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31/03/2016 13:21 por Redação

No relatório trimestral de inflação, BC mantém tom de cautela

Por ora, redução da Selic parece descartada, mas taxa básica de juros poderá encerrar o ano em 12,25%

Depec-Bradesco*

O Relatório Trimestral de Inflação (RTI) do primeiro trimestre, divulgado hoje pelo Banco Central (BC), reforçou novamente a sua preocupação com a deterioração do balanço de riscos da economia. Na nossa visão, o BC chama a devida atenção para os riscos que justificam a sua especial vigilância em relação à dinâmica dos preços no Brasil, afastando por ora a possibilidade de cortes da taxa Selic. A autoridade monetária tem por obrigação mostrar que sua função precípua é a de circunscrever a trajetória da inflação aos limites estabelecidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Toda a sua comunicação vem sendo feita nesse sentido para que não pairem dúvidas quanto ao seu comprometimento em relação à estabilidade de preços.

Leia: BC prevê retração de 3,5% da economia este ano, com inflação de 6,6%.

Na avaliação do BC, existem riscos significativos à concretização de um cenário inflacionário benigno à frente, especialmente relacionados à recuperação dos resultados fiscais e ao comportamento da inflação corrente e expectativas dos agentes econômicos. Por outro lado, as incertezas elevadas no cenário internacional e doméstico “demandam monitoramento para definição dos próximos passos na estratégia de política monetária”. Desse modo, o comitê avalia “essas condições não permitem trabalhar com a hipótese de flexibilização monetária, e que adotará as medidas necessárias de forma a assegurar o cumprimento dos objetivos do regime de metas, ou seja, circunscrever a inflação aos limites estabelecidos pelo CMN, em 2016, e fazer convergir a inflação para a meta de 4,5%, em 2017”. 

Ainda assim, permanece a visão da autoridade monetária que o hiato do produto encontra-se em patamar desinflacionário, resultado da retração da atividade econômica em ritmo mais acentuado que o inicialmente previsto. Adicionalmente, ressalta que os preços dos ativos domésticos (em especial o câmbio) evoluíram de forma favorável desde o último relatório, ainda que seu impacto sobre a inflação doméstica dependa da perenidade desse movimento. De qualquer forma, acreditamos que a força da recessão da economia brasileira– acentuada pelo contexto global muito deprimido – e a perspectiva de descompressão da inflação corrente nos próximos meses deverão aumentar a convicção do BC de que há espaço para uma redução da taxa de juros. Nesse sentido, o BC revisou suas projeções para o PIB deste ano, de uma retração de 1,9% para outra de 3,5%.

No cenário externo, houve alguma melhora nas perspectivas para a atividade econômica nos países desenvolvidos, com a intensificação dos estímulos monetários no Japão e na Área do Euro e a confirmação da tendência de recuperação da economia norte-americana. No entanto, o aumento da volatilidade nos mercados internacionais e as preocupações com a economia chinesa representam uma fonte de risco relevante para as economias emergentes.

As projeções de inflação no cenário de referência (que considera câmbio e Selic estáveis) foram revisadas para cima neste ano e no próximo. A expectativa para o IPCA de 2016 subiu de 6,2% para 6,6%. Para 2017, a projeção passou de 4,8% para 4,9%. No cenário de mercado– que considera as expectativas de mercado tanto para os juros quanto para o câmbio–, o IPCA também subiu, de 6,3% para 6,9% neste ano e de 4,9% para 5,4% no próximo. Em ambos os cenários, a inflação encontra-se próxima ao centro da meta no primeiro trimestre de 2018 (4,5% e 5,0%, respectivamente).

Por fim, o RTI traz um box com a decomposição da inflação de 2015, mostrando que de fato grande parte do choque inflacionário resultou do realinhamento dos preços administrados. Do aumento de 10,67% do IPCA registrado no ano passado, 39,5%, ou 4,21 p.p., refletiu a variação de 18,07% dos preços administrados. Já a inflação de 8,51% dos preços livres respondeu por 2,97 p.p. e o repasse cambial, 1,57 ponto percentual. Por fim, o choque de oferta, a deterioração das expectativas e a inércia contribuíram com 0,86 p.p., 0,73 p.p. e 0,33 p.p., respectivamente. 

Em resumo, na nossa opinião, diante da extraordinária peculiaridade do momento atual, todo processo decisório em relação à política monetária se reveste de extrema reponsabilidade e cautela. De todo modo, na nossa visão, o patamar atual da taxa Selic é amplamente suficiente para fazer convergir gradualmente a inflação de 2017 para bastante próximo do centro da meta. Com isso, prevemos que a taxa básica de juros encerrará ente ano em 12,25%.

* Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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