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21/06/2019 11:13 por Redação

Relatório da ONU permite reflexão além da numeralha

Lançado a cada dois anos, documento faz um retrato da população de 235 países e pontua: em 13 anos, o mundo terá 1,4 bilhão de idosos

Rachel Cardoso*

A transição demográfica é global e irreversível. E o processo de envelhecimento de uma população não pode ser visto como fato isolado. Há reflexos na vida social, nas contas públicas, no mercado de trabalho, na saúde e assistência médica e, na composição das famílias. Por isso, o mais recente relatório World Population Prospects, da ONU - Organização das Nações Unidas demanda uma reflexão que vai além da numeralha toda.

O documento, lançado a cada dois anos, faz um retrato da população de 235 países. Estima-se um contingente atual de 7,7 bilhões, que deve chegar a 9,7 bilhões em 2050, saltando a quase 11 bilhões em 2100.

Mostra ainda que, em 13 anos, o mundo terá 1,4 bilhão de idosos. Um número que deve passar de 2 bilhão em 2050, quando todas as regiões do mundo, exceto a África, terão um quarto ou mais de sua população com mais de 60. É uma parcela que cresce em média 3% ao ano devido às baixas taxas de fertilidade e a uma expectativa de vida maior. Hoje a média mundial é de 72,6 anos, mas deve aumentar para 77,1 anos em 2050.  

A taxa potencial de suporte, que compara os números de pessoas em idades ativas com os de pessoas acima dos 65 anos de idade, está em queda. No Japão, essa taxa é de 1,8, a menor do mundo. Outros 29 países — a maioria na Europa e no Caribe — já têm taxas potenciais de suporte abaixo de 3. Até 2050, estima-se que 48 países — a maioria na Europa, América do Norte e Leste e Sudeste da Ásia — terão taxas abaixo de 2.

Chama atenção ainda o fato de que em 2018, pela primeira vez na história, pessoas com 65 anos ou mais em todo o mundo superaram em número as crianças menores de cinco anos.  Projeções indicam que em 2050 haverá mais do que o dobro de pessoas com mais de 65 anos do que crianças menores de cinco anos. Até 2050, o número de pessoas com 65 anos ou mais globalmente também ultrapassará o número de adolescentes e jovens de 15 a 24 anos.

As regiões em que a parcela da população com 65 anos ou mais deve dobrar entre 2019 e 2050, de acordo com o documento, incluem o Norte da África e o Oeste da Ásia, o Centro e o Sul da Ásia, o Leste e o Sudeste da Ásia e a América Latina e Caribe. Na Europa e na América do Norte, até 2050, uma em cada quatro pessoas poderá ter 65 anos ou mais.

Globalmente, também a população com mais de 80 deve triplicar em 2050 de 137 milhões em 2017 para 425 milhões e 2050. Em 2100 estima-se que esse grupo alcance mais de 900 milhões.

Essas e outras estatísticas trazidas pelo relatório - que pode ser acessado na íntegra aqui, em inglês - deixam claro como é urgente um planejamento baseado nos cenários demográficos. Embora sejam projeções, o documento oferece um quadro que permite a tomada de decisões que transcendem o envelhecimento populacional.

Tal situação exige políticas desafiadoras, que podem (e devem) ser pautadas pelos ODSs - Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Trata-se de uma agenda formada por 17 eixos, que devem ser implementados por todos os países do mundo durante os próximos 15 anos, até 2030.

Um olhar mais atento para a sociedade é o suficiente para perceber que o processo de envelhecimento ocorre num cenário caracterizado por desigualdade, pobreza, esgotamento de um modelo de crescimento econômico insustentável e avanço do desemprego e do emprego de baixa produtividade. Por isso mesmo é tão importante incorporar as pessoas idosas na implementação e no acompanhamento da Agenda 2030.

Nesse caminho, a Cepal - Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe indica alternativas no livro Envelhecimento, pessoas idosas e Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Perspectiva regional e de direitos humanos. O conteúdo traz diretrizes para garantir o acesso à proteção social que, sob a perspectiva da CEPAL, implica a integração de três pilares básicos: pensões, atenção básica à saúde e cuidados para a autonomia.

“É um convite à reflexão sobre nós mesmos, sobre a vida que queremos e a sociedade que ansiamos (mais solidária, mais interdependente, onde ninguém fique para trás) e sobre o que poderíamos fazer para nela incluir, com toda justiça e em pé de igualdade, as pessoas idosas com total respeito à sua autonomia e dignidade”, conclui Alicia Bárcena, Secretária Executiva da CEPAL, no prólogo da publicação. Acesse aqui (em espanhol).

Vale a leitura. Leia mais no artigo Um jovem País de Cabelos Grisalhos.

* Rachel Cardoso, jornalista, é editora do blog Casa de Mãe.

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