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ANTONIO MACHADO

16/06/2018 23:37 por Antonio Machado

As reformas vão acontecer. Ou pelo modo autoritário ou democrático. As urnas é que vão dizer

Reflexão sobre o curto tempo até as eleições envolve duas visões – a certeza de reformas profundas e o papel, ou não, de Lula nas formulações, seja lá onde esteja, solto ou preso

Um parto de risco 

A três meses e meio das eleições o mapa eleitoral se apresenta como um deserto de candidatos e ideias entusiasmantes. O que há em cartaz são como filmes antigos reprisados à exaustão para uma audiência já entediada e com a perturbadora sensação de que vamos muito mal.

Os candidatos a líderes de um país em regressão social, econômica, cultural e moral continuam a martelar as ideias que marcam o nosso subdesenvolvimento, assentadas em transferências de renda a grupos viciados em subsídios ou incapazes de competir com a sua competência.

Falam de moeda desvalorizada para reindustrializar a economia, não na inovação tecnológica que cria indústrias sofisticadas na Ásia e sustenta o poderio industrial europeu com euro valorizado, mercados abertos e políticas de bem-estar inigualáveis. Tudo o que não temos.

Propõem a volta dos juros subsidiados em apoio a grupos defasados ou estrangeiros, cujos programas tecnológicos estão nas matrizes e nas filiais em países com uma genuína estratégia de desenvolvimento, como China, Coréia do Sul, Alemanha. Afora as exceções de sempre (Natura, Embraer, Ambev etc.), sobrou-nos um parque industrial acomodado.

Mais desanimador é ouvirmos essa gente se dizer “progressista”, com aval de economistas que disparam contra as “elites” de modo genérico, ignorando o contingente que explica a brutal concentração de renda no país - magistrados, procuradores, executivos de estatais, políticos e seus apaniguados, além da vanguarda do atraso do rentismo e do campo.

Essa é a frente que conspira contra o progresso, cria dificuldade ao desenvolvimento inclusivo, sufoca os reais empreendedores e gera toda uma cultura no setor público de busca do enriquecimento pessoal e de acumulação de privilégios como nobres acima do poder popular.

Fazem-no com método, infiltrados em partidos e movimentos ditos de esquerda, com a cumplicidade de grupos econômicos, sindicalistas e intelectuais. Em comum, a aptidão em exercitar o discurso do “tudo pelo social”, disseminar a crença de que só o Estado pode prover a felicidade, fomentar a desconfiança em relação a ações da sociedade e fazer do estatismo-nacionalismo uma fé, e eles, os seus pastores.

PT e PSDB se perderam

Nem sempre foi assim. Até o seu primeiro governo, Lula e o PT viam com suspeição sindicatos de colarinho branco, o contubérnio entre a nata do empresariado nacional e a banca estatal e guardavam distância de banqueiros e ruralistas. Ignoraram a prudência ao se amancebarem com os partidos fisiológicos para formar maioria no Congresso.

O petismo foi se amoldando ao que repudiava, ao mesmo tempo em que os adversários derrotados em 2002 sofriam a recaída da emedebização - a regressão do PSDB ao ventre do PMDB do qual saiu.

Esses são os polos da política - diretos, por meio de seus candidatos (faltando a Lula nomear o sucessor ou dar apoio a outro partido), e indiretos, já que os demais pontuados são, em geral, egressos de um desses blocos.

As pesquisas que põem Lula na liderança da corrida presidencial dão duas indicações. Uma delas sustenta os que querem libertá-lo na marra. A outra tenta convencê-lo a emprestar seu apoio a alguém de dentro ou de fora do PT. Os governadores e os nomes cabeça do partido tendem a este cenário. No outro estão os mais à esquerda e sem votos.

Fisiologismo é o inimigo

A reflexão sobre o curto tempo até as eleições considera duas visões – a certeza da necessidade de reformas profundas, tanto na economia, como na política e na gestão do Estado brasileiro, além do papel, ou não, de Lula nas formulações, seja lá onde esteja, solto ou preso.

O princípio é que o país se tornou ingovernável e que as reformas se tornaram essenciais, resumindo a cacofonia de candidatos a dois polos de embates - o da reforma autoritária e o da reforma democrática.

Num caso, o candidato está consolidado, é o deputado Jair Bolsonaro, cuja inserção no eleitorado e retaguarda de apoio são mais fortes do que a imprensa informa. No outro se digladiam os candidatos de centro.

Não está efetivamente em debate a questão de mais ou menos Estado e, sim, do Estado que funcione e em que as corporações estatais sirvam à sociedade em vez de serem servidas por ela. Isso é o que distingue a direita conservadora e a esquerda sincera do resto fisiológico.

Reforma exige conciliação

E vem cá: dá para ignorar as reformas, deixar a previdência para lá? Não, não dá. Para começar, o ajuste fiscal é para liberar verbas que possam ser investidas e cortar a submissão do Tesouro à especulação.

O país gastou de juros nominais de 2008 a maio R$ 2,9 trilhões, diz o economista Fernando Montero. Ele também projetou o que acontece se o gasto público real seguir congelado ou crescer 2% ao ano, com o PIB avançando largos 3,5% anuais. O déficit primário seria zerado em 2021 e o superávit de 2%, com o qual a dívida para de crescer, atingido em 2025, no primeiro caso. No segundo, em 2027 e 2036, respectivamente.

Está aí. Sem reformas não haverá amanhã. E elas exigem conciliação.

Surpresas são bem-vindas

Ok, mas qualquer reforma tira direitos e esfola os mais pobres, não é? Não, não é. Privilégio, mesmo garantido em lei, não é direito, é insulto à cidadania.

Ou há “reintegração de posse” do governo para o governante eleito governar ou as coisas vão azedar em 2019. Simples.

Quanto à macroeconomia, a tecnologia dá meios para cobrar tributos sem risco de sonegação nem necessidade de auditar o contribuinte. E permite processar pagamento sem o cipoal de taxas dos cartões.

Mais: permite gerir cadastros sociais com foco no social e monitorar o que se passa com todo o circuito do gasto público em tempo real. O mundo já está nesta direção. Candidatos e partidos é que estão atrasados.

Ou não? Surpresas são bem-vindas. E o jogo para valer mal começou.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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