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ANTONIO MACHADO

28/10/2017 23:03 por Antonio Machado

A 7ª maior economia do mundo e sem problemas colossais não poderia flertar com o fracasso

Por que, apesar da crise política, a economia voltou a crescer? Porque as empresas e a sociedade deram as costas para Brasília, onde sobram burocratas e falta sociedade civil

Artífices do caos

Vamos combinar, como se diz em linguagem coloquial: o país é muito melhor que os governantes e parlamentares eleitos nos últimos anos para dirigi-lo, além da extensa burocracia selecionada por concurso para gerir o Estado, servir à sociedade e arbitrar os conflitos.

A sétima maior economia do mundo, a única democracia, ao lado dos EUA, com extensão continental, uma só língua e um mercado de massa, sem conflitos étnicos, religiosos e geopolíticos, autossuficiente em alimentos e energia, não poderia flertar com o fracasso tendo um rol de problemas menor que o de países em paz com a prosperidade.

Como Índia, que abriga uma população seis vezes maior que a nossa numa área 61% menor, tem 22 línguas, ocupa o 122º lugar no ranking global por renda per capita (e Brasil, o 76º), mas é o único grande país que cresce no rastro da China, cujo PIB passou o dos EUA pelo critério de paridade e está colado na medição em dólar nominal.

Sem olharmos para o sucesso dos outros jamais saberemos as causas de nossas desventuras.

Não é o conflito político, latente na índia – uma democracia federativa mais complexa que a nossa - nem ameaças externas, das quais carecemos, enquanto os indianos desenvolveram bombas nucleares para se contrapor ao também nuclearizado Paquistão (surgido de uma costela da Índia) e tem fronteiras mal resolvidas com a China, com a qual já se envolveu em confusões militares.

A China é uma ditadura de partido único, embora com troca regular de lideranças, exerce censura férrea sobre a imprensa e a internet, não há sindicatos livres nem eleições gerais, tem o maior orçamento militar do mundo depois do dos EUA. Ainda assim funciona. Por quê?

Não se diga que se deve ao autoritarismo. A Índia promove eleições mais acirradas que no Brasil desde a independência da Inglaterra. Não se alegue que em tais países o Estado é mínimo. A burocracia da China é enorme e há miséria extrema na Índia. A olho nu, porém, as semelhanças entre eles são claras. E não por acaso elas nos faltam.

Coesão pelo progresso

Os fatores distintivos do desenvolvimento asiático não são únicos, já que existentes em maior ou menor grau na Europa, EUA, Japão e em pequenos potentados econômicos da Ásia e Oceania. A coesão em torno do desenvolvimento é o traço mais marcante. A disputa se dá mais em torno da divisão do excedente produzido que do modo do crescimento.

Tem de haver antes o que distribuir, o que faz os emergentes bem-sucedidos serem os que mais investem no mundo como proporção do PIB e da renda gerada. O fluxo do emprego vem do avanço produtivo antes da prevalência do consumo - o perfil das economias já maduras, como EUA, mas também do Brasil, que envelhece antes de ter enriquecido.

A pertinácia em alcançar os níveis de civilização e bem-estar das velhas democracias é o projeto unificador. O setor público é parte dessa construção em harmonia com os governantes, com os quais se confunde, o empresariado, os trabalhadores e a sociedade em geral.

Supremas mediocridades

Tais princípios parecem banais, e são, já que não há nação forte e próspera sem instituições comprometidas com o desenvolvimento. Mas o que dizer de um país em que a corte suprema transfere o “feriado” do dia dos tribunais superiores, que cai no sábado que vem, para a sexta-feira da semana seguinte, permitindo emendar com as folgas de 1º de novembro (do “dia do Judiciário”) e a data de Finados?

Não há seriedade neste ato, como disse em oficio à presidente do STF, Carmen Lucia, o ministro Marco Aurélio. É a mesma corte em que dois ministros trocaram ofensas dias atrás, põe a nação em suspense ao delongar o julgamento de políticos acusados pela Lava Jato e, na cara dura, invade prerrogativas do Congresso ao julgar legislando.

É também a corte em que um ministro engavetou ação que questiona a mamata do auxílio-moradia indiscriminado a juízes e procuradores. Não são casos isolados, mas evidências recorrentes que explicam o nosso subdesenvolvimento econômico e indigência política e social.

Brasil demitiu Brasília

E assim chegamos ao centro da estagnação econômica e regressão do processo civilizatório: o crescente afastamento do setor público e dos poderes autônomos do anseio da sociedade por uma vida melhor e progresso contínuo. E a corrupção? Não é maior do que na Índia e na China, onde o atual presidente promove uma faxina moral no governo e no Partido Comunista (sim, a China é nominalmente marxista).

E por que, apesar dessa crise política brutal, a economia voltou a crescer? Porque a miríade de pequenas empresas e a sociedade deram as costas para Brasília, onde abundam burocratas e falta sociedade civil. Ou se faz o equilíbrio, retraindo não necessariamente o peso do Estado, mas o seu poder, ou não vamos desencalhar.

A ideologia estatista e populista nos exauriu e seus adeptos falseiam os fatos com discursos sem substância e ocos de soluções. Fiquemos espertos.

Os condutores sem noção

Ao que devemos ficar atentos? Ao que e a quem se posta como “juiz” da dignidade social, por exemplo, à custa da iniciativa privada. A portaria que clareia, sem derrogar, o conceito de trabalho “análogo à escravidão”, questão sujeita ao arbítrio de fiscais, expôs nacos do poder público que não se veem responsáveis pela produção e pela renda nacional.

Esse é o crime cuja gravidade precisa ser admitida.

Abriram a porta para que os competidores internacionais boicotem importações, servindo-se de pareceres tipo não li nem vi da ONU, da OIT, de artistas. Por que não denunciam as condições degradantes do trabalho na China? Na Índia? Porque seus governantes preservam sua soberania e condenam traidores da pátria.

Não se trata de legalizar ilícito, mas de salvaguardar as empresas de autuações arbitrárias. Quem leu a portaria Nº 1129 do Ministério do Trabalho? Na imprensa, pouquíssimos. Nas redes sociais, então... E assim vamos indo ladeira abaixo, guiados por uma gente sem noção.

*Antonio Machado é jornalista, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas, editor do Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br)

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