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ANTONIO MACHADO

30/06/2018 22:54 por Antonio Machado

Alienação eleitoral é função da desilusão e da pouca criatividade dos líderes políticos

Maioria da sociedade repele privatização, cobra mais gasto público, mas ninguém indaga o que importa: quer-se mais governo ou apenas um Estado que funcione?

Recado do não voto 

Não faltam distrações no país, mas, sem querer ser chato, o dia da decisão sobre o que será dos próximos quatro anos se aproxima e a desinformação entre os eleitores continua gigantesca. Ou não seria tão alto o número dos que dizem não ter candidato a presidente, nas pesquisas espontâneas - nem para deputado, senador e governador.

O flagrante desinteresse da sociedade alcança taxas dramáticas. Na última sondagem do Ibope, uma densa maioria de 59% dos inquiridos não nomeou ninguém, ao serem instados a indicar algum candidato.

Isso significa que o próximo presidente vai governar com uma nesga de apoio popular. Como, aliás, foi o caso de Dilma Rousseff em 2014 (e teria sido de Aécio Neves, se as urnas lhe sorrissem). O segundo turno não forja maioria, só disfarça a insatisfação do eleitor.

Até 7 de outubro isso pode mudar um pouco, mas sem alterar o quadro de apatia.  Na pesquisa estimulada, em que os nomes dos candidatos são identificados, o não voto somou 41% no cenário sem Lula (preso, portanto, inabilitado - ponto) e 28%, se pudesse concorrer. É gente demais desgostosa com o cardápio eleitoral, e isso é preocupante.

Há razões de sobra para o sentimento de desesperança, mas é pouca a compreensão sobre as causas do fracasso dos governantes em organizar a produção de riquezas, facilitar a mobilidade social de baixo para cima por meio da educação, apoiar a quem precisa, impor a ordem etc.

Criou-se a impressão de que a corrupção seria a razão de todos os males, que políticos não prestam, que empresas privadas só pensam no próprio interesse e outras mazelas assemelhadas, todas com algum grau de veracidade, mas longe de explicar a verdade.

O fato é que desde sempre os interesses dos dirigentes do Estado e dos setores econômicos beneficiados por tal arranjo vieram à frente do bem coletivo, corrompendo, conforme a época e a conveniência dos donos do poder, os conceitos do desenvolvimento com bem-estar.

E assim estamos, presos ao subdesenvolvimento, caçando culpados na política, enquanto a elite da burocracia mantém seus privilégios, a economia atola, as expectativas sociais se esvaem, a violência toma conta de tudo e as mesmas ideias fracassadas são apresentadas como redenção de um país estagnado e que envelhece sem ter enriquecido.

Sanguessugas da sociedade

A alienação eleitoral tem mais a ver com desilusão que com a baixa representatividade dos partidos, embora isso também seja verdade. É fato, mas já não basta como explicação. Nem há tempo para tanto.

Se houvesse, os líderes políticos deveriam explicar que no Brasil o nacional-estatismo sempre foi biombo para proteger a elite dirigente de empresas e bancos estatais, enquanto se espalhava à sociedade a falsa noção de que seriam bens sociais contra a ganância privada.

A Lava Jato desnudou tal ficção, mas relativizou a culpa original da estrutura estatal, ao focar a corrupção de pessoas, em especial dos políticos, deixando de responsabilizar as corporações do Estado nos desmandos. A ocasião faz o ladrão, sabemos, mas corrupção sistêmica como vista nos últimos anos não surge do acaso e, sim, de sistemas viciados, amorais e profundamente antissociais no âmago do Estado.

Nó é político, não técnico

A formulação dita neoliberal tem parte da culpa nestes eventos, ao supor uma racionalidade que nem os mercados possuem, ou Wall Street não teria ido à lona na grande crise bancária de 2008. Poupem-nos.

Do quê? De buscar soluções pretensamente técnicas para a ausência de decisões políticas. Um exemplo? O teto constitucional para a expansão dos gastos fiscais, limitados à inflação nos próximos 20 anos, em vez de tratar os recursos públicos como bens escassos e preciosos, dando a cada despesa o escrutínio que todos damos ao dinheiro de cada mês.

As pesquisas revelam que a maioria da sociedade repele privatização, cobra mais gasto público, repudia mais impostos, mas ninguém indaga o que importa: quer-se mais governo ou apenas um Estado que funcione? E a má imagem das empresas privadas? É real ou fruto de educação enviesada por professores despreparados? O perfil empreendedor de boa parte da população reforça a dúvida, e sugere a solução: menos burocracia.

Soluções não convencionais

O que se impõe para 2019, e há líderes políticos conscientes disso, são medidas fora da caixa já em uso em vários países.

A arrecadação tributária, por exemplo, pode migrar para um sistema não declaratório pelo contribuinte, com cobrança em tempo real, abolindo-se o risco de sonegação, inadimplência e a complicação atual. O ônus tributário de 33% do PIB, sem ajustes, poderá chegar a 45% do PIB, e teria de cair.

O mesmo modelo de plataforma digital se aplica à gestão de cadastros sociais, à execução orçamentária, ao crédito, liberando um sem número de inovações. Esse é o mundo em transformação que o ranço burocrático e o despreparo dos políticos e intelectuais nos impedem de ver.

Estatais a quem de direito

Fato é que a tecnologia vem dando um nó nas velhas formulações não só aqui, já que o fenômeno é global. As redes sociais aproximaram as opiniões dispersas, a inteligência artificial encontra padrões onde antes havia só números, e tudo isso impele rupturas gerais, da gestão de governos e empresas à geopolítica e ao comportamento social.

Tomem-se as empresas e bancos estatais. Hoje, elas são dos funcionários e da rede de interesses que lucra com elas.

Ou privatiza ou... Sim, passem-se as ações do Estado para contas de cada brasileiro adulto num fundo de previdência, creditando-se nelas os dividendos, maximizados por gestão privada por meio de acordo de acionistas. Criaríamos um país de sócios efetivos da economia, que é um dos temas quentes em discussão nas democracias avançadas. É isso.

O que nos falta é tomar de volta dos chupins o Estado brasileiro.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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