Home > ARTIGOS > Crescimento doméstico gradual e atividade global forte impulsionarão a balança comercial em 2018

ARTIGOS

17/01/2018 13:16 por Redação

Crescimento doméstico gradual e atividade global forte impulsionarão a balança comercial em 2018

Depec-Bradesco*

A balança comercial brasileira encerrou o ano de 2017 com recorde histórico, atingindo US$ 67 bilhões contra US$ 47 bilhões em 2016, contribuindo expressivamente para nova redução do déficit em conta corrente. As exportações totalizaram US$ 217,8 bilhões e as importações atingiram US$ 150,8 bilhões. O destaque foi, sem dúvida, a recuperação das vendas externas, com expansão de 18% após cinco anos de queda, impulsionada tanto pela evolução dos preços (cerca de 10%) como dos volumes (cerca de 8%). Ressaltamos os crescimentos expressivos das exportações de automóveis (alta de 43%), soja (32%) e petróleo (25%). As importações também iniciaram uma trajetória de alta, registrando avanço de 10% em 2017 (4% de preços e 6% de quantidades), sendo que os bens intermediários apresentaram crescimento de 10% e a elevação de 42% das compras de combustíveis e lubrificantes acabou compensando a queda de 12% no ano dos desembarques de bens de capital.

Importante salientar que a recuperação das importações em quantum está ocorrendo em ritmo gradual, acompanhando a melhora paulatina da atividade doméstica. Na verdade, o quantum importado tem até se mantido estável em termos dessazonalizados desde agosto. De todo modo, para 2018, vislumbramos que os volumes importados voltarão a crescer na margem por basicamente três fatores: i) recuperação esperada dos investimentos, com alta projetada de 6%, que deverá favorecer as importações de bens de capital; ii) fim da cobrança de IPI de automóveis importados, que impulsionará os desembarques de veículos, o que nos leva a projetar crescimento de cerca de 36% das importações de duráveis neste ano; iii) recuperação, ainda que gradual, da indústria, o que deverá estimular novamente as compras de bens intermediários. Assim, esperamos que as importações registrem altas de 12% em quantum e de 3% em preços no ano.

Em relação às exportações, esperamos que apresentem crescimento de quantum e de preços de 6% em 2018. Os embarques continuarão firmes, em nossa visão, em grande medida por conta do estágio atual do crescimento global, que tem se mostrado intenso e disseminado. Tal fator favorecerá, de um lado, os preços de exportação e, de outro, as quantidades vendidas. Importante mencionar que altas variações observadas nas exportações de soja, petróleo e automóveis não devem se repetir em 2018, razão pela qual esperamos desaceleração do crescimento dos volumes exportados. O comércio mundial tem se mostrado robusto e deverá permanecer assim ao longo do ano, impulsionando, portanto, novas altas dos embarques na margem, revertendo os últimos dados que mostraram alguma moderação (em novembro e dezembro). De fato, as informações parciais de janeiro já exibem dados dessazonalizados muitos fortes de vendas externas.

Incorporamos também em nosso cenário as exportações fictas de plataformas de exploração de petróleo, tendo em vista a entrada em operação de oito sistemas ao longo do ano de 2018. Ainda que fictas, essas operações impactam o resultado da balança comercial tanto do MDIC como o apurado pelo BCB (e, portanto, o déficit externo também é afetado). Estamos considerando US$ 4,2 bilhões de exportações fictas de plataformas neste ano, contra US$ 904 milhões registrados em 2017. Apenas isso implica uma elevação de cerca de 2% do quantum embarcado, ou seja, o aumento do quantum excluindo plataformas implícito em nosso cenário é de 4% em 2018, não muito desafiador, tendo em vista o ritmo atual e o esperado de crescimentos do PIB e do comércio mundial, como já enfatizado. 

Decompondo os vetores que impactaram as exportações e importações em 2017, observamos que o PIB global mais aquecido se materializou em quantuns e preços de exportações mais elevados e foi dominante para a alta de US$ 33 bilhões de vendas externas no ano. Essa dinâmica deverá se manter neste ano, tendo em vista inclusive a aceleração esperada do crescimento global. Do lado das importações, o câmbio, o PIB doméstico e os preços tiveram participação similar na alta de US$ 13 bilhões no ano passado. Porém, em 2018, a aceleração do crescimento local será o principal vetor, já que não esperamos grandes oscilações no câmbio real médio em relação ao observado no ano anterior. Como resultante, podemos dizer que a melhora de saldo de cerca de US$ 20 bilhões observada foi explicada majoritariamente pelos ganhos de termos de troca e em segundo lugar pelo diferencial de crescimento doméstico e externo, enquanto a apreciação cambial contribuiu negativamente para o saldo daquele ano.

Assim, considerando, de um lado, a expansão ainda gradual da atividade doméstica (apesar de mais forte do que a observada em 2017) e de outro, a continuidade de um crescimento global robusto, o saldo comercial em 2018 manterá, muito provavelmente, a excelente performance observada no ano passado. Ou seja, o diferencial de crescimento externo e doméstico se reduz, mas ainda continua presente. Incluindo as plataformas fictas, como discutimos anteriormente, o saldo poderá inclusive superar o desempenho do ano passado, atingindo US$ 70 bilhões em 2018 no conceito MDIC (US$ 67 bilhões, no conceito do BCB).

Com essa revisão de saldo comercial, o déficit externo, por sua vez, ainda ficará bastante baixo em 2018, chegando a cerca de US$ 16 bilhões, o que representa 0,7% do PIB (contra 1,2%, projetados anteriormente). Importante salientar que as contas de serviços e rendas deverão continuar a ampliar o déficit (sairão de cerca de US$ 74 bilhões em 2017 para US$ 83 bilhões neste ano, mesmo com o arrefecimento da conta de juros). Entretanto, a manutenção da balança comercial próxima dos US$ 70 bilhões limita, em grande medida, a piora do déficit externo neste ano.

Evidentemente, nos próximos anos, à medida que o crescimento doméstico se consolidar em ritmo mais acelerado, o déficit externo tende a ser ampliado. Todavia, conforme já discutimos em publicações anteriores, um ritmo de 3% do PIB doméstico deverá produzir um déficit externo no longo prazo de cerca de 2% do PIB, patamar facilmente financiável com recursos de investimentos diretos no país. Ainda assim, é importante mencionar que a convergência para os 2% de déficit em relação ao PIB que imaginávamos que ocorreria já em 2019, agora, com essas revisões do saldo comercial, deverá ser observada apenas em 2020. De todo modo, o mais relevante é o fato de poder contar com um déficit externo bastante baixo em 2018, o que tende a limitar a volatilidade dos preços de alguns ativos em função de potenciais incertezas externas ou locais.

* Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco.

'
Enviando