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ANTONIO MACHADO

27/10/2013 04:46 por Redação

Desemprego baixo com déficit externo alto condiciona o bem-estar às contingências de EUA e China

Relatórios da OCDE e FMI alertam para o crescimento com taxa de poupança baixa, num mundo menos indulgente com quem vira o mês no cheque especial

 O relatório do Banco Central sobre as contas externas em setembro e o do mercado de trabalho monitorado pelo IBGE são irmãos siameses de uma economia funcionando bem na aparência e com sinais avançados de desgastes que vão tornar-se problemas se não clinicados a tempo.

 A urgência não se deve a alguns problemas em si, como o déficit em conta corrente – US$ 60,4 bilhões no acumulado do ano até setembro, 77% maior que em igual período de 2012. A conta foi financiada com investimento estrangeiro direto (IED), que vem diminuindo (caiu 8% no acumulado do ano, totalizando US$ 43,8 bilhões) e o ingresso de hot money para aplicação em renda fixa (+580%, chegando a US$ 27,8 bilhões nestes nove meses) e em ações (+233%, ou US$ 9,6 bilhões).

 Ainda que a qualidade do financiamento tenha diminuído, já que o capital financeiro, diferentemente do das multinacionais, é um dinheiro volátil à procura de barganhas (juros altos dos papéis do Tesouro, por exemplo), o país tem podido girar os seus compromissos externos sem sacar contra a reserva de divisas de US$ 377 bilhões.

 Mas tal processo deixa a economia vulnerável a choques externos, como se viu com a abrupta desvalorização do real, chegando a bater em R$ 2,40 por dólar, quando o Federal Reserve anunciou que estava para começar a desmontagem do laxismo monetário – o “quantitative easing” em sua terceira versão, por isso chamado de QE3. A decisão foi adiada, dando mais tempo ao Banco Central e ao governo.

 É esse tempo que está passando, e será curto depois das eleições. Num sistema de coalisão fracionada de partidos no Congresso, unidos pelo dá-lá-toma-cá, ou o novo governo se aproveita da força com que saiu das urnas e corre a aprovar o que precisa mudar e exija quórum qualificado, como uma reforma tributária, ou depois não muda mais nada relevante. Os políticos estimam que o “tempo de graça” de um novo presidente, quando o que ele faz acontece, dure um semestre.

Alertas da OCDE e do FMI

 O tempo da economia com taxa de desemprego baixa e estável (5,4% da população ativa) e déficit em conta corrente crescente (3,6% do Produto Interno Bruto, PIB, em 12 meses) condiciona o bem-estar da sociedade às contingências dos EUA e do dólar e às da China e seu apetite por commodities.

 As contas do Brasil dependem de um mundo cada vez menos indulgente com quem vira o mês no cheque especial.

 É esse o significado dos alertas sobre a situação fiscal do país, inseridos em dois relatórios divulgados esta semana, um da OCDE, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, outro do FMI (Fundo Monetário Internacional).

 Ambos focam a preocupação na dívida pública bruta, da ordem de 60% do PIB (um pouco mais pelo critério do FMI), e sua evolução. Mas, conforme se deduz da leitura dos documentos, o que está pegando são as sequelas das acrobacias do governo para tornar a execução fiscal mais palatável.

Gasto fiscal sem tração

 A economia do setor público bateu no teto dos gastos em relação ao potencial da arrecadação, assim como se esgarçou o endividamento do Tesouro para gerar funding aos bancos estatais, sobretudo ao BNDES, praticamente provedor único de financiamento de longo prazo a juros decentes, dado o tamanho exíguo do mercado de capitais (dependente também da liquidez externa, que deve encolher, e o custo, crescer).

 A ponderação, mais que aviso, da OCDE e do FMI é que o país carece de um volume maior de investimento para acelerar o crescimento sem criar pressão inflacionária nem depender dos dinheiros externos em demasia (que forçam a contrapartida de déficit externo, com sequela sobre a taxa de juro real, mantida elevada para atrair o hot money, e a taxa cambial, que se valoriza quanto maior a liquidez do dólar no mercado doméstico, debilitando a competitividade das empresas).

Fórmula contra fetiches

 A economia entrou neste circulo vicioso seduzido pelo ambiente de facilidades no mundo, parte devido à liquidez externa encharcada e à sugestão de que o agigantamento da China fosse eterno. Em favor do governo brasileiro, diga-se que nenhum outro no mundo foi muito mais precavido. O que fazer? Tal como muita gente já reclama aqui, os estudos da OCDE e FMI recomendam maior taxa de poupança interna.

 Ela pode fazer a diferença, se originada do orçamento fiscal. Está ai o caráter do imbróglio, razão de não ter sido resolvido lá atrás pelas gestões FHC, Lula e a de Dilma Rousseff. O Congresso é parte da solução, e ela implica transparência e competência de cada gasto bancada por impostos.

 Não é preciso uma asfixia fiscal. Basta que o gasto cresça menos que o PIB, abrindo folga para o aumento do investimento e a descompressão geral de custos. É também o que pode tirar de cena o fetiche dos juros, do câmbio e tantas mazelas mais.

Traições da aritmética

 Em meio aos grandes números dos ajustes à vista na economia depois das eleições, circulam alguns dados acessórios que só criam fumaça. É o caso do alarido da imprensa com o que os brasileiros gastam no exterior, típico de uma época em que cartão de crédito não valia lá fora e cada viajante só podia sair do país com US$ 500 no bolso.

 O que impressiona não é bem o gasto, US$ 18,9 bilhões no acumulado até setembro, mas a merreca deixada pelos estrangeiros no país no mesmo período, US$ 5 bilhões. O vexame é esse, ou seria falso o que o IBGE informa sobre o aumento real da renda e o emprego recorde.

 E já que falamos de números, a presidente afirmou, ao sancionar a lei que cria o Mais Médicos, que até fim do mês o programa terá 3,5 mil profissionais, ampliando o atendimento para mais 12 milhões de brasileiros. Dá um médico por 3.428 habitantes. Hoje, essa relação no país é de um médico por 528 habitantes, por ai. A aritmética de campanha eleitoral costuma somar, não subtrair.

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