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ANTONIO MACHADO

08/02/2015 14:29 por Antonio Machado

Capacidade política e gerencial exemplar é o que falta ao governo, mais até que o ajuste fiscal

Uma força tarefa de talentos multissetoriais, ajudando o governo a pensar para além de suas limitações, poderia tirar Dilma da solidão das decisões árduas, como a escolha do presidente da Petrobras.

 Política e economia expressam o pulso do país. Da política a sorte está lançada nos inquéritos policiais que devassam a roubalheira de escandalizar meliantes na Petrobras. Sobra a economia, que vai mal, mas já esteve muito pior no passado recente e conseguiu superar os desaforos em série - da hiperinflação ao default da dívida externa.

 Estivesse o governo menos catatônico, assombrado pelo escândalo na principal empresa brasileira e mortificado pelo sentimento de culpa pela desastrosa política econômica no primeiro mandato, não se sabe dos dois o que mais abala a presidente Dilma Rousseff, e a economia poderia desfrutar de melhor prognóstico - ainda que mal avaliada no presente. É como purgante: toma-se obrigado, não por que se gosta.

 Preocupa mais a carência de atitudes assertivas da presidente em relação aos novos ministros da área econômica, com Joaquim Levy à frente da pasta da Fazenda, e à terapia constritiva do gasto fiscal ministrada por eles como preliminar para a retomada do crescimento econômico, que as sequelas já sentidas – no bolso, com o aumento de juros, de impostos, a depreciação cambial e o estouro da inflação; no mercado de trabalho, com a desaceleração do ritmo da economia.

 A retração será mais profunda, costeando a recessão, quanto maior a resistência ao tratamento. É ai que importa o papel da liderança, ao não sonegar a gravidade da situação, ainda que não se reconheça como responsável pelos tempos de aridez, agravados pelos riscos de racionamento de energia e de água. Não se escamoteia a realidade, quando a colaboração coletiva é parte da solução do problema.

 Na economia, a comunhão dos interesses nacionais (que nem sempre se confundem aos dos políticos) aos de empresários e investidores pode contornar cenários adversos e preservar projetos de expansão, resumidos pela palavra investimento. Esse é o sentido da confiança, apontada por empresários como a maior deficiência dos últimos anos.

 “A orquestra ainda não está totalmente afinada”, diz um ministro, embora também falte o arranjo que a faça começar tocando baixinho e subindo aos poucos até a apoteose, algo para elenco de virtuoses. A soma das frentes que Dilma tem a enfrentar, contudo, é enorme, diz um líder empresarial, e “exige uma competência que não se vê”.

Força tarefa de talentos

 Uma força tarefa de talentos multissetoriais, ajudando o governo a pensar para além de suas limitações, poderia tirar Dilma da solidão das decisões árduas, como a escolha do presidente da Petrobras. Sua indicação foi a que havia em mãos, não a que gostaria de anunciar.

 Depois de uma lista de convites frustrados, incluindo a três bem-sucedidos empresários, restou a ela deslocar o presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, para a vaga aberta pela saída de Graça Fortes da Petrobras (que não seria para já, apesar de seu prazo de validade estar vencido).

 Com tantas frentes de problemas, do ajuste econômico à reconstrução do caixa e da reputação da Petrobras, que se conecta à credibilidade internacional do país fortemente abalada pela soma de “tudo isso que está ai”, ao governo falta o que é mais urgente que o ajuste fiscal: forte capacidade gerencial e política.

Passos atrás para avançar

 A economia está num processo regressivo de modo a que se possa ter adiante a volta do crescimento com avanço social, alicerce político do PT, cuja preservação é o que fez Dilma aplicar o plano econômico da oposição. As condições de médio prazo da economia são sofríveis.

 A correção da defasagem dos preços administrados, entre os quais o da eletricidade é o mais corrosivo, já fez a inflação varar o teto da meta em 12 meses. Atingiu 7,13% em janeiro, afastando-se do teto de 6,5% e da meta efetiva de 4,5%, prevista pelo Banco Central para ser alcançada em meados de 2016. É o que o faz majorar a Selic.

Um legado só de abacaxis

 A promessa de trazer a inflação à meta pode tornar-se infactível. Mantê-la implica ou continuar inflando a Selic, que está em 12,25%, e mirrar ainda mais o dinamismo econômico, ou dificultar outra meta crítica: o superávit primário de 1,2% do PIB este ano e 2% em 2016.

 Levy está tendo vida dura. Ela será facilitada, assim como a volta do crescimento, quanto maior o apoio que receba e a confiança que inspire aos empresários, que por algum tempo só terão notícia ruim.

 A indústria, por exemplo, recuou 1,6% no quarto trimestre, sexta retração trimestral seguida. A economia afundou em 2014 enquanto o marketing oficial exaltava o que já era passado. Tome-se a conta de longo prazo do bem-estar: a taxa de investimento em relação ao PIB.

 Na prévia do economista Fernando Montero, caiu para 16,7% do PIB em 2014. E, associada ao déficit externo de 4,5% do PIB nas contas nacionais, a poupança interna mirrou para 12,2%, mal o suficiente para pagar a depreciação do capital, diz. Não se brinca com isso.

Agenda positiva de Levy

 O que virá em paralelo ao laxante fiscal servido pelo governo? Em conversa com industriais na quinta-feira, Levy começou a falar de uma agenda positiva: pediu ideias para reanimar as exportações, da revisão de tarifas a negociações comerciais com outros países.

 Os empresários, entre eles, Josué Gomes da Silva, da Coteminas, e Pedro Passos, da Natura, ficaram bastante impressionados com Levy. O ministro do Desenvolvimento, Armando Monteiro, também esteve com industriais noutra reunião e se mostrou afinado com a agenda fiscal com pitada desenvolvimentista, expressão que Levy não costuma usar.

Levy mostrou que a economia tem agenda própria e positiva à margem dos problemas políticos do governo e da bandalha na Petrobras. É o que se precisa para o mau momento politico do governo não contagiar a economia, criando, ai sim, uma crise de proporções imprevisíveis.

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