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ANTONIO MACHADO

18/10/2014 22:48 por Redação

Congresso menos submisso e empresariado pouco disposto a servir de claque aguardam o novo governo

Com as transformações acontecendo em ritmo acelerado, país precisa inserir a tecnologia, a inovação e a qualidade na agenda nacional para não se atrasar

 Com a disputa eleitoral supostamente apertada segundo as pesquisas e o desperdício dos debates entre os candidatos, devido à pajelança da desconstrução usada por um dos lados, seu resultado ainda parece incerto, embora os dias posteriores à eleição já comecem a clarear.

 Independentemente do vencedor, o novo presidente deverá encontrar um Congresso menos submisso e um empresariado, em especial os mais modernos e capacitados gerencialmente, pouco disposto a servir como claque de qualquer política econômica para o governante de turno.

 A próxima Legislatura, por exemplo, tomará posse sob o estigma do caso do mensalão (que terminou com a prisão de figurões de partidos governistas, sobretudo do PT) e da Operação Lava Jato (que devassou uma “organização criminosa”, segundo expressão da Polícia Federal, agindo na Petrobras), provavelmente, entrando em fase processual no STF (contra políticos e ministros atuais). E concluindo em primeira instância contra empresas suspeitas de corromper agentes públicos.

 A rede de vigilância sobre parlamentares, assessores e traficantes de facilidades tende a ser mais atuante, implicando, talvez, menor disposição à delinquência com os dinheiros públicos e com os atos regulatórios. Só o tempo vai confirmar esse resultado. Mas parece ser praticamente certo que o aliciamento da coalizão parlamentar de apoio terá de se reinventada. E devotos de São Francisco de Assis, do é dando que se recebe, precisarão achar outro santo padroeiro.

 Adicione-se a comichão de futuros líderes do PMDB de preparar uma candidatura própria a presidente da República em 2018 a partir da campanha municipal de 2016. Pode ser só uma comichão nestes tempos de mudança de governo, mas é isso o que o deputado Eduardo Cunha, que ambiciona presidir a Câmara, tem conversado com empresários.

 Por isso ou, na verdade, pela descoberta pela polícia das rotas da corrupção, poderá ser menos eficaz ao novo presidente buscar a sua governabilidade no Congresso loteando o governo. É o que, caso não surjam brechas, poderá levar à reforma política, mas sob o viés dos partidos, com foco no custeio público da propaganda eleitoral. Já é assim. Só que os políticos devem querer compensações, se o acesso à tesouraria pública não estiver tão franqueado quanto costuma estar.

Pouco caixa para cooptar

 O futuro governo começará, além disso, com grande restrição fiscal e monetária, forçado a reduzir o ritmo do gasto publico e/ou elevar impostos, ambos os movimentos também submetidos ao capricho da taxa cambial, variável de ajuste da renda, portanto, da demanda interna, quando se torna prudente administrar o déficit em conta corrente.

 Tempo de dieta dos dinheiros públicos não estimula adesões sem que se reparta a formulação das políticas de governo. Hoje, os partidos governistas são só coadjuvantes, brindados com alguma autonomia em processos licitatórios e na ocupação de cargos em comissão.

 No caso de setores empresariais, o crédito com juro subsidiado, a política de preferências em compras do governo e as desonerações tributárias também têm funcionado como mecanismos de cooptação e de legitimação do poder imperial da caneta presidencial, escanteando o Congresso.

Inovação foi corrompida

 Congresso menos fisiológico (se o tacão da Justiça não esmorecer), a vertente moderna e conectada com os novos modelos de negócios do empresariado (em contraponto aos setores dependentes de aditivos) e o constrangimento fiscal (limitando o campo de ação do governo) são três tendências cuja somatória leva à necessidade de gestão pública e de governança de qualidade e capazes de conciliar as diferenças.

 O quadro dos últimos 12 anos, que confortou erros, omissões e pôde contemplar interesses conflitantes, não existe mais. Os resultados foram notáveis para a distensão social. Mas inseriram ingredientes de involução no país, ao estimular a acomodação empresarial, criar um ambiente político desinformado, levar à formulação defensiva da macroeconomia e burocratizar a pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias, tudo convergindo para corromper o mindset da inovação.

Déficit de inteligência

 Tem razoável consenso, ao menos entre o empresariado “incomodado”, que não se irá a lugar nenhum sem três conceitos: a estabilidade da economia, a gestão pública eficiente (sobretudo da área social) e o crescimento motivado pela inovação. Esse é o pano de fundo para que as oportunidades da tecnologia sejam aproveitadas e permitam abrir outras frentes de expansão e um processo evolucionário da economia.

 Não se fará nada disso denunciando a crise externa, que deixou de se aprofundar na China e EUA graças a tais conceitos, nem só com um plano de ajuste fiscal - e sem aliviar o custo de produção no país. 

 Com inteligência, o nosso maior déficit, dá para fazer muito mais.

A volta do cavalo selado

 Presidente pouco aberto a mudanças e com visão inflexível vai ter mais dificuldade para entender o que está em cena. É como alguém já disse: às vezes, saber o que perguntar importa mais que a resposta.

 Com as mudanças chegando em marcha batida no mundo (“internet das coisas”, conectando todo tipo de máquina e equipamento; as energias renováveis, que já não são mais tecnologias futuristas; a medicina alcançando o que pouco tempo atrás seria descrito como milagres), o país - qualquer país com perfil sofisticado como o nosso -, precisa inserir a tecnologia, a inovação e a qualidade na agenda nacional.

 Essa discussão nos tem sido negada mais por ser ignorada. Trata-se de um processo facilitado quando há grupos de inteligência para os temas eleitos como essenciais. E coordenados pelo governo para que aconteça a transformação. Ela voltou como cavalo selado. A dúvida é se vamos montá-lo ou se vamos deixá-lo passar mais uma vez.

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