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ANTONIO MACHADO

22/09/2018 23:01 por Antonio Machado

Bolsonaro e Haddad lideram as pesquisas pelo que são, não pelo que o establishment quer que sejam

Os valores buscados pelos eleitores são bastante claros: resumem-se à segurança de sair e voltar para casa são e salvo e à expectativa de que amanhã será melhor que hoje

Enigma dos extremos 

A perplexidade dos analistas, dos caciques dos partidos e de setores da imprensa com a liderança nas enquetes de intenção de voto dos dois candidatos situados nos extremos do arco político tem razões menos prosaicas do que pretendem o senso comum e os seus adversários.

O enigma do momento político sugere um embate entre forças sociais à primeira vista inconciliáveis – de um lado, o ex-presidente Lula, representado pelo ex-prefeito Fernando Haddad; de outro, o deputado e capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro, que se apropriou do sentimento antipetista encenado pelo PSDB em anos eleitorais.

Ao todo, a intenção de votos atribuída a ambos reúne a maioria ou quase isso (saberemos no dia 7) dos eleitores, sendo este o enigma que importa. O que faz um vasto contingente de brasileiros preferir ou o ungido por um líder político acusado de corrupto e preso ou um deputado de sete mandatos e atuação obscura, conhecido pela defesa classista das corporações fardadas e pelas opiniões truculentas?

Aos comentaristas habituados a explicar eleições decididas entre o viés de esquerda interpretado pelo PT e o centro liberal pelo PSDB não deve mesmo estar fácil sacar o que vai à cabeça do brasileiro.

Avexados com a desatenção do eleitor, os concorrentes foram para o desespero, visando desconstruir a imagem dos dois e mesmo humilhar seus apoiadores. Seguidores de Bolsonaro seriam fascistas. Haddad é comparado a Dilma Rousseff, insinuando que seria outro desastre, e seus eleitores, cumplices de uma trama para acabar com a Lava Jato.

Ora, vamos combinar: não há quem dissocie Haddad de Lula e Dilma, cotada, aliás, a se eleger senadora por Minas Gerais. Já Bolsonaro virou pop star nas redes sociais exatamente pela sua sem cerimônia. Diz que “bandido bom é bandido morto”, defende a posse de armas, desanca o que chama de “gayzismo” etc. Fez dos ataques à cartilha do “politicamente correto” o trampolim para sair do anonimato e desafiar o tucano arrumadinho Geraldo Alckmin e o boca-dura Ciro Gomes.

Bolsonaro e Haddad estão com pinta de segundo turno pelo que são e não pelo que o establishment quer que eles sejam. Isso é o que interessa decifrar.

Cansaço do prato feito

Em vez de autocrítica e avaliação sobre os motivos do eleitorado, os líderes dos partidos tradicionais adotaram a tática do medo.

Em carta “aos eleitores e eleitoras”, FHC apela a que detenham o que chama de “marcha da insensatez”. Para ele, deve-se “revalorizar a virtude da tolerância”. Sua tese é válida.

“Qualquer dos polos da radicalização atual que seja vencedor”, ele escreveu, “terá enormes dificuldades para obter a coesão” que permita a “adoção das medidas que levem à superação da crise”. É isso. O país precisa de união.

Mas FHC, que já tentara sem sucesso unificar o centro político, soa pueril. “As demandas do povo se transformarão em insatisfação ainda maior, num quadro de violência crescente e expansão do crime”, disse ele, ameaçador. Só que o que FHC antevê já aconteceu e é por isso que Bolsonaro despontou.

O eleitor cansou do prato feito e mal servido.

Coincidências ignoradas

Haddad explora a expectativa dos bons tempos de Lula. Parece somenos para uma parcela da sociedade que a fartura não era sustentável e que a corrupção corria solta. Correu e corre com candidatos que continuam livres até com aval do STF, e, a ser assim, prevalece o pragmatismo.

Quanto a Bolsonaro, ele simboliza a ruptura do status quo político e a ideia da ordem, atraindo saudosistas do autoritarismo, desiludidos com os partidos (que ele nunca prezou), revoltados com a burocracia gulosa, o liberalismo dos costumes, a leniência com criminosos. Essa lista é vasta. Tão extensa que engloba também boa parte das queixas do eleitorado lulista, gerando coincidências pouco percebidas.

A falha de tantas análises é se fixar no candidato, não nos anseios que ele representa. O movimento que impulsiona Bolsonaro, sem partido real, com segundos no horário eleitoral, é maior do que ele. Tal como Lula, que transcendeu o PT ao criar laços diretos com os pobres.

O poder é do Congresso

Os valores realmente buscados pelos eleitores são bastante claros. O que se espera da política é que ela saiba filtrar a média dos anseios e se esforce em torná-los reais. Não há enigma: resumem-se à segurança de sair e voltar para casa são e salvo e à expectativa de que amanhã será melhor que hoje, e vida para frente.

Não se pede o impossível.

Mas não é razoável depositar tais esperanças nas mãos tão somente do presidente. Ele apenas executa, não manda, o que o Congresso aprova ou determina. Congresso submisso revela ignorância parlamentar sobre seu papel constitucional e aliciamento inescrupuloso, normalmente com acesso franqueado ao caixa do governo, pelo presidente de turno.

Um Congresso altivo é a garantia da lei e da ordem, além de freio às exorbitâncias dos poderes autônomos e das corporações de servidores. O voto no candidato a presidente, por isso, não vale mais que o voto para deputado e senador. Essa é a democracia em toda a sua plenitude.

Risco da obsolescência

Na balança dos pesos e contrapesos em que se equilibra a democracia, ao presidente importa mais a sua capacidade de gestão e de negociação que virtudes não previstas no ordenamento constitucional. É aí que um bom plano e visão política de longo prazo podem fazer a diferença.

Nesta seara, todos os candidatos deixam a desejar, já que assistidos por assessores do tempo em que o mundo era analógico e sem expertise sobre a maior deficiência do setor público: gestão para melhor servir à sociedade e não ser estorvo ao desenvolvimento da livre iniciativa.

Fala-se muito de ajuste fiscal, reforma tributária, todas áreas hoje dependentes da tecnologia. Se bancos, varejo e hospitais estão sendo transformados de alto a baixo pela tecnologia, por que só os governos não seriam afetados?

As instituições e as reformas usualmente faladas precisam adequar-se ao mundo digital para não se tornarem obsoletas.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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