Home > ANTONIO MACHADO > Candidatos e STF reforçam patologia que acomete a sociedade devido à suspeita de que nada melhore

ANTONIO MACHADO

31/03/2018 23:45 por Antonio Machado

Candidatos e STF reforçam patologia que acomete a sociedade devido à suspeita de que nada melhore

É preciso deixar o país seguir em frente, afastar a gerontocracia governante e dar a vez à nova geração, adaptada ao digital e mais preparada para entender os anseios atuais

Eleição não é circo

Como o tempo é curto até as eleições e os candidatos a presidir o governo ou não empolgam ou não poderão registrar a candidatura, se os tribunais superiores observarem o rigor da lei, resta a fazer o que muita gente já faz: desligar-se das distrações e se proteger de balas perdidas. As balas reais e as da narrativa política.

O que importa, para valer, são as propostas dos candidatos para os problemas concretos do país. Isso, já na largada, descarta todos os que não tenham nada convincente a dizer sobre questões essenciais – a segurança pública, a péssima qualidade da educação, o descaso com a saúde, a difícil mobilidade social, a má zeladoria das cidades.

Não vale prometer platitudes, como empregos, hospitais, polícia na rua, vacina contra a dengue, luz elétrica, água encanada. Tudo isso é obrigação. Nem deveriam constar de programa eleitoral.

E mais: são problemas ou seriam sintomas de algo maior, sonegado a nós brasileiros nas discussões políticas, na propaganda eleitoral e nos estudos dos chamados “especialistas”? Tal resposta antecede as soluções apresentadas de forma fragmentada - tipo aumentar a força policial e chamar o Exército contra a criminalidade desembestada.

Uma situação de colapso, como a verificada no Rio de Janeiro e em grande parte dos estados do Nordeste, exige ações emergenciais. Mas isso não é solução, sabendo-se que ninguém cogita estacionar tropas militares de modo permanente nas avenidas e vielas do Brasil. E que cogitasse, o resultado seria desastroso, como se viu no México. Lá, uma tropa de elite, treinada nos EUA, derrotou o cartel mais forte e o substituiu na hierarquia do tráfico e na corrupção do estado.

Só um Estado com atividades transparentes, gerido por burocracias preparadas e sujeitas a sanções por razões de competência e não só disciplinares, como hoje, pode entregar o que a sociedade reclama.

Isso tem profundas implicações. Elas vão da eleição de governantes e parlamentares que veem a vida pública como uma missão temporária a regras rígidas para o estatuto da estabilidade dos servidores.

Difícil? É dificílimo. Mas em que lugar do mundo o desenvolvimento e o processo civilizatório aconteceram sem sacrifícios?

Desprezo à competência

A verdade é que tratamos desde sempre só os sintomas de problemas, como a inflação, a febre mais antiga do país. Ela resulta de várias distorções não corrigidas (gasto público deficitário, descontrole monetário, impostos desmedidos, conflito distributivo, mercados sem concorrência etc.).

É mais fácil subir juros, forçar uma recessão e tratá-la com desemprego que enfrentar os vícios da economia.

Só que acabou o tempo das ações isoladas. Com disse o economista-chefe do Itaú, Mário Mesquita, não há ajuste fiscal sem reforma da previdência. E não haverá reforma tributária, corolário do ajuste, sem revisão do gasto público e das desonerações. Em ambos os casos, se gasta e se deixa de tributar sem que se saibam bem as razões.

Os salários dos servidores são aumentados e engordados com um sem número de gratificações sem a contrapartida de metas de desempenho.

O Estado nacional despreza a competência e maltrata quem o mantém.

As ideias quixotescas

Candidato que não tiver resposta para tais questões, em especial à inépcia do setor público e à quebra da cadeia de comando, não deve nem merecer atenção. Prometer melhorar a vida dos pobres sem dizer como arrancar eficiência do setor público é prenúncio de desastre.

E desastroso será também o candidato levar a sério o discurso do Estado mínimo, que guarda relação com a tese do rearmamento geral como resposta à criminalidade. Tais ideias são quixotescas. Dito de outro modo: são erradas. Liberalismo radical não existiu nem há em lugar algum. Sociedade armada é polêmica até nos EUA, ao insuflar perversões sociais. Cerca-se o crime com leis e polícia duríssimas.

Tais discursos encontram solo fértil, o que revela a patologia que nos acomete devido ao desespero de que nada melhore. E não vai, se persistir a retórica ressentida dos demagogos à esquerda e direita e a estupidez dos governantes, dos políticos e seus “intelectuais”.

Transformação já tardia

A disciplina do gasto público se faz necessária devido ao que não se fez nem se faz para administrar as demandas sociais e econômicas conforme um plano de longo prazo, em que os investimentos geradores de ativos produtivos tenham primazia, com retaguarda de um sistema de ensino que forme desde a infância cidadãos prontos para a vida.

Nem o estatismo é solução nem o mercado sem planejamento de perfil indutivo e foco no que cabe ao Estado – prover segurança jurídica e à vida, com equidade social a um custo que não deprima o esforço de pessoas e de empresas.

Não será com políticas econômicas defasadas, ignorantes do avanço tecnológico e de costas para a sociedade, que acontecerá a transformação que já tarda no Brasil.

Gerontocracia terminal

O Supremo Tribunal Federal precisa deixar o país seguir em frente, cumprindo a lei em vez de tentar moldá-las conforme o interesse dos apenados influentes. E também aos maus costumes dessa gerontocracia que governa, aprecia os recursos às leis e quer comandar o país.

É preciso dar a vez à geração nascida nos anos 1960, pós-ditadura e adaptada ao mundo digital. Dando nomes, é mais para Rodrigo Maia, presidente da Câmara, ao centro do arco político, que para Michel Temer. À esquerda, o ex-ministro Fernando Haddad em vez de Lula. No empresariado, Josué Alencar, a turma dos startups e muitos outros.

O velho acabou na política. Cabe-lhe, hoje, ajudar os mais jovens, entre 30 e 50 anos, mais bem preparados para entender os anseios dos novos tempos e conduzir o país numa jornada não de “nós e eles” e, sim, de “todos nós” voltados à elevação coletiva e pessoal.

Essa é a expectativa. Já há programa moderno pronto para satisfazê-la. Não dá é para deixar que a política arruinada fomente a descrença.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

'
Enviando