI. É um fator relevante para a inflação de serviços ter ficado 2 a 3 pontos percentuais acima da variação média do IPCA em 12 meses nos últimos dois anos, período em que alguns subgrupos da indústria, como bens de consumo duráveis, chegaram a exibir deflação.

 Em algum momento, deve haver um ajuste de preços relativos, puxado a câmbio, em favor dos preços industriais – e, portanto, à custa do salário real.

...e mais a formalização

 Não se deve, no entanto, esperar muito da distensão do mercado de trabalho devido à menor pressão do consumo sobre serviços. Falta à nota do FMI, e também aos estudos no país, destacar a formalização do emprego. Em muitos casos, especialmente entre empresas menores, isso envolveu só o registro em carteira de trabalhadores empregados em condições informais, sem implicar aumento do emprego lato sensu.

 Tal movimento parece em declínio, indicando, possivelmente, falta de qualificação do estoque restante para sair da informalidade. Ao mesmo tempo, a melhora na margem da renda leva um número menor de pessoas a procurar um segundo emprego. No caso dos jovens, reduz a necessidade do abandono precoce dos estudos para trabalhar.

Renda real segue subindo

 Fica mais claro entender porque o desemprego continua baixo, se a população ocupada se mantém, na comparação interanual, praticamente estável, com aumento de 0,1%, o mesmo da população economicamente ativa (PEA) em igual período. A economia tem aberto menos postos de trabalho, mas a demanda por emprego já não é tão intensa quanto foi de 2003 a 2010.

 Como resultado, o rendimento médio real, R$ 1908 em setembro, continua crescendo, +2,2% sobre igual mês de 2012 e 1% na margem. Mas o rendimento nominal, isto é, sem descontar a inflação, desacelerou de +9,8% em 2012 para +7,9% na média de 2013. Perdeu um pouco de ritmo, só que a inflação desinflou mais. Sem problema.

Para não rifar o social

 A discussão para frente é como devolver à economia o dinamismo do crescimento, agora impelido pelo consumo atribuído ao investimento e menos à demanda inflada por transferências de renda, que é o dado a ajustar nas contas fiscais até para soltar pouco mais o crédito.

 A consistência macroeconômica tem como objetivos a inflação mais próxima da meta (4,5%) que do teto (6,5%) e o déficit externo (hoje de 3,6% do PIB) financiado sem depender tanto do hot money - melhor ainda com recuperação do superávit comercial.

 O debate tem se dado, no lado liberal, por mais câmbio e ênfase à abertura comercial para aumentar a concorrência. Na vertente dita mais heterodoxa, o câmbio também é peça central, com duas ênfases: numa, o real viria à lona, seguido de arrocho fiscal; noutra, a depreciação é modulada para preservar os ganhos da renda.

 E o que tende a ser? Um pouco de cada, entendendo-se que dar papel central ao câmbio no ajuste equivale a rifar os avanços sociais. Má ideia. Concorrência e modernização industrial vão ao mesmo lugar sem avacalhar a moeda.

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