Home > ARTIGOS > Mercado de trabalho: potencial fonte de pressão inflacionária na Zona do Euro

ARTIGOS

28/03/2018 13:25 por Redação

Mercado de trabalho: potencial fonte de pressão inflacionária na Zona do Euro

Depec-Bradesco*

As surpresas positivas com o desempenho da atividade econômica da Área do Euro, ao longo dos últimos trimestres, têm se acumulado. O consenso para o crescimento deste ano, por exemplo, passou de 1,7% para 2,4%. Contudo, apesar dessa dinâmica benigna, a trajetória de inflação manteve-se bem comportada, sem sinais de rápida aceleração. Por sua vez, em diversos pronunciamentos, o Banco Central Europeu (BCE) ressaltou a percepção de que em algum momento a inflação caminharia de maneira sustentável para a meta. Nesse sentido, a melhora do mercado de trabalho e suas implicações sobre os salários se coloca como um importante fator que poderia contribuir para essa convergência à meta.

O mercado de trabalho na região está aquecido, com taxas de desemprego próximas às mínimas históricas. Em janeiro deste ano, a taxa de desemprego alcançou 8,6%, ante pico de aproximadamente 12% atingido no auge da crise. A abertura entre os países membros mostra que a trajetória favorável se aplica a todos, ainda que em intensidades bastante distintas. Entre as maiores taxas de desemprego, destacam-se a Grécia e a Espanha, com 21% e 16%, respectivamente - a Grécia em decorrência da intensa crise fiscal e a Espanha com o impacto negativo da crise imobiliária. Apesar do percentual ainda elevado, a melhora do mercado de trabalho é indiscutível, mesmo nesses países. Em meados de 2013, em meio à crise financeira e fiscal, a taxa de desemprego na Grécia chegou a 28% e, na Espanha, a 26%. Na ponta oposta, a Alemanha se depara com a taxa de desemprego no menor patamar histórico, 5,4%.

A mensagem de mercado de trabalho aquecido permanece válida sob diferentes óticas, seja no indicador de desemprego clássico, ou em medidas alternativas, como a participação de subemprego no total da população economicamente ativa (PEA) ou a taxa de desemprego por faixa etária. Ainda que seja verdadeiro que parte da população está alocada em subempregos e em funções de meio expediente, a participação desse subconjunto tem diminuído, tanto como proporção da PEA quanto ante o número de empregados. Da mesma forma, ainda que o cenário se mostre menos favorável para os jovens (população abaixo de 25 anos, com taxa de desemprego próxima a 18%), é possível observar um mercado de trabalho cada vez mais benigno, com desaceleração consistente desse percentual desde 2015.

Apesar dessa redução expressiva da taxa de desemprego, os reajustes salariais têm se mostrado bastante limitados. As estatísticas de rendimento e custo unitário do trabalho (ULC) - da indústria, construção e serviços, por exemplo, permaneceram contidas. Ainda que a trajetória se mostre ascendente, desde meados de 2016, os reajustes até o terceiro trimestre de 2017 foram inferiores a 2% no ano. O desempenho dos salários e do ULC ajudou a ancorar as expectativas inflacionárias, sugerindo que o cenário sem pressões de custos ou preços permanecerá valido por mais algum tempo.

Esse descompasso entre a redução da taxa de desemprego e os reajustes salariais comedidos tem sido objeto de debate das autoridades econômicas e de acadêmicos. Em diversas manifestações, o BCE tem transparecido o questionamento sobre a possibilidade de uma mudança na relação entre essas variáveis. Em 2015, o BCE argumentava que o crescimento da remuneração inferior ao esperado poderia ser decorrente de alterações nas leis trabalhistas, que ocorreram em diversos países da região, e que gerariam ganhos de produtividade. A

lém disso, na ocasião, a percepção de que ainda havia mão-de-obra excedente acabava limitando a aceleração dos custos salariais. Contudo, com o decorrer do tempo (e a redução da ociosidade no mercado de trabalho), a preocupação quanto à possiblidade de pressões inflacionárias proveniente de custos trabalhistas tem aumentado.  Recorrendo à relação histórica entre essas variáveis, expressa na curva de Phillips, é possível notar (assim como tem ocorrido em outros países, em especial nos Estados Unidos) que a sensibilidade dos reajustes salariais tem sido menor do que no passado. Essa mudança recente na sensibilidade entre desemprego e inflação é chamada de “maior horizontalidade” da Curva de Phillips.

Entendemos que a análise agregada dos dados pode esconder algumas tendências subjacentes. Por exemplo, observando os dados por país, notamos que a Alemanha está mais adiantada no ciclo, com taxa de desemprego no menor patamar histórico e com expansão, ainda que sutil, do ULC.

Ainda que o ciclo do mercado de trabalho se mostre mais adiantado na Alemanha, é possível notar que sua curva de Phillips com dados pós crise se mostra razoavelmente horizontal. É verdade que o período de análise não contempla diversos ciclos econômicos, mas, de fato, em diversas regiões do mundo, as surpresas persistentes (para baixo) de inflação ocorreram após a crise de 2008.

Ainda que a sensibilidade da inflação ao desemprego possa ter diminuído na Alemanha, movimento que também foi visto em outros países desenvolvidos, é importante destacar que a sensibilidade ainda existe. Além disso, vale ressaltar que diversos estudos consideram a economia alemã como benchmark em termos de produtividade para a região. Dessa forma, a Alemanha acaba exercendo papel de âncora para as expectativas dos reajustes salarias dos demais países do bloco. Assim, se realmente notarmos uma aceleração dos custos trabalhistas alemães, ainda que de maneira bastante gradual, isso poderá ser um sinal de alerta para uma trajetória de alta mais consistente de inflação na Área do Euro.

Nosso cenário base não contempla movimentos abruptos em termos de custos trabalhistas na Área do Euro. Mesmo na Alemanha, é possível notar que a migração de mão-de-obra de países periféricos (Hungria, Bulgária e República Tcheca) tem contribuído para evitar uma pressão mais latente dos reajustes salariais. Contudo, esperamos que a trajetória dos custos trabalhistas seja ascendente, em ritmo lento e compatível com a manutenção de uma política monetária acomodatícia por mais alguns trimestres à frente. Nesse sentido, esperamos que o programa de compra de ativos do BCE se encerre em setembro deste ano, mas vislumbramos que as discussões acerca da remoção das compras (redução do balanço do banco central) ou de ajustes na taxa de juros deverão ficar apenas para 2019.

* Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

'
Enviando