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20/03/2019 11:46 por Redação

Desaceleração global e possíveis impactos na atividade econômica brasileira

Thomas Pires e Ariana Zerbinatti*

A economia global tem mostrado sinais de desaceleração desde meados de 2018. Parte relevante desse movimento pode ser atribuída ao aumento de tensões comerciais, com destaque para a relação entre Estados Unidos e China. Entretanto, já era possível notar uma moderação da atividade europeia antes da intensificação das disputas comerciais, influenciada pela redução dos investimentos privados.

Diante desse cenário de menor expansão da demanda mundial e do consequente alívio do preço do petróleo, o comportamento da inflação nas principais economias tem se mostrado benigno. A desaceleração de preços é generalizada, com queda dos índices cheios e dos núcleos na maioria dos países. Esse cenário tem permitido que os bancos centrais das principais economias desenvolvidas adotem uma postura mais acomodatícia do que a empreendida até o final de 2018. Vale dizer que esse movimento está sendo acompanhado por algumas autoridades monetárias de países emergentes e de desenvolvidos “secundários”, como Índia, África do Sul e Austrália.

Nesse contexto de transição do ciclo mundial para menor crescimento, porém com liquidez mais ampla, a economia brasileira deve ser afetada por alguns canais. A retomada da expansão doméstica tem ocorrido de forma bastante gradual, e, por vezes, parece dissociada da trajetória global, no sentido de que a moderação da economia nacional tem origens distintas das observadas no restante do mundo, embora os setores industriais local e externo se mostrem mais sincronizados.

Em nosso cenário base, a economia doméstica acompanharia a melhora da atividade internacional, apresentando elevação de 2,4% em 2019, segundo nossa estimativa. No otimista, o PIB brasileiro cresceria 3,0% no último trimestre em relação ao mesmo período do ano passado, acumulando variação de 2,8% em 2019. Por sua vez, no cenário mais adverso, a alta do PIB brasileiro sugerido pela economia mundial seria de apenas 1,0% em 2019. De fato, nesse cenário mais extremo de desaceleração contínua da atividade global, sairíamos de um ritmo de expansão interanual de 1,1% para outro de 0,4% no quarto trimestre, o que consideramos pouco provável, neste momento.

Nosso cenário base contempla estabilização da economia global no segundo trimestre deste ano, devendo mostrar alguma aceleração no segundo semestre. O alívio das condições financeiras verificado nos últimos meses e o comprometimento do governo chinês em evitar uma desaceleração mais intensa da atividade do país deverão se traduzir em melhor desempenho da atividade econômica mundial à frente. Ademais, a redução de riscos importantes, como a tensão comercial entre EUA e China, a superação do período de paralisação do governo norte-americano e o encaminhamento da saída do Reino Unido da União Europeia, devem contribuir para um maior ritmo de crescimento nos próximos meses.

Entendemos que os vetores associados à dinâmica doméstica devem se sobressair na determinação da trajetória do PIB do Brasil neste ano. O avanço na agenda de reformas, com destaque para a reforma da previdência, será fundamental para um crescimento mais expressivo da atividade doméstica ao longo dos próximos trimestres. Além disso, a aceleração da carteira de crédito, impulsionada pela manutenção do patamar baixo da taxa de juros, também contribuirá positivamente para uma aceleração da economia ao longo deste ano. Nesse ambiente de reposicionamento da economia brasileira, com debate sobre uma ampla agenda de reformas econômicas, o cenário internacional não deve ser a força dominante, mas servirá sim, como sugerido por nossas estimações, como alavanca ou atenuante para os possíveis efeitos positivos dessa agenda para a economia local.

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* Thomas Pires e Ariana Zerbinatti são economistas do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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