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22/01/2020 07:51 por Advillage

“Um caso familiar de atirar no mensageiro e ignorar a mensagem”, diz o The New York Times

Em editorial, jornal americano diz que ação do MPF contra Glenn Greenwald é “uma ameaça perigosa ao Estado de direito”

“A denúncia do governo brasileiro contra o jornalista americano Glenn Greenwald é um caso cada vez mais familiar de atirar no mensageiro e ignorar a mensagem”.

Tuíte do The New York Times que oferece link para editorial do jornal sobre a denúncia de um procurador do Ministério Público Federal contra Glenn Greenwald.

Os principais jornais brasileiros, Folha, Estadão e O Globo, silenciaram sobre o assunto.

Leia os principais trechos do editorial, assinado pelo conselho editorial do NYT, “um grupo de jornalistas de opinião, separado da redação, cujas opiniõessão balizadas por experiência, pesquisa, debate e certos valores de longa data”:

A apresentação de acusações criminais pelo governo brasileiro contra o jornalista norte-americano Glenn Greenwald é um caso cada vez mais familiar de atirar no mensageiro e ignorar a mensagem.

O sr. Greenwald é mais conhecido por seu papel na liberação de documentos de segurança nacional vazados por Edward Snowden, ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional, em 2013. No Brasil, onde se mudou há 15 anos para estar com seu agora marido, um deputado brasileiro da oposição, o sr. Greenwald co-fundou uma versão em português de seu site de notícias de investigação, The Intercept, que se tornou um espinho para o presidente de extrema-direita, Jair Bolsonaro.

Em junho passado, o The Intercept Brasil publicou uma série de artigos, baseados em mensagens de celular vazadas, que pareciam mostrar um conluio ilegal entre promotores e Sérgio Moro, o juiz que havia se tornado um superstar destruidor de corrupção por encarcerar dezenas de empresários e políticos, entre eles o popular ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A prisão de Lula da Silva o tirou da disputa para presidente, abrindo caminho para a eleição de Bolsonaro – que então nomeou Moro como seu ministro da Justiça. Agora, além desse conflito implícito de interesses, as mensagens hackeadas sugeriram que Moro havia violado a lei brasileira, pela qual os juízes deveriam ser árbitros neutros, para ajudar Bolsonaro. E isso por um homem anteriormente celebrado por seu ataque à corrupção generalizada. (...)

A queixa criminal de 95 páginas tornada pública na terça-feira diz que o Sr. Greenwald não só recebeu e escreveu sobre mensagens hackeadas, mas na verdade desempenhou um "papel claro na facilitação da prática de um crime." Os promotores disseram, por exemplo, que Greenwald se comunicou com os hackers enquanto eles monitoravam bate-papos privados em um aplicativo de mensagens.

Os peritos legais e os políticos da oposição disseram que a evidência era frágil. Uma investigação da Polícia Federal, que identificou e prendeu o hacker, já havia inocentado Greenwald, e um juiz do Supremo Tribunal Federal havia declarado que a publicação das mensagens estava protegida pela Constituição Brasileira.


Greenwald disse que "atuou com extrema cautela como jornalista para nunca sequer chegar perto de qualquer participação" no hackeamento; ele também observou que a denúncia foi apresentada pelo mesmo promotor que já havia tentado, sem sucesso, processar o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil por criticar o sr. Moro.

Infelizmente, atacar uma imprensa livre e crítica tornou-se uma pedra angular da nova geração de líderes iliberais no Brasil, nos Estados Unidos e em outros lugares do mundo. Acusações de irregularidades são descartadas como "notícias falsas" ou calúnia politicamente motivada, e o poder do Estado é exercido não contra os funcionários acusados, mas contra o repórter.

Em seu relatório de 2018 sobre liberdade de imprensa, a organização Repórteres Sem Fronteiras advertiu que um "clima de ódio e animosidade" incitado pelos líderes em relação aos jornalistas estava representando uma "ameaça às democracias".

"Cada vez mais líderes democraticamente eleitos não veem mais a mídia como parte da base essencial da democracia, mas como um adversário ao qual exibem abertamente sua aversão", disse o relatório. Quando Bolsonaro foi eleito presidente, em 2018, Repórteres sem Fronteiras o chamou de "uma séria ameaça à liberdade de imprensa e à democracia no Brasil".

O presidente Trump pode não ter feito um arranhão sequer na liberdade de imprensa nos Estados Unidos - suas tradições e instituições são muito fortes para isso - mas sua obsessão em classificar histórias de que ele não gosta como "fake news" e seus ataques ultrajantes contra os repórteres como "inimigos do povo" têm servido de incentivo para Bolsonaro, que alimenta o ódio contra os repórteres, tanto por um desdém pessoal pela imprensa livre como um meio cínico de insuflar a fúria de seus seguidores.

Leia mais: Veja a repercussão da denúncia do MPF contra Glenn Greenwald.

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