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ANTONIO MACHADO

21/02/2015 23:22 por Antonio Machado

É a economia que pode manter o governo de pé, não a atenção a amuos do PT e de aliados de ocasião

Programa fiscal do ministro Levy é o plano mais seguro para Dilma reforçar o governo e reinventar-se a si mesmo que os passes de prestidigitação do marqueteiro oficial do PT

 Com a economia estagnada e o escândalo da Petrobras mexendo com os nervos do governo e do Congresso, a presidente Dilma Rousseff tem ouvido do pequeno núcleo que a aconselha a sair da redoma palaciana e tentar conectar-se, pelo menos, com o eleitorado que a elegeu.

 É agora ou nunca, já que o ajuste das contas públicas e o controle da inflação vão debilitar por certo tempo a economia - e, depois de toda a expectativa criada pela reordenação da política econômica, não há como voltar atrás sem implicar prejuízos ainda maiores.

 O ajuste fiscal mal começou e já pode ser seriamente avariado, se as ações iniciais, focadas na correção de excessos na liberação de alguns benefícios sociais, sofrerem grandes modificações durante o tramite no Congresso das duas medidas provisórias que as amparam.

 A maioria dos partidos, inclusive o PT, quer suavizá-las. Há mais de 600 emendas neste sentido. E para centrais sindicais como a CUT, ligada ao PT, o governo deveria revogá-las, reorientando o corte de gastos para o aumento de receita, tributando os mais ricos.

 A impressão é que muito aliado de ocasião quer tirar casquinha da presidente, aproveitando-se de seu momento político em forte baixa e da dispersão da base aliada depois da eleição do deputado Eduardo Cunha, do PMDB, para presidir a Câmara contra a vontade do governo.

 Cardeais do PT também criticam o que julgam ser o temor do governo diante do tumulto na Petrobras. Ela tinha que se defender. E o fez.

Mas de improviso, como sugerem a ocasião - uma cerimônia, na sexta-feira, para o recebimento de credenciais de embaixadores – e a sua resposta à indagação de repórteres sobre a pilhagem na Petrobras.

 Ela alegou que “se em 1996 e 1997 tivessem investigado e tivessem, naquele momento, punido, nós não teríamos o caso desse funcionário da Petrobras que ficou quase 20 anos praticando atos de corrupção”, referindo-se, sem nomear ninguém, ao depoimento de Pedro Barusco, ex-gerente de serviços da estatal, de que era boleiro contumaz.

 Dilma pisou na bola. Se faltou ao governo FHC controle mais firme sobre a Petrobras, faltou por mais tempo, longos 12 anos, a Lula e a ela.

Esquisitice psicodélica

 Em estágio avançado no que se refere às investigações sobre todos os envolvidos no assalto à Petrobras que o Ministério Público e a Polícia Federal conseguiram identificar, e prestes a chegar ao STF as denúncias contra os acusados com posição ministerial ou mandato parlamentar, ao governo não há o que fazer dentro da normalidade.

 E nem lhe cabe querer ser parte nesta ação (exceto se denunciado), afora o que já fez, ao substituir o presidente da Petrobras, e se espera que faça com seu Conselho de Administração, ainda comandado pelo ex-ministro Guido Mantega.

 Psicodélica foi a nomeação de Graça Fortes, ex-presidente da estatal, para o conselho, e ela aceitar. A Petrobras precisa de gente nova até para ajudar a arejar o governo.

O que importa a Dilma

 Dos muitos problemas que cercam o governo Dilma, a mudança de rumo da economia é o que mais importa à sua estabilidade, tal como foi o bom cenário econômico o que tirou o então presidente Lula do córner do escândalo do mensalão e o fez elegê-la presidente em 2010.

 Expressão de um arco de forças políticas, da direita à esquerda, o PT no governo é menos o que deseja ser e mais o que pode fazer pelo seu eleitorado fiel, o grosso oriundo do piso da pirâmide de renda.

 Se os partidos coligados intuírem que esse filão eleitoral (que inclui as 76 milhões de pessoas que recebem algum tipo de benefício social) começa a passar para o lado do eleitorado avesso ao PT mais que simpático ao PSDB, Dilma perderá apoio no Congresso, a economia irá para o buraco e a sua sucessão entrará na ordem do dia ainda em 2015.

 É a economia que pode ajudá-la a manter as rédeas da charrete política, não a atenção a amuos do PT e de setores corporativistas.

Valor da transparência

 Pelo tanto que se comprometeu com o ajuste fiscal, ainda que menos por convicção e mais por necessidade devido à exaustão do modelo de transferências de renda correndo à frente do crescimento econômico, Dilma tem no programa do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o plano mais seguro para reforçar o governo e reinventar-se a si mesmo que nos passes de prestidigitação do marqueteiro oficial do PT.

 Mas o que Levy apregoa tem de ser defendido por ela, sobretudo aos aliados no Congresso. E ele deve explicar como fará a meta de 1,2% do PIB de superávit primário, porque, se for com mais imposto que com menos governo, a recessão herdada de 2014 vai ampliar-se este ano.

 Também deve dizer como vai conciliar a queda dos juros em relação ao PIB em 2016 e 2017, conforme mostrou esta semana em palestra em Nova York, com a volta da inflação à meta de 4,5%. Quanto maior a confiança, menor o tempo para o crescimento voltar a engrenar.

Uma injustiça reparada

 Fez bem o governo em manter Luciano Coutinho na direção do BNDES, um dos raros integrantes da ex-linha de frente da economia que sabe fazer conta. Fosse mais ouvido por Dilma, teria poupado à economia graves desgastes. Em agosto de 2008, antes da grande crise global, ele alertava para o risco de fortes déficits das contas externas.

 Ao que Mantega chamou de política anticíclica contra a recessão em 2009, basicamente enfrentada com endividamento do Tesouro, Coutinho contrapropôs incentivos a papéis de dívida privada como complemento ao crédito estatal. Custou a ser ouvido, assim como os avisos sobre operações não bem justificadas.

 Foi criticado por defender o que se chamou de “campeões nacionais”. Nem tudo funcionou, embora fosse esse o mesmo caminho de expansão seguido no pós-guerra pela Alemanha e Japão, e, mais recentemente, pela China, Coréia do Sul e Índia.

O BNDES vai encolher sem os aportes do Tesouro, mas ele e Levy se respeitam e já haviam se entendido antes da decisão de Dilma.

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