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ANTONIO MACHADO

02/06/2018 21:58 por Antonio Machado

Brasil das normas não tem mais o que oferecer e está na contramão dos anseios sociais e do mundo

A sociedade cobra respeito, apesar de alguns desdenharem como moralismos de classe média. Ok. É legítimo pensar assim. Mas não só pensem. Digam isso ao eleitor

A trombada é geral

Os caminhoneiros e as redes sociais puseram o país de ponta cabeça e mostraram o tamanho da repulsa da sociedade, que pegou carona na boleia dos caminhões, à roubalheira da burocracia pública mais que dos políticos (embora a maioria não veja assim), à enorme inépcia dos governantes e à incompreensão de seus supostos intérpretes.

Foi uma greve sem líderes visíveis e não captada pelos radares dos aparelhos de segurança, dos institutos de pesquisa e dos analistas, todos, há muito tempo, incapazes de intuir a amargura da sociedade.

O país está desgovernado em múltiplos sentidos, seja do papel das instituições ou da falta de visão de futuro, a maior carência, pois há décadas o desenvolvimento tem sido mais figura de retórica que o fio condutor do que há por fazer, independentemente de governos.

A escuridão é densa, envolvendo governantes, políticos, a elite da burocracia estatal, empresários, intelectuais. Nem na universidade, onde deveriam florescer ideias, se discutem saídas. Ao contrário: aplicam-se mais em defender privilégios que em servir a população.

O mundo está em transformação acelerada, puxada pela tecnologia e por mutações sociais, enquanto aqui nem podemos, a rigor, falar em regressão, já que estagnamos, com avanços somente marginais, desde o colapso do modelo econômico do período autoritário, baseado em dívida externa, em concentração compulsória de renda, dirigismo do setor privado, estatismo, toneladas de subsídios e iniquidades.

Não se seguiu o modelo asiático, embora esta fosse a intenção, de priorizar o investimento, com firme apoio à educação, disciplina política e coesão social inatacáveis, senso geopolítico e um Estado forte, mas enxuto. O descaminho veio com a Carta de 1988 - liberal no espírito, predatória na forma e alheia ao desenvolvimento.

Ela criou obrigações dissociadas da formação da riqueza nacional, mandando distribuir o que nem fora produzido, tudo sob a moldura de uma Federação em que as funções se sobrepõem entre estados e União, em que município é ente federativo, com funcionalismo indemissível, os poderes e agências com autonomia orçamentária, mais uma espessa camada de Justiça federal e estaduais, quatro tribunais superiores, ministério público inimputável. Parece feita para não funcionar.

A protetora de chupins

Esse Brasil não tem mais o que oferecer ao cidadão e está à margem do mundo. E agora? Melhor não ter expectativas. As chamadas elites ainda desconhecem as soluções. A anterior, que se elegeu dizendo-se de esquerda, deu migalha aos pobres, protegeu chupins pendurados no Estado, entre funcionários públicos, oligarcas políticos, bancos e empresários acomodados, e deixou sugar o minguado Tesouro Nacional.

Como estratégia de desenvolvimento, reeditou o modelo obsoleto do período autoritário, que já era página virada no Leste europeu, na China e na Índia, os países que hoje puxam a roda do progresso no mundo, e fez a alegria dos viciados em mamatas no Erário.

Preliminares a resolver

O que veio a seguir, um governo reformista e liberal na embalagem, trazia o DNA das oligarquias partidárias, de modo que até tentou mudar, mas contrariando sua alma patrimonialista, como se viu com a conversa do presidente da República em hora e com pessoa impróprias – e desde então nada mais relevante aconteceu. Espera-se só o fim.

Os candidatos que aí estão buscam mostrar-se preparados falando de programas econômicos já defasados pela tecnologia. Há, antes disso, preliminares mal resolvidas. Não se terá estabilidade, por exemplo, com o STF usurpando prerrogativas do legislativo e se impondo como instância revisora de leis (e não se atendem à Constituição, que é o que lhe cabe, e nada mais). Nem com o Congresso apequenado.

O Executivo, no presidencialismo, terá de voltar a ser maestro de uma sinfonia tocada por uma orquestra afinada. Mas qual a plateia? As muitas explicações à greve dos caminhoneiros foram mau sinal.

Os insultos à democracia

Tomaram-se os protestos pedindo a volta dos militares como apoio a uma ditadura militar e não como insultos à democracia da forma como ela tem sido praticada pelos partidos e pelos burocratas estatais.

Mas que esperar se nem se cogita que o apoio popular a Lula possa indicar preferência ao que ele significa ou significou, não endosso a ele e à esquerda, que nunca teve nem um terço da Câmara e Senado?

O fato é que ainda olhamos para um país complexo e promissor com a cabeça da época analógica, de mercado protegido, desconfiado do que vem de fora, sonhando um Brasil potência com milhões mal educados, com universidades que desprezam a matemática.

Isso em plena era da fusão do digital com a economia real, a política e a cultura. Hoje tudo isso está junto e misturado. Não se trata separadamente.

A visão antiga é terminal nos EUA, na Europa, e tudo está mudando, razão de a direita ser a nova esquerda e vice-versa, como já falam intelectuais europeus. E nós? Ah! Nem chegamos ao sumário executivo das transformações. Selvageria e desalento são as consequências.

Sociedade cobra respeito

Superar nossas mazelas é o único caminho. A alternativa será pior, como os caminhoneiros mostraram. E mostram os 60 mil assassinatos por ano, as cidades dominadas por traficantes e milícias, ministros do STF (sobretudo quem solta malandro) e muitos políticos impedidos de andar nas ruas sem escolta para não serem agredidos ou vaiados.

Os candidatos prometem ajuste fiscal em maior ou menor grau, mas o simbolismo dos protestos aconselha que antes se eliminem benesses, como aposentadorias especiais, férias de 60 dias de magistrados, os desperdícios das estruturas inchadas das câmaras de vereadores, do Congresso, dos milhares de aspones comissionados do Executivo.

A sociedade cobra respeito e eficiência dos governantes, apesar de alguns desdenharem como moralismos de classe média. Ok. É legítimo pensar assim. Mas não só pensem. Digam isso também ao eleitor.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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