Home > ANTONIO MACHADO > A maior aposta do pré-sal vai começar em meio a cenário desafiador e complexo da energia no mundo

ANTONIO MACHADO

20/10/2013 01:00 por Redação

A maior aposta do pré-sal vai começar em meio a cenário desafiador e complexo da energia no mundo

A 160 km da costa e a até 9 mil metros da linha d’água ao subsolo, o óleo de Libra, o megacampo que vai a leilão, é negócio de risco e custo-dependente

 Quarenta anos depois de o primeiro embargo do petróleo completados este mês virar o mundo de ponta-cabeça e forçar transformações boas e más ainda em processo, o leilão do campo de Libra, um maciço de 8 a 12 bilhões de barris de óleo recuperável na área do pré-sal, é a primeira grande oportunidade de o país alavancar a riqueza nacional e se tornar um fornecedor maiúsculo de energia no mercado mundial.

 Se bem-sucedidos o leilão, o plano de negócios para exploração de petróleo e gás pelo inédito contrato de partilha e o investimento estimado em US$ 80 bilhões nos primeiros dez anos da fase pioneira, com pico de produção de 1,4/1,6 milhão de barris/dia por volta de 2027 (70% a 80% da geração atual da Petrobras), só governos muito trapalhões e ineptos poderão afundar no oceano Atlântico a vontade nacional de o país ascender ao estágio das nações desenvolvidas.

 O pré-sal é ainda uma promessa de receita potencial, cujos sinais promissores serão confrontados pelo grau de dificuldades. Sabe-se que há petróleo em grande volume, coisa da ordem de 80 bilhões de barris, mas a 160 quilômetros da costa, sem nenhuma base de apoio de terra firme próxima, numa região sujeita a abalos sísmicos e a profundidades de 5 mil a 9 mil metros da superfície ao subsolo.

 A tecnologia, os equipamentos, os materiais, a qualidade de gestão e da mão-de-obra e a logística exigidas em tais condições fazem da exploração do pré-sal um evento ciclópico único (sem ufanismo). E custo-dependente. Ao preço atual de mercado, de US$ 100 por barril, compensa o esforço monumental. Menos que isso é arriscado.

 O Brasil encontrou a viabilidade do pré-sal em 2006, coincidindo com a disparada nos EUA, maior consumidor de combustível fóssil do mundo, de tecnologias de exploração de formações não convencionais de hidrocarboneto, sobretudo gás de xisto, e recuperação de campos esgotados. A produção só cresce desde então. Já supera, em barris equivalentes de óleo, gás e etanol, a da Rússia, o maior produtor, e da Arábia Saudita, maior exportador e segundo em produção.

 A gradativa diminuição das importações dos EUA tem se dado como o reverso da China, já o maior importador mundial de petróleo. Não é à toa que as três petroleiras estatais chinesas se habilitaram ao leilão de Libra. Nenhuma dos EUA se apresentou. Sinal dos tempos, tal como o aumento da produção de energias renováveis e a queda do consumo de petróleo e carvão por unidade industrial e per capita.

Rivais ganham terreno

 Tudo é desafiador no mundo em termos de energia, especialmente das “sujas”, como petróleo e carvão mineral - este, principal insumo da geração de eletricidade na China e, pouco menos, nos EUA. A pressão ambiental tem sido crescente, enquanto na direção inversa é cadente o custo da energia eólica e solar, para geração de eletricidade, e de biocombustíveis, para o consumo alternativo em transportes.

 Em 2012, a produção das energias renováveis no mundo, em termos de óleo-equivalente, atingiu 3,6 milhões de barris/dia, comparada a 85 milhões/dia da indústria de petróleo, segundo estudo publicado na Foreign Policy. A produtividade energética é outra tendência forte, assim como o aumento da participação do gás e da energia nuclear.

Provando o mesmo veneno

 Em 1973, segundo estudo do Manhattan Institute, o petróleo supria 48% da energia consumida no mundo. Hoje, fornece 33%. E quanto mais as fontes alternativas crescem e o desperdício diminui, menor o poder da OPEP para impor o preço do petróleo regulando a produção.

 Em meio a esse pano de fundo complexo de uma atividade em mutação, sob a ameaça em 20 a 30 anos das energias limpas, assombra a falta de discernimento de sindicatos ligados à Petrobras, de partidos de esquerda e de lobbies diversos, ao criar o ambiente de conflagração em torno do leilão de Libra. A presidente Dilma acionou o Exército para proteger o leilão, no Rio. Ela fez o certo, mas provou o mesmo veneno aplicado pelo PT às privatizações no governo FHC.

Crítica é desarrazoada

 Os argumentos dos críticos são ineptos. A partilha, ao contrário da concessão, assegura ao governo o mínimo de 41% da produção (após custos), e à Petrobras, ao menos 30% do consórcio vencedor (vence o que ceder mais óleo ao Estado). Ela também é a operadora única. E o Tesouro recebe R$ 15 bilhões a título de bônus, pagos à vista. Tais termos são leoninos, não “gorjeta”, como criticou um sindicalista.

 Se crítica há a fazer é à demora a sair o leilão, talvez à mudança do regime de concessão para partilha na área do pré-sal (um aumento robusto de taxas e tributos levaria a resultados assemelhados) e, enfim, à exaustão da Petrobras devido ao congelamento da gasolina, que ela importa (por falta de capacidade de refino) a preço maior do que vende. Quem torce contra deveria é rezar. Se o pré-sal for menos do que dizem, que não seja outra história de cavalo-selado.

China quer tudo e mais

 O negócio do petróleo é cheio de mistérios, conspirações, guerras são travadas em seu nome, a espionagem é regra, até o governo e a Petrobras teriam sido alvos de agências de inteligência dos EUA e do Canadá, algo pouco compreendido, dado o desinteresse da Exxon e Chevron, as grandes petroleiras “ianques”. Do velho clube das “Sete Irmãs”, Libra atraiu só a anglo-holandesa Shell e a francesa Total.

 A expectativa é que as estatais chinesas não só levem o pré-sal de Libra como parte do “pós-sal”, financiando o quinhão de investimentos da Petrobras e o bônus de assinatura em troca de um bocado maior de petróleo. A Petrobras já envia 200 mil barris/dia à China para pagar US$ 10 bilhões emprestados por dez anos.

 A relação de dependência dos chineses, para o ex-governador José Serra, é um “absurdo”. Alguns arguem algo assim das privatizações de seu PSDB. Fato é que o pré-sal é negócio para leão, felinos de fina estirpe deram de miar, e o tempo do petróleo está passando. Fazer o quê?

'
Enviando