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ANTONIO MACHADO

22/11/2014 23:55 por Redação

A ortodoxia fiscal deve apoiar a agenda do crescimento guiado pela tecnologia e pela inovação

Eficácia do ajuste orçamentário depende do apoio que puder dar ao crescimento. Mas é preciso também instigar a criatividade no meio empresarial e político

 Depois de idas e vindas entre Lula e Dilma Rousseff sobre o futuro titular do Ministério da Fazenda, peça decisiva para o sucesso ou a frustração do quarto governo petista desde 2003, as expectativas se voltam para a autonomia que a nova equipe econômica deverá ter para formular a estratégia de ajuste fiscal e o programa de crescimento.

 Quanto menos livre for, maiores serão os riscos, já que a equipe atual sai sem honra ao mérito, boa parte devido à baixa capacidade de argumentação frente às crenças economicistas de Dilma e ao viés dirigista do PT sobre o capital privado. Quanto mais focada no lado fiscal, que implica colocar a sociedade a reboque dos interesses do Tesouro Nacional, além disso, a ansiedade por bons resultados tende a ser intensa, podendo deslegitimar o novo time em pouco tempo.

 O cronômetro do governo que tomará posse em 1º de janeiro já está correndo, sem parada técnica, negada a presidentes reeleitos. Sua prioridade antecedente é a constrição fiscal. Sem dar atenção para o descompasso entre o ritmo de expansão do gasto público e o baixo crescimento econômico, que tende à estagnação estrutural, a próxima administração começará errante. Mas só priorizar a ortodoxia fiscal será insuficiente, embora deva receber aplausos da ponta midiática dos males da economia - o mercado financeiro e as suas cassandras.

 O governo petista não dispõe de visão atualizada sobre o que está dirigindo os novos modelos de negócios no mundo, capitaneados pelos grupos empresariais da China e EUA, com apoio de algumas políticas públicas. Já no Brasil, os debates estão excessivamente pautados pelas questões macroeconômicas, com muita teoria e pouca prática.

 Das ações existentes, poucas contemplam os progressos tecnológicos envolvendo a inteligência artificial e a robótica, as redes sociais como fator de ruptura de modelos de negócios tradicionais, as novas energias, as redes produtivas globais e o capital sem fronteiras – os eventos, e há muitos mais, que configuram a grande transformação na direção oposta à da estagnação que assombra a economia global.

Narrativa desatualizada

 Essa agenda é essencialmente empresarial e ela está acontecendo lá fora sem que o governo e as empresas brasileiras se apercebam. Mais uns dois anos assim e o país entrará num viés declinante difícil de ser revertido mesmo com o pré-sal - recurso que está, aliás, no rol dos investimentos sob o risco da obsolescência em poucas décadas.

 Estranho é que um governo preocupado com o marketing de massas não tenha inserido na agenda nacional essa narrativa da tecnologia, da inovação e da qualidade como conceitos de valor tratados em pé de igualdade com as questões da macroeconomia. Se não os usa, é porque lhe falta familiaridade com tais desenvolvimentos. Dilma deveria dispor de conselhos multidisciplinares ao menos para se informar.

Condições do crescimento

 Em discurso esta semana, Dilma voltou a destacar seus desejos para o novo mandato: mais inclusão social, mais emprego, a estabilidade política e econômica, o investimento em educação e infraestrutura. Nada disso constitui política de governo, como ela sugeriu. São os resultados do governo que vier a imprimir, sabendo de antemão que o modelo atual está com a sua data de validade vencida.

 A contribuição do ajuste fiscal para o lado real da economia está na confiabilidade que venha a transmitir às projeções dos planos de negócios privados e públicos, normalmente simulados com cenários de três a cinco anos de marcha do PIB, da inflação e do dólar. Se não distribuir o que nem foi produzido, como nos últimos anos, segundo o ex-ministro Antonio Delfim Netto, o orçamento entra no eixo, a economia volta à normalidade e o crescimento se acelera.

Agenda da transformação

 A eficácia do controle fiscal está condicionada ao apoio que puder dar ao crescimento. Mas é preciso também instigar a criatividade no meio empresarial e político, visando mudar percepções e fomentar um ambiente transformador da realidade econômica acanhada, de modo que o desenvolvimento volte a despontar como aspiração nacional.

 Estabilidade econômica, gestão pública de qualidade (sobretudo nas áreas sociais) e crescimento guiado pela inovação, associado com um governo aplicado em remover os obstáculos à iniciativa privada e ao progresso pessoal, podem criar uma onda desenvolvimentista superior ao trabalhismo que se exauriu e tende a ameaçar os avanços sociais.

 Qual a contraprova disso? O contraste entre a representatividade do país no mundo e os resultados. Países menos dotados de riquezas têm obtido mais e melhor retorno graças aos recursos intangíveis, como a educação. É essa a agenda que nos desafia enquanto nação.

Área técnica será melhor

 Dos nomes que deverão compor a equipe econômica, os principais são próximos ao governo, apesar de rusgas pontuais com Dilma - Joaquim Levy, titular do Tesouro entre 2003 e 2006, e Nelson Barbosa, que foi vice-ministro da Fazenda. Ambos têm sólida formação, o respeito do mercado e a reputação de minuciosos com as contas fiscais.

 Executivo do FMI nos anos 2000 (onde monitorava países europeus) e ex-secretário da Fazenda do Rio, Levy hoje dirige o Bradesco Asset Management. É o braço de ativos do Bradesco, cujo presidente Luiz Carlos Trabuco recusou convite para ocupar a vaga de Guido Mantega. Nem deveria ter sido cogitado. Trabuco se prepara para assumir em até três anos a direção do Conselho de Administração do Bradesco.

 Na área técnica o governo estará mais bem servido que hoje. Mas o meio de campo com o empresariado seguirá fraco, fiando-se nos nomes cotados para a antiga pasta da Indústria e do Comércio. Ficará elas por elas: as maiores entidades empresariais (Fiesp, CNI, CNC etc.) também enfrentam sério problema de baixíssima representatividade.

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