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18/07/2018 12:17 por Redação

Características do transporte de cargas no Brasil

Ellen Regina Steter Hanna Farath*

Diante do debate acerca do transporte de cargas no País, vale registrar algumas características desse setor em estudos divulgados nos últimos anos, começando pela nossa concentração na modalidade rodoviária: cerca de 65% do transporte total de carga é escoado por esse modal, segundo dados da EPL (Empresa de Planejamento e Logística). No segmento de carga geral, esse percentual alcança 87%, seguido pelo agronegócio, com 60%.

De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos) com dados de 2012, os gastos das empresas brasileiras com logística chegaram a 8,7% da receita líquida, percentual superior ao destinado pelas empresas norte-americanas, de 7,4%. Evidente que esse percentual reflete uma média setorial e que o impacto entre os segmentos está diretamente atrelado ao volume transportado e à distância percorrida. Entre os setores mais expostos ao custo de logística se destacam: mineração, agronegócio, siderurgia e metalurgia e papel e celulose, com a ordem respeitando o percentual do gasto sobre a receita. Quando isolamos apenas o fator transporte no custo, a ordem é ligeiramente alterada para: mineração (10%), papel e celulose (9%), agronegócio (8%) e siderurgia e metalurgia (7%).

No mesmo sentido, estudo realizado pela Fundação Dom Cabral (FDC), baseado em 130 empresas, observou que os custos logísticos como proporção do faturamento bruto chegaram a 12,37% em 2017 e que esse percentual ao longo dos últimos anos aumentou, saindo de 11,52% em 2014. 4 Do ponto de vista setorial, o impacto do custo logístico no faturamento das empresas é muito parecido com o levantamento do ILOS: mineração (26,1%), papel e celulose (21,7%), agronegócio (20,7%) e construção (18%).

Na mesma pesquisa, a FDC decompôs o custo logístico entre os principais itens e observou que cerca de 40% do gasto está atrelado ao transporte de longa distância e 23,4%, à distribuição urbana. Consequentemente, o transporte é classificado pelos empresários como o item de maior impacto na formação do preço final do produto. Assim, entre as iniciativas tomadas pelas empresas com intuito de reduzir os custos, a terceirização da frota e de serviços logísticos se destacou. Logo, variações no preço do transporte tendem a ter implicações na formação de preço dos bens finais e na estrutura de verticalização do setor de cargas.

As pesquisas descritas acima sumarizam a relevância do transporte para a produtividade nacional e, quando somadas às estatísticas de escoamento de carga, evidenciam a importância do transporte rodoviário como modal brasileiro. Setorialmente, apesar de os estudos sugerirem uma exposição maior ao custo de logística no segmento de mineração, a dependência do setor ao modal rodoviário é inferior à do agronegócio, 40% ante 60%, de acordo com dados da EPL.

Nesse sentido, o anuário estatístico de transportes de 2017 destacou que a parte da produção destinada ao consumo interno do complexo de soja e milho é 100% escoada através do sistema rodoviário. Por esse modal, 112,6 milhões de toneladas (entre milho, soja e farelo de soja) foram destinadas ao mercado nacional em 2016, percorrendo uma distância em geral inferior a 200 km. No que se refere às exportações de soja, a participação do modal rodoviário passou de 33% em 2010 para 48% em 2016. Apesar da relevância dos demais meios de transporte, vale a ressalva de que até chegar no transbordo de carga, os produtos são conduzidos principalmente por rodovias.

Estudo realizado pela Embrapa revela a complexidade logística do agronegócio brasileiro: cerca de 42% da produção de grãos ocorre na região Centro-Oeste e 49% da produção nacional é escoada pelos portos de Santos (SP) e de Paranaguá (PR). Ponderando pela participação na pauta de exportação, o estudo focou na logística de soja e milho. Entre as unidades da federação, o Mato Grosso é o principal exportador desses grãos, com participação ao redor de 35%, seguido por Paraná (14%), Rio Grande do Sul (13%), Goiás (8%) e Mato Grosso do Sul (8%). Do ponto de vista logístico, os estados de RS, PR, SP e BA são os que possuem rotas praticamente consolidadas, em virtude de seus portos. Entretendo, a maior região produtora, o Centro-Oeste, ainda não conseguiu estabelecer a rota ideal. Apesar dos investimentos realizados no porto de Itaqui (MA) terem melhorado o escoamento, a dependência dos portos do Sul e do Sudeste, tanto para exportação quanto para importação de insumos (fertilizantes), segue elevada.

Outra característica da estrutura de produção agrícola é que parte relevante dos fertilizantes utilizados na nossa lavoura é importada e chega até os produtores rurais através de frete retorno (o caminhão que escoa os grãos nos portos retorna com os insumos). Dessa forma, quanto antes houver clareza a respeito das novas regras vigentes para o setor de transporte, menores serão as preocupações com a próxima safra, dependente de insumos). Assim, os próximos meses serão cruciais para monitorarmos a compra de fertilizantes; afinal, o plantio da soja e da primeira safra de milho se inicia entre meados de setembro e início de outubro.

Os desafios logísticos brasileiros estão além da diversificação dos modais de transporte. Dito de outra forma, a despeito de concentrarmos mais de 60% do nosso transporte de carga em um único modal, a qualidade das rodovias exacerba o custo logístico. Pesquisa realizada pela CNT (Confederação Nacional do Transporte) mostrou que 61,8% da extensão das rodovias teve seu estado geral considerado regular, ruim ou péssimo em 2017.8 Apenas 38,2% das rodovias tiveram classificação “bom” ou “ótimo” estado. Diante desse cenário, considerando a qualidade da pavimentação, o estudo revelou aumento de 27% nos custos operacionais dos transportadores no ano passado. Regionalmente, os maiores custos observados foram nas regiões Norte (33,6%) e Centro-Oeste (29,3%). Portanto, mais um ponto de atenção para o agronegócio.

Além da questão relacionada à qualidade, quando comparado a outros países exportadores, o Brasil possui baixa densidade de rodovias pavimentadas: cerca de 25,0 quilômetros de rodovias são pavimentados por mil quilômetros quadrados. Trata-se de uma extensão consideravelmente inferior ao verificado nos demais competidores globais.

Portanto, o que esses dados revelam é que o endereçamento de medidas estruturais é fundamental para elevarmos nossa produtividade. Neste ano, o ranking Doing Business, construído pelo Banco Mundial, classificou o Brasil, no quesito de logística, na 139ª colocação em uma relação de 190 países, reforçando o espaço elevado para ajustes estruturais no setor.

* Ellen Regina Steter Hanna Farath é economista do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

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