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ANTONIO MACHADO

20/05/2018 00:51 por Antonio Machado

BC mantém a Selic a pretexto da alta do dólar, apesar da inflação anêmica e da economia sem tração

Volta do BC temeroso reforça a tese de que a política monetária não faz milagre, que câmbio não é Viagra para empresas acomodadas e não há como evitar as reformas

Coisas mal contadas

A história do dólar para o alto e economia para baixo se repete a cada ciclo de eleições gerais no Brasil e isso raramente tem a ver com incertezas políticas e causas externas, os vilões habituais segundo os analistas (ou seriam relações públicas?) do tal mercado.

Incerteza é regra em qualquer democracia, tal como a volatilidade do mercado financeiro e de capitais ou não seriam mercados livres.

Eleições não estremecem a economia nas democracias bem-sucedidas e a moeda local não fica anêmica frente ao dólar. Mas pode acontecer.

Só que, se uma eleição desordena a economia, isso se deve a causas reais antecedentes, não a expectativas. Ou bem a economia é sólida (ou assim é percebida) e aguenta desaforos, como o enorme corte de impostos nos EUA apesar do brutal déficit duplo fiscal e externo, ou está sustentada por pilastras de gesso.

É o caso da Argentina e da Turquia, cujas economias reagiram mal à modesta alta da taxa básica de juros nos EUA. Mas tal seria o caso do Brasil? Com a inflação em 12 meses muito abaixo da meta, crédito trancado, desemprego elevado, economia fraquejando, déficit externo comportado, reservas de divisas parrudas, US$ 380 bilhões, por que a depreciação cambial preocupa? Por que pressa? Qual a ziquizira?

Ficou a estranha sensação de que entre seguir azeitando a roda da atividade econômica sem tração, com 27 milhões de desempregados e subempregados, e os receios quanto ao reflexo das eleições sobre as contas fiscais (cujo déficit recorrente alimenta a dívida pública) o Banco Central preferiu pagar para ver o resultado das urnas.

Já desinflou a Selic de forma inédita, trazendo-a de 14,25% ao ano em setembro de 2016 (com inflação em 12 meses de 8,48%) para 6,50% (e inflação anual de 2,76%). A Selic recuou 7,75 pontos percentuais no período e a inflação, 5,72 pontos, o que significa que a taxa de juro básica deflacionada cedeu menos, só 1,7 ponto de percentagem.

Não se despreza o trabalho do BC. A credibilidade da diretoria sob a chefia de Ilan Goldfajn é amplamente reconhecida. Mas nem a Selic está em consonância com o ritmo excessivamente frio da economia nem induziu a baixa do custo do crédito, que continua caro e seletivo.

Dólar forte como álibi

O que o dólar tem a ver com isso? Pois é. Não seria improvável que o BC tenha se valido da depreciação cambial como álibi para não ter de falar de algo muito mais delicado e mal resolvido: o déficit das contas fiscais do governo e seu impacto sobre o giro dos títulos de dívida do Tesouro, cujo custo é referenciado pela taxa Selic.

Nenhum país é imune a trancos cambiais. Mas essa não é a questão. A pergunta relevante é o motivo de o Banco Central se alarmar com a valorização do dólar de 12% em relação ao real este ano e, alegando “reversão” do bom cenário externo para economias emergentes, manter a Selic em 6,50% na última reunião do Copom. Ficou sem sentido.

Esperava-se outro corte, para 6,25%, que seria o último até o fim de 2018. O presidente do BC acenou com isso dias atrás, em sintonia com as bases do regime de meta de inflação. Se cresce, os juros vão atrás; se desinfla e os fatores que a condicionam estiverem fracos, alivia-se o arrocho até que a taxa vulgo Selic devolva a inflação ao intervalo entre o piso da meta (3%) e seu ponto central (4,50%).

O contexto não convence

Ora, a inflação em 12 meses acumula alta de apenas 2,76%. Não há, também, maiores riscos, já que a economia brasileira é uma das mais fechadas do mundo a importações, o canal direto para os repasses de custo devido ao dólar mais caro. O próprio BC pareceu confuso.

A nota explicativa da decisão diz que, com Selic de 6,50% e câmbio de R$ 3,60 por dólar (média dos cinco dias anteriores à reunião do Copom), a tendência é que a inflação feche ao redor de 4% este ano e em 2019 (quando a meta será de 4,25%).

A ser isso, foi nonsense deixar a Selic estacionada com a economia a meio pau, sem inflação e desemprego alto, como diz o BC, no “cenário relevante de tempo”.

Como um elefante biruta

É na intersecção entre a gestão da política monetária pelo BC e da dívida pelo Tesouro Nacional, ambos sentindo o bafo no cangote dos operadores do mercado de títulos, que deve estar o que a lógica não explica. Volta-se sempre ao mesmo ponto: Tesouro federal endividado e governo desarvorado comprometendo a soberania monetária do país.

Como parte do dinheiro que irriga o papelório do Tesouro é errante e vem de fora, dê-lhe juros para não tomar outro rumo, como os EUA, que voltaram a adubar o ‘capinancismo’. Mas o dólar não é o vilão e, sim, o financiamento do Tesouro – e ainda há candidato que dá de ombros ao furo da previdência, aos abusos salariais da burocracia, ao bolsa-empresário e outros disparates. E o que virá?

O dólar vai seguir forte e os cenários da inflação serão revistos, puxando os preços. Um elefante biruta não faria melhor.

Janet Yellen sem censura

A volta do BC temeroso reforça a tese de que a política monetária não faz milagre, que câmbio não é Viagra para empresas acomodadas e não há nota de rodapé na obra de Keynes que valide endividamento de 87% do PIB (na conta do FMI) com déficit fiscal de 7% do PIB e ônus de juros da ordem de 7% a 8% do PIB todos os anos (contra menos de 2% do PIB nos EUA) ou mais de R$ 500 bilhões.

Não pode dar certo.

O provincianismo das ideias e a aversão em assimilar o novo estão entre nossos maiores problemas. Nesta semana, em Nova York, durante palestra a convidados do Banco Itaú, a ex-presidente do Fed Janet Yellen questionou a relação entre política monetária e inflação.

É o que dizem há tempos os economistas André Lara Resende e John Cochrane, de Stanford, chocando a ortodoxia no Brasil. Tais coisas, além de progressistas que apoiam privilégios de classe, professores prisioneiros de ideologias, sindicalistas que defendem mordomias – tudo isso explica nossa pobreza mental, cultural, moral e real.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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