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ANTONIO MACHADO

09/12/2018 17:19 por Antonio Machado

Desafios de Bolsonaro são gigantescos, e as oportunidades são equivalentes, se não se distrair

Um dos planos recebidos pelo novo governo não por acaso tem o nome de 48 Horas, a indicar a urgência das transformações e barrar o reagrupamento dos lobbies

Para sair rasgando 

Com a sua articulação política no Congresso já reclamando revisão, apesar de o governo zero quilometro de Jair Bolsonaro continuar na linha de montagem e só começar a rodar em 1º de janeiro, aumentam as atenções sobre as primeiras providências nas áreas da economia e da segurança pública – ao fim e ao cabo, os temas mais relevantes à sociedade e essenciais à sustentação popular da nova administração.

Se não queimar na largada nestas áreas, Bolsonaro terá a carência entre sua posse e o início da nova legislatura, em 1º de fevereiro, para enquadrar as vaidades entre seus apoiadores no próprio partido e o voluntarismo de seus filhos eleitos para a Câmara e o Senado.

É o presidente que terá de falar mais alto, não o pai, neste caso. Se não bastar, que fale alto o capitão. No outro, cabe-lhe avaliar o que convém ao país: atender a ambição dos eleitos graças aos seus votos e não por méritos próprios (e os encrenqueiros são estes) ou facilitar a eleição de dirigentes experientes, hábeis, previsíveis e comprometidos com as reformas nas duas Casas do Congresso.

Na Câmara, tal perfil é identificado na candidatura à reeleição do deputado Rodrigo Maia (Dem-RJ). No Senado, por ora a intenção é não deixar barato para o MDB, partido com a maior bancada de senadores, que se revezam há várias legislaturas no comando da Casa.

De algum modo, Bolsonaro, deputado há 28 anos, terá ele mesmo de entrar nestas tratativas por não contar a seu lado com políticos tão graduados quanto os generais quatro estrelas que trouxe consigo.

Em tempos de informação instantânea e redes sociais, no entanto, um mês parece uma eternidade e é esse o seu handicap para chegar ao Congresso, em fevereiro, com resultados a mostrar e o sentimento de confiança da população com viés de alta. Para isso, ele depende da receptividade aos programas em gestação pelos ministros Paulo Guedes, na economia, e Sérgio Mouro, na segurança pública.

É o que importa neste início, ficando tudo mais em segundo plano.

Outra ordem em ascensão

Assumindo-se que o impacto do combate à criminalidade é mais lento e incremental, a despeito de eventuais operações midiáticas, resta a economia como marco decisivo de outra ordem em ascensão, rapidamente detectada pelos movimentos do dólar e dos juros para baixo e da bolsa para cima. A retomada da reforma da previdência é o evento principal.

Não há que temer a reação popular, se forem tomados certos cuidados. Dois estão à vista: cuidar da comunicação, informando com linguagem clara não haver perdas para a imensa maioria dos assalariados (para estes nada muda em relação às regras atuais) e monitorar os lobbies do funcionalismo (os afetados, se o ajuste mirar a equidade social).

Se 80,9% da população coberta pelo INSS se habilitam a aposentaria ou pensão de até 2 salários mínimos, chegando a 90,4% até 3 SM, é óbvio que o déficit previdenciário não se deve a estes tantos e sim aos regimes próprios de previdência dos servidores públicos.

Alívio fiscal e monetário

A garantia firme de que o ajuste fiscal será para valer, pegando os “donos do poder” e seus privilégios e não a massa indignada com tanta roubalheira e iniquidades (associado a outras medidas em preparação, como privatizações e modernização da gestão pública), tem capacidade de mudar o ânimo empresarial e dos consumidores em muito pouco tempo.

A operação diária da macroeconomia também pode desafogar as pressões por mais crescimento, emprego, renda e consumo. Não há para o próximo biênio sinal de tensão inflacionária, dando ao Banco Central condição de reiniciar a desengorda da taxa Selic com mais dois a três cortes de 0,25 ponto percentual cada um. Hoje, está em 6,5% ao ano.

O resultado fiscal de 2018, além disso, será melhor que o orçado, o que ajudará a aliviar o giro da dívida pelo Tesouro (portanto, menos juros e necessidade de captações de hot money). Também há espaço para uma ligeira expansão de emissão monetária para desafogar o crédito.

Cuidado com as distrações

Tais premissas terão de acontecer logo, assim como a comunicação ser simples e rápida, de forma a impactar as percepções dos públicos envolvidos. Há tempo para influenciar os sentimentos do Congresso, se Bolsonaro por ordem em seu ninho político. E, obviamente, estar convencido sobre o que precisa ser feito e não se distrair.

Os adversários da transformação ansiada pela maioria da população já cansada de promessas são os que manipulam a fé popular, em geral, as elites do corporativismo estatal e os setores econômicos retrógrados – os mesmos que capturaram e arruinaram as legendas de esquerda.

Que o presidente fique esperto, sendo ele mesmo egresso de uma corporação.

Os desafios que o aguardam são gigantescos, mas as oportunidades são equivalentes, se não incorrer em diversionismos, como parecem querer atraí-lo aliados inconvenientes, nem duvidar do poder renovador das novas tecnologias e da vontade empreendedora da sociedade.

Programa 48 Horas

Um dos planos recebidos pelo novo governo como cooperação voluntária não por acaso foi batizado de Programa 48 Horas, a indicar a urgência das transformações necessárias. E barrar o reagrupamento dos lobbies.

O momento é propício a um salto de qualidade. O esgotamento fiscal força o governante a pensar em eficiência, saldo natural de governos enxutos.

A isso se junta um viés pouco sabido: boa parte do pessoal do setor público está em vias de se aposentar, enquanto em muitas atividades a tecnologia da informação, os bancos de dados remotos, a comunicação por meio de realidade artificial dispensam repor todas as vagas (embora criem demandas por gente mais bem formada).

Esse é um movimento global, definidor dos novos caminhos da riqueza das nações. Não é opcional, é obrigatório acompanhar tais tendências. De preferência, na dianteira, e a hora é agora.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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